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Uma nova aldeia indígena no contexto urbano

Queridas irmãs e irmãos,

Aqui no grande Recife, neste início de janeiro, a novidade maior foi que irmãos e irmãs indígenas de vários povos que viviam na área urbana de Recife decidiram se juntar, ocupar um terreno que estava desocupado e dar assim início a um território que pode ser uma reserva indígena para os muitos/as indígenas que viviam na diáspora nesta região metropolitana. 

Desde o início de janeiro, 60 famílias pertencentes a vários povos originários do Nordeste, Brasil e Abya Ayla ocuparam um terreno próximo ao antigo engenho Monjope no município de Igarassu (norte do Estado de Pernambuco) mais ou menos a 30 quilômetros da capital. O terreno pertence à prefeitura e esta não quer ceder o terreno aos índios e já obteve a liminar de reintegração de posse contra a comunidade.

A retomada é formada por membros de vários povos indígenas que promoveram uma “emergência étnica” e formaram o povo “Karaxuwanassu”, assim como se organizam através da “Associação dos Povos Indígenas em contexto urbano” (ASSICUKA). Além de muitos dos povos originários de Pernambuco há várias famílias do povo Warao que vieram da Venezuela e também participam dessa reserva indígena que precisa da nossa solidariedade e do nosso apoio para se manter e ver seus direitos de existência respeitados.

A comunidade se organiza de acordo com as culturas e tem um conselho presidido por uma liderança escolhida por todos, liderança política (cacica) e liderança religiosa (pajé).

O que podemos fazer para apoiar?

1 – Penso que, antes de tudo, divulgar essa notícia e manifestar apoio popular para que da noite para o dia a prefeita não possa cumprir sua ameaça de despejar a todos e todas da área.

2 – Seria bom articular grupos de apoio nas diversas áreas. No campo político, jurídico e principalmente popular.

O nosso contato é através de Daniel Ribeiro, jovem advogado do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) que está acompanhando a comunidade (Telefone e zap 81 – 9 8198941-1441).

(21/01/2023)

Para retomar nossa vocação profética

Neste 2º Domingo do Advento, o evangelho lido nas comunidades, Mateus 3, 1 – 12 nos traz a figura de João Batista como quem primeiro anuncia e testemunha a vinda do reino de Deus, ou dos céus, como diz Mateus.

Para Mateus, quem começou o evangelho foi João Batista, profeta de Israel. João revela que a mensagem do reino é comum aos dois testamentos. Não há solução de continuidade. O fio condutor é o profetismo, a capacidade de ver os sinais do reino e fazer a vontade do Pai para que o reino e sua justiça sejam sempre a prioridade. Em Mateus, Jesus representa a verdadeira realização do Judaísmo: a plenitude da lei e dos profetas.

As palavras de João pedindo conversão e justiça (e não apenas ritos), são atuais. Ele pede arrependimento, conversão. Esse apelo: “Arrependei-vos, o reino dos céus está chegando” (Mt 3, 2). O original grego diz: “Mudem de mente(metanoiete), porque o reino divino acabou de chegar (em grego: eggiken). Alguns textos traduzem como “está perto ou próximo”. Só se for geograficamente porque em termos de tempo, conforme esse evangelho, já chegou. E só Mateus diz isso. Já chegou!

Afirmar que o reino já chegou, mesmo quando vivemos na realidade social e política, uma situação oposta ao projeto divino, é uma profecia corajosa. É subversiva em relação a todos os impérios e aos nossos costumes e convenções costumeiras. Naquele tempo, afirmar que o reino de Deus já chegou era negar o poder do império. E o evangelho afirma isso no tempo em que o Império Romano era mais poderoso e atuante.

Hoje, o que significa afirmar que o reino de Deus já chegou? Como podemos afirmar que esse reino chegou, se o mundo parece caminhar na direção contrária ao reino? Qualquer pessoa pode ver que, que tanto na Igreja Católica, como em Igrejas evangélicas e pentecostais, muitos ministros e grupos cristãos se fecham em uma forma de religião narcisista e auto-referencial, descomprometida com a profecia do reino como transformação do mundo.

