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Até sermos capazes de desejar a paz

Não vemos o óbvio porque estamos tão cegos quanto estavam os norte-americanos, pelo desejo de vingança que alimenta o círculo vicioso de violência. Por Ana Lucia Vaz – Jornalistas Populares. Paz. O Rio de Janeiro está coalhado de paz em adesivos, camisetas, bandeiras, cartazes… Como nos rituais mágicos, a população carioca repete o mantra da […]

Não vemos o óbvio porque estamos tão cegos quanto estavam os norte-americanos, pelo desejo de vingança que alimenta o círculo vicioso de violência. Por Ana Lucia Vaz – Jornalistas Populares.

Paz.

O Rio de Janeiro está coalhado de paz em adesivos, camisetas, bandeiras, cartazes… Como nos rituais mágicos, a população carioca repete o mantra da paz, ansiosa por viver seu significado. Mas a distância entre o desejo consciente e os sentimentos nos trai. Pensamos na paz, mas agimos com violência. O resultado é mais violência.

Quando os Estados Unidos atacaram o Afeganistão para se vingar da tragédia de 11 de Setembro de 2001, em Nova Iorque, muitos brasileiros perceberam o erro. De longe, podíamos ver a queda do World Trade Center como conseqüência quase natural – mais precisamente humana – da ação dos EUA no mundo. Se a violência no Oriente Médio alimentou as ações terroristas, mais violência só poderia gerar mais terrorismo. Uma conclusão lógica.

Não éramos a vítima direta, podíamos ver sem que o rancor nos cegasse. Mas o povo norte-americano apoiou a guerra contra o Afeganistão. Depois contra o Iraque. Uma estratégia suicida. A maioria da população norte-americana precisou ver a guerra se arrastar por anos, ver seus filhos morrerem no Iraque, para entender o erro. E talvez ainda não tenham entendido por inteiro.

O Brasil tem uma história de colônia, muito mais que de império. A violência do Estado brasileiro poucas vezes se voltou para fora. Mas é sistemática na repressão a negros, pobres e rebeldes. Somos uma sociedade hierarquizada, onde cada um deve “saber o seu lugar”. Essa cultura alimenta uma das maiores desigualdades sociais do mundo.

Nos EUA ou no Brasil, a justificativa para a ação violenta é sempre a mesma: garantir a segurança. Para acreditar nisso é preciso considerar que é possível eliminar todos os inimigos, ou que a punição pode inibir o adversário. Trata-se de uma acrobacia intelectual para esconder um motivo bem mais simples: desejo de vingança.

Ninguém, em sã consciência, defende a possibilidade de eliminar o inimigo, quando o assunto é violência urbana. Mas é com este princípio que trabalha o Bope (Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar), ainda que apoiado numa justificativa estratégica de apreensão de armas. A aclamação do capitão Nascimento, personagem do filme Tropa de Elite, revela a força deste desejo de eliminação do