Ao contrário disso, o reinado divino pede antes de tudo conversão, isso é, “voltar atrás” e regressar a uma relação de aliança de fidelidade e compromisso com Deus. Mais tarde, o próprio Jesus vai dizer: “Não é quem me diz: Senhor, Senhor, que entra no reino, mas quem, de fato, realiza a vontade do Pai”(7, 21). De qualquer modo, João acolhe a todos e não se considera ele mesmo como realização das profecias. Ele vê as profecias realizadas na pessoa do Cristo, que vem após ele.. Esse “virá após mim”(v. 11) significa que o Cristo o seguirá como discípulo.  Jesus se insere na história como discípulo de um profeta e é acolhido pelo povo como profeta. Também nós, se somos verdadeiramente cristãos,  temos de ser discípulos do profeta Jesus e viver o profetismo que nos é pedido.

Para revitalizar o profetismo, Joao Batista se coloca no deserto entre o rio Jordão e a terra prometida. É o lugar da antiga conquista da terra e do Êxodo. Foi pelo rio Jordão que, segundo a Bíblia, os hebreus entraram na terra prometida (Js 3, 14- 17). Então, o Jordão tem uma dimensão simbólica na história de Israel. Era como se, ao ser mergulhado/a naquele rio, (batizada), as pessoas e comunidades passassem de um império do mal (de Roma) ao reinado divino. A palavra usada para significar “banho” (miqweh) tem duplo sentido: banho e esperança. Daí que o batismo de João podia ter um sentido de anúncio do Reino futuro.

Hoje, podemos atualizar isso dizendo: Só se vive um cristianismo profético retomando uma espiritualidade sócio-político libertadora. Só assumindo as causas da libertação, podemos ser profetas como João Batista e como Jesus e, assim viver o Advento como tempo de retomada da expectativa do reino.

Assumir as causas da libertação, nós assumimos junto com todos os movimentos sociais e partidos de esquerda que lutam pela transformação do país e do mundo. No entanto, talvez alguém de vocês me perguntem se não há algum diferencial nessa profecia do reino que é a nossa, ou seja, a profecia propriamente cristã.

Não parece que Jesus tenha se preocupado com isso. Ele quis, ele  mesmo se inserir no caminho da esperança e do movimento profético. No entanto, sem dúvida, há algo de próprio e de novo neste anúncio de João Batista sobre o batismo (mergulho) nessa vida nova. A vida nova que propomos para o mundo tem de começar por nós mesmos que devemos nela mergulhar (ser batizados).

Profetas como Isaías, Jeremias e Oséias apresentam a aliança do Senhor como um casamento de Deus com o seu povo. Agora, João diz que o povo rompeu com este casamento e Jesus é o Casamenteiro que vem reatar este casamento de Deus com o povo. No evangelho, João afirma que não precisará desatar as sandálias de Jesus porque Jesus representa Deus, o Esposo da humanidade. Por isso, João Batista fala do gesto de desatar as sandálias dizendo que não é digno de desatar as sandálias do Messias. É uma imagem que remete à cultura patriarcal da sociedade israelita antiga, mas comparar a  aliança com Deus com a intimidade do casamento pode ser atual. Temos de redescobrir como viver uma fé profética, que se expressa no compromisso social e político transformador e, ao mesmo tempo, se renova na relação carinhosa e afetuosa da relação de intimidade com Deus.

(03/12/2023)

Oitava do Natal – A Palavra Divina se faz carne em nossas coletividades

Oitava do Natal 

(Festa de Maria Mãe de Deus) – Lc 2, 16-21

Na Liturgia deste tempo de Natal, se repete muito esta palavra do Evangelho: “A Palavra se fez carne e armou sua tenda no meio de nós” (Jo 1, 14). É o evangelho lido durante o dia 31 de dezembro. É o nosso modo de reconhecer a presença divina na pessoa do homem Jesus de Nazaré.

Dom Pedro Casaldáliga pedia para que alargássemos o mais possível a compreensão dessa verdade de fé. Ele afirmava: “O Verbo se fez índio”. “O Verbo se fez carpinteiro na oficina de José”. Isso significa que o Cristo, como Palavra de Deus assume nossas realidades, nossas famílias, nossas culturas.

Até que ponto, você que está lendo essas linhas acredita profundamente nisso?

O nosso irmão e companheiro de comunidade Gildo Xucuru nos diz que, nestes primeiros dias do ano novo, os sábios do povo Xucuru costumam ir para a serra sagrada do Ororubá (município de Pesqueira, PE). Na montanha, passam uma noite em vigília à espera do amanhecer. Quando, no horizonte, aparece a primeira barra do dia, ao olharem o céu, dizem algo sobre o ano novo que se está iniciando. Ali, em sua sabedoria ancestral, ouvem a voz da natureza e reconhecem nela uma revelação divina sobre a vida para este ano novo.

Você interpreta isso como simples costume folclórico ou aceita como instrumento através do qual o Amor Divino fala a cada cultura? Aqui fica o convite para acolhermos as sabedorias ancestrais como expressões da encarnação do Verbo Divino que continua se fazendo carne entre nós.

Neste primeiro dia do ano, as Igrejas antigas celebram o oitavo dia da festa do Natal quando a tradição recorda a circuncisão, rito no qual, com oito dias de nascido, o menino recebe oficialmente o nome de Jesus. A partir de uma tradição antiga, a Igreja Católica dedica este dia a Maria, mãe de Jesus. De fato, independentemente dos conflitos dogmáticos de cultura grega que criaram este conceito da “Mãe de Deus”, é bom pensar que Deus se humaniza a tal ponto de ser como qualquer um de nós que teve ou tem mãe.

Contemplar em Maria, a mãe de Jesus é ver nela a imagem de toda comunidade de fé que gera Cristo em nós. Se não fosse Maria, não teríamos Jesus que nasceu de Maria. Se não fosse a comunidade de fé (a nossa comunidade), Jesus não é gerado em nós, em nossas vidas e nossa missão.

De acordo com o lecionário ecumênico, o evangelho lido nas comunidades é Lucas 2, 16- 21. Começa pelas palavras “Quando os anjos se afastaram, os pastores disseram uns aos outros: Vamos a Belém para ver o que aconteceu”. Parece final de festa. O extraordinário passou e agora se trata de ver a realidade. Os pastores ouviram uma palavra maravilhosa de promessa de salvação. Foram a Belém, mas o que encontraram ali foi uma realidade muito simples, muito pobre e sob certo ponto de vista decepcionante. O desafio foi ver aquela família pobre e sem teto e ver ali o começo da realização de um projeto maravilhoso de Deus.

Em nossas vidas, muitas vezes, é preciso que também os anjos tenham se afastado. Às vezes, ao ver e ouvir pessoas religiosas, temos a impressão de que vivem sempre na presença de anjos. Não se dão conta de que, no mundo em que vivemos e na cultura em que estamos, os anjos se foram embora. A missão nos envia à inserção no meio do povo, sem anjos nem sinais do céu. Só mesmo a abertura para ver a presença e atuação do amor divino no meio da vida como ela é…

Este evangelho é praticamente o mesmo lido nas celebrações da aurora e da manhã do dia 25, tenho apenas acrescentado o verso 21: “Quando se completaram os oito dias para a circuncisão do menino, deram-lhe o nome de Jesus, como fora chamado pelo anjo, antes de ser concebido”.

Sabemos que o rito da circuncisão está ligado a culturas patriarcais. Consideramos a chamada circuncisão das meninas uma crueldade ainda mais violenta contra a mulher e o seu corpo. No entanto, o sentido original do rito nos ensina que, desde muito crianças,  somos tocados no que há de mais íntimo de nós mesmos, na própria identidade sexual, de modo que todo o nosso ser e nosso corpo entrem em sintonia com o mais profundo do nosso projeto de vida. Ao lembrar a circuncisão de Jesus em seu oitavo dia de vida, podemos dar graças ao ver como Deus assume a cultura humana de um povo, mesmo com seus aspectos culturais que podemos criticar (como o patriarcalismo ou o machismo).

Ao dizer que aos oito dias de nascido, Jesus foi circuncidado, o Evangelho mostra que ele se inseriu plenamente na cultura do seu povo. Ao inserir-se na cultura coletiva e pertencer ao povo judeu, ele assume seus valores e também suas limitações e lacunas. E é neste processo de inserção cultural e histórica que recebe o nome de Jesus. Ieoshuá significa “Deus é Salvação”. Hoje podemos traduzir o nome de Jesus como “Deus Amor é Libertação e Bem-viver”. E a própria vida de Jesus tornou sempre verdadeiro o nome que lhe foi dado como missão.

Hoje vivemos em um mundo no qual muita gente que diz ter fé testemunha um Deus patriarcal, violento, cruel e exclusivista, ou seja, amigos dos que lhe obedecem e inimigo dos que não seguem a lei que Ele, Deus teria imposto. Cada vez mais é preciso, seja em que religião nos situarmos, deixar claro que se cremos em Deus só pode ser um Deus que só possa amar e se é Deus nunca possa ser fonte de ódio, intolerância e exclusivismo. O irmão Roger Schutz dizia: Deus só pode amar.

De acordo com o evangelho, essa foi a missão de Jesus. Testemunhar isso seja a nossa missão neste ano novo. Há mais de 50 anos, os papas consagram o 1º de janeiro como “dia mundial da Paz”. Neste ano de 2023, a mensagem do papa Francisco para este dia tem como tema: “NINGUÉM PODE SALVAR-SE SOZINHO. JUNTOS, RECOMECEMOS A PARTIR DA COVID-19 A TRAÇAR CAMINHOS DE PAZ. Ao contemplar Maria como mãe de Jesus deixemos que, assim como este evangelho diz, também nós, como Maria, “guardemos todas essas coisas, meditando-as no coração”(v. 19).  Comecemos este ano novo com uma prece da espiritualidade indígena: “Ao despertar para um novo dia ou iniciar um caminho novo,

 olhamos para o Avô Sol  e para o Espírito presente

em todo o mundo que nos rodeia.

Não o vemos, mas cremos

que ele está ali e quer tomar conta de tudo,

através do comportamento certo que nos inspira.

 

Se trilhamos pelo lado certo do bem e do amor,

somos como os braços e as pernas do Espírito que nos move

e vai mexendo com a gente para o lado bom,

sem nem a gente notar”

(Testemunho de um velho cacique Kayapó). 

(31/12/2022)

Palavra que se faz Gente e Amor

Dia do Natal – Jo 1, 1-18

A Boa notícia deste Evangelho (João 1, 1- 18)  é tão impressionante, tão radical e revolucionário, que se formos tirar dele todas as consequências, muita gente e, talvez, nós mesmos o julguemos exagerado. Sempre nos perguntaremos se, realmente,  aguentamos esta radicalidade e até que ponto. Entretanto, por mais que sejamos audaciosos, não chegaremos a dizer tanto quanto sugere esta boa notícia do prólogo joanino.

Na vigília da noite de Natal, a novidade perene era a memória atualizada do nascimento de Jesus que tem consequências para nós hoje. No dia do Natal, o prólogo de João nos convida a contemplar a pessoa humana de Jesus, não apenas em seu nascimento, mas em toda a sua vida e reconhecer que, na humanidade dele (carne) a Palavra de Deus armou sua tenda.

O que isso tem a ver conosco e como crer nisso sem cair em uma fé que nos isole ou corte da palavra de salvação que Deus nos dá através das outras religiões e caminhos espirituais?

É preciso interpretarmos esse texto em uma perspectiva pluralista e para nos ajudar em uma espiritualidade do Natal que seja em comunhão com todos os caminhos espirituais.

1º – A primeira coisa que o prólogo do 4º Evangelho nos diz é que reconhecemos a presença divina na Palavra que é Comunicação e dê sentido à Vida (Logos). Esta Palavra (humana porque a palavra é algo próprio dos seres humanos) é divina porque é Luz, é a lei, é a regra que Deus nos dá para vivermos.

Deus é mistério e não adianta querer definir ou circunscrever. O Evangelho de hoje termina dizendo: “A Deus, ninguém nunca viu!”. Mas, aprendemos deste evangelho que ele se manifesta na Palavra que é Luz e Vida, na comunicação que é amor. Em diversas religiões e mesmo nas Igrejas cristãs, muita gente procurou fazer a experiência de Deus no silêncio e no isolamento. Sem negar que o silêncio e a solidão possam nos preparar para o encontro com Deus e com os outros, assim como o jejum pode nos abrir a saborear melhor a comida, o Evangelho nos diz que é na palavra que podemos encontrar o Divino. É na comunicação e na partilha que viveremos nossa espiritualidade.

Aí o prólogo de João nos diz que o Evangelho não é apenas um Código, um documento, (hoje está na moda falar em Código da Bíblia ou dos evangelhos, como se falou em Código da Vinci). O Evangelho é muito mais do que um documento. É experiência de comunicação em que nós nos sentimos tocados e mexidos em nossa vida mais profunda. E isso é a luz da vida.

Quando a gente ouve o Evangelho falar de luz e de trevas e dizer que a luz é a salvação da vida, isso pode soar muito teórico e vago, se nunca tivermos feito uma experiência de trevas profundas. Quem já viveu a experiência do escuro total em um acidente de estrada em uma madrugada chuvosa ou algum apagão que nos coloque em risco, pode compreender melhor essa imagem da luz que de repente brilha na escuridão.

A Bíblia diz que a Palavra de Deus (a Tora) é a luz no nosso caminho, nos dá indicação do caminho da salvação… Mas, os profetas opunham esta palavra e a carne…. (a criação e a humanidade separada de Deus). Isaías chega a dizer: “Toda criatura é como a erva do campo. Apenas floresce, já seca… Ao contrário, a Palavra de Deus permanece eternamente” (Is 40). A novidade deste Evangelho é que esta Palavra não só aceita assumir a fragilidade desta criação, mas se torna carne….Deus faz a sua Palavra carne… (O Verbo se fez carne – é o passivo divino. É o modo de evitar pronunciar o nome divino….). Deus faz a sua palavra se tornar carne em Jesus, mas através de Jesus em todo o universo e especialmente em toda pessoa humana. Em outro lugar, este Evangelho dirá que só em Jesus (e podemos explicar isso pela exegese), mas no prólogo, não. Diz o contrário: diz que a Palavra se fez carne em Jesus e que “de sua plenitude, nós todos recebemos graça sobre graça, graça e mais graça”. v. 18).

A lei foi dada por Moisés… A lei é boa e santa, como diz Paulo. Ajuda como preparação e método de vida, mas não salva ninguém, não salvará nenhuma instituição. O Evangelho nos diz claramente que a salvação nos vem pela verdade amorosa de Deus, oferecida de graça (não precisa ser de nenhuma religião ou Igreja), através do “Filho único que está no seio do Pai” e que se revela para os cristãos na pessoa de Jesus de Nazaré.

Esta Palavra assume nossa carne, nossa humanidade como ela é, sem dogmatismos, nem fundamentalismos legalistas ou medos institucionais da gente poder ser a gente mesmo… A graça da verdade, ou a verdade amorosa é dada pelo Pai a Jesus, Palavra de amor e verdade, tornada pessoa.

Agora, temos um critério novo: onde estiver a palavra de amor e verdade, onde a verdade amorosa se encarnar em alguém, ali se encarna o Verbo Divino, a Sabedoria Divina, ali está a Shekiná, a Tenda Divina para morar conosco. Adoremos.

 

 

“Raiou,

resplandeceu, iluminou
Na barra do dia,

o canto do galo ecoou
A flor se abriu,

a gota de orvalho brilhou
Quando o amanhã surgiu

dos dedos de nosso senhor

A paz amanheceu sobre o país
E o povo até pensou

que já era feliz
Mas foi porque

pra todo mundo pareceu
Que o menino Deus nasceu (raiou)

 

Raiou, resplandeceu, iluminou
Na barra do dia,

o canto do galo ecoou
A flor se abriu,

a gota de orvalho brilhou
Quando o amanhã surgiu

dos dedos de nosso senhor

A paz amanheceu sobre o país
E o povo até pensou que já era feliz
Mas foi porque pra todo mundo pareceu
Que o menino Deus nasceu

 

A tristeza se abraçou com a felicidade
Entoando cantos de alegria e liberdade
Parecia um carnaval no meio da cidade
Que me deu vontade de cantar pro meu amor

 

Raiou, resplandeceu, iluminou
Na barra do dia,

o canto do galo ecoou
A flor se abriu,

a gota de orvalho brilhou
Quando o amanhã surgiu

dos dedos de nosso senhor

A paz amanheceu sobre o país
E o povo até pensou que já era feliz
Mas foi porque

pra todo mundo pareceu
Que o menino Deus nasceu

Que o menino Deus nasceu
Que o menino Deus nasceu”

Canção: Menino Deus

Compositores: Paulo Cesar Pinheiro / Mauro Duarte De Oliveira

Gravada por Clara Nunes.

(25/12/2022)

“Um estranho no caminho”

Este foi o título que o papa Francisco deu ao segundo capítulo da encíclica Fratelli Tutti, no qual ele comenta o evangelho proposto para este domingo. É a parábola do samaritano que socorre o homem ferido na estrada de descida entre Jerusalém e Jericó (Lucas 10, 25- 37). Essa página do evangelho é das mais queridas pelas Igrejas da caminhada na América Latina.  

O evangelho de Lucas coloca a cena do encontro de Jesus com o professor da Bíblia e a parábola do samaritano no capítulo 10, no qual Jesus manda os discípulos em missão. Portanto, o agir como samaritano que socorre a pessoa ferida é elemento essencial da missão. Nos versículos anteriores, Jesus tinha dito que Deus revela os seus segredos aos simples e pequeninos que o acolhem e compreendem, enquanto os grandes e entendidos do mundo os rejeitam (Lc 10, 21- 24). E aí vem imediatamente essa cena na qual um professor da Bíblia, portanto um que se considerava sabido e importante, pergunta uma coisa básica.

Hoje, a pergunta do professor de Bíblia equivaleria a alguém que pergunte: “Qual o sentido da vida? Como posso dar à minha vida de homem ou de mulher um sentido que a torne feliz?”.

Jesus responde de um modo diferente. Ele não entra na discussão exegética sobre a interpretação do texto. O que ele faz é perguntar ao professor, mas também a nós hoje como cada um/uma de nós compreende o texto. Então, o homem recita a oração do Shemá Israel que quem é judeu ou judia recita ao menos uma vez por dia. “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração...” é o primeiro verso da oração inspirada em Dt 6, 5 e unida a Lv 19, 18 que liga o amor ao próximo ao amor divino. Jesus concorda e conclui: então, pratique isso e está resolvido.

Apesar de que Jesus tenha aprovado a resposta do escriba, esse se sente meio repreendido e tenta uma escapatória no estilo da casuística judaica: quem é meu próximo? Ou até que ponto, sou obrigado a esse amor?

Jesus responde colocando-o diante de um fato. Alguém (homem ou mulher) foi ferido e está caído na estrada. Como Jerusalém fica a 750 metros de altitude e Jericó a 350 m. abaixo do nível do mar, a descida é muito abrupta, cheia de despenhadeiros e era um caminho meio deserto. Aconteciam muitos assaltos. O sacerdote e o levita eram religiosos. Passam por ali e não se que aquilo tivesse nada a ver com eles. Hoje, na Igreja e em muitas religiões, muita gente lamenta as violências do mundo, mas acham que não têm nada a ver com isso. Afinal, religião não é pronto-socorro, nem hospital… Já o papa Francisco comparou a Igreja com o que ele chamou de “hospital de campo”.

O professor da Bíblia perguntou como muita gente de Igreja pergunta hoje em dia até que ponto é o caso de se envolverem em questões sociais. Há padres católicos e pastores evangélicos que, hoje, perguntam: Até que ponto a Igreja deve se inserir em questões sociais? Até que ponto precisa entrar em questões políticas? Não seria muito melhor ficar só no plano espiritual? Seria como se o mestre da lei tivesse dito para Jesus: amar a Deus sobre todas as coisas, tudo bem. É nossa fé. Mas, essa história de amar ao próximo, para que? Até que ponto? Quem é meu próximo?

Jesus inverte a pergunta que o professor da Bíblia lhe faz. Jesus não respondeu à pergunta: quem é meu próximo. Ele pergunta: Na história do samaritano, quem foi o próximo dele? Isso significa: O que interessa não é saber quem é seu próximo e sim de quem você se torna próximo.

Gustavo Gutierrez dizia: “A questão é que o próximo não é a pessoa que entra na minha estrada, mas a pessoa em cuja estrada eu me encontro”. É uma reviravolta na perspectiva. Quem define qual é a missão ou se eu devo me envolver  não é a minha vontade, nem alguma teoria. É a necessidade concreta de quem precisa. O critério é a realidade. Não se trata apenas de dar uma esmola. O texto diz que o samaritano teve suas entranhas revolvidas de compaixão para com o ferido. O verbo grego usado pode ser traduzido: as entranhas se moveram dentro dele. É algo sentido e sofrido.

No mundo atual, o problema é que não se trata apenas de alguém ferido, que corre risco de vida e sim de mais de um bilhão de seres humanos que vivem na linha da pobreza extrema. Grande parte da humanidade está ferida e à margem da estrada da vida, vítima do tipo de organização social que os poderosos dão a este mundo. No Brasil, mais de 20 milhões de pessoas vivem a insegurança alimentar e estão na pobreza extrema.

Ainda hoje, sacerdotes e levitas continuam passando na estrada e deixam os feridos à margem do caminho. Não param e não socorrem. Hoje, muitos ainda defendem que religião nada tem a ver com ação social. Há muitos que não apenas não param para socorrer o ferido, como até dão o seu apoio e o seu voto aos que exploram e massacram o povo. Atualmente, no Brasil e em vários países do mundo, a extrema direita recebe votação expressiva de pessoas que se dizem de Deus mas votam nos opressores e contra os oprimidos. Essa declaração de voto no ódio, na violência e no sistema baseado na desigualdade social é pior do que os assaltantes que atacam diretamente o homem ferido.

Hoje, com os pobres, também está agredida e ferida a mãe-Terra, a água e a Vida no planeta. O jeito eficaz de socorrer o povo e a Terra assaltados na estrada da vida tem de ser inserção efetiva nos movimentos e lutas sociais. A solidariedade incondicional tem de tomar a expressão de uma luta coletiva para mudar as estruturas injustas do mundo. Viver essa inserção solidária é a forma como podemos escutar hoje a palavra de Jesus: O que fizestes a cada um dos pequeninos em meu nome foi a mim que fizestes.

Convocação para a caminhada libertadora do martírio

Neste XIII Domingo comum do ano C, o evangelho proposto pelo lecionário é Lucas 9, 51 a 62. Até parece que quem escolheu essa leitura sabia que esse evangelho seria meditado neste momento em que quase chegamos ao mês de julho que, no Brasil, é marcado por várias romarias,  peregrinações e caminhadas comunitárias.

No próximo domingo, no Centro-oeste é a festa do Divino Pai Eterno, na cidade de Trindade, Goiás, para a qual acorrem devotos/as das áreas rurais e de cidades. Muitos/as mantêm a tradição e viajam, dias e dias, em caravana de carro de boi, fazendo do próprio itinerário e viagem, permanente aprendizado de espiritualidade solidária e do cuidado.

Ainda nos meados deste mês, companheiros e companheiras das pastorais sociais e grupos da caminhada se reunirão na Romaria dos/das Mártires da Caminhada em Ribeirão-Cascalheira, na memória do nosso profeta Pedro Casaldáliga. Ao mesmo tempo, o grupo de peregrinos e peregrinas do Nordeste viverão mais um tempo de peregrinação. Desta vez, percorrerão a pé as periferias pobres e abandonadas do grande Recife. Depois dos sofrimentos provocados pelas chuvas e inundações, assim como pela incúria do governo, essa será uma peregrinação profética de reanimação das comunidades e da esperança do caminho maior.

De fato, este evangelho parece ter sido pensado para o contexto social e eclesial que vivemos. O quarto evangelho nos ensina que a missão de Jesus se deu em dois tempos: o primeiro, no qual ele deu vários sinais para que as pessoas pudessem aderir a ele e ao seu projeto e o segundo, no qual, chega a sua hora e ele vive aquilo para o qual se preparou. De modo semelhante, o evangelho de Lucas inicia a sua segunda parte com esta perícope que lemos hoje e se inicia dizendo: “Ao se completar o tempo no qual Jesus iria ser arrebatado ou elevado ao céu, ele tomou a firme decisão de caminhar para Jerusalém” (v. 51). (Para dizer que Jesus tomou resolutamente a decisão de partir para Jerusalém, o texto usa um termo que poderíamos comparar com a expressão popular “botou na cabeça”, isso é, ninguém o convenceria do contrário).

Estamos vivendo momentos assim, nos quais é urgente retomar a caminhada e ir diretamente a aquilo para o qual nos preparamos. É preciso ver claro qual deve ser a Jerusalém atual, meta de nossa caminhada. E o evangelho deixa claro: não se trata apenas de um caminho geográfico ou topográfico. É um itinerário espiritual e pedagógico. E isso já se revela nas três cenas que parecem coladas no texto, para nos falar das condições do discipulado e do seguimento de Jesus. Este envia discípulos para preparar sua passagem pela Samaria, mas o próprio fato de estar a caminho de Jerusalém, acarreta a rejeição dos samaritanos. Jesus ensina aos discípulos Tiago e João que, para o seguirem, eles precisam aceitar a rejeição e o fracasso que ocorrem e que o próprio Jesus, naquele momento, estava vivendo. A radicalidade do evangelho nada tem a ver com rigorismo e menos ainda com intolerância e repressão. O espírito tem de ser novo. E aí vêm três casos de vocação que são significativas de muitas situações. De propósito, o evangelho não traz nome de ninguém dessas pessoas que querem entrar no seguimento de Jesus. Trata-se de qualquer pessoa. Uma primeira se apresenta e Jesus responde: “Você não sabe o que está pedindo. A radicalidade do seguimento não é para qualquer um”. Só alguém que é chamado pode dar conta das condições necessárias para viver o seguimento. O segundo é alguém a quem Jesus chama, mas a pessoa quer primeiramente se despedir da família. Aquilo que, conforme conta  o primeiro testamento, Eliseu podia fazer antes de seguir Elias e se tornar profeta, no tempo do evangelho, há uma pressa que, como diz Pedro Casaldáliga em um de seus poemas, é urgência que não permite esperar.

Não se trata de que o seguimento de Jesus seja tão desumano que não permita que um filho se despeça dos pais ou alguém enterre o pai que morreu. O que esse evangelho diz é que a opção de seguir Jesus exige que a pessoa aceite o chamado e responda sim, sem antepor nenhum pretexto ou desculpa. Tem de ser um sim decisivo e imediato, ao qual depois, certamente, Jesus possibilita a liberdade do convívio familiar ou o direito do luto. O que o evangelho insiste é na radicalidade (ir à raiz) do seguimento.

Quando nos anos 80, o evangelho de Lucas contou essa história, o “se despedir da família” e “ir primeiro enterrar o pai” tinha uma tradução e aludia a problemas que a comunidade vivia. Agora, na nossa realidade, significa o que? Que pretextos, aparentemente sérios e razoáveis, usamos para sermos menos radicais e menos livres no exercício da profecia do discipulado e do seguimento? Como unir o espírito de tolerância e paciência de Jesus em relação à rejeição sofrida por parte dos samaritanos que o rejeitaram a essa atitude do mesmo Jesus diante dos discípulos tentados a antepor desculpas ao seu chamado?

Um poeta inglês escreveu um poema que talvez responda a este desafio:

“Quem então concebeu o tormento? Amor

O amor é o nome desconhecido

Daquele que com suas mãos teceu

a intolerável camisa de fogo

Que a força humana não pode remover

E nós vivemos, respiramos,

somente se queimarmos e queimarmos”  (T. S. Elliot). 

(25/06/2022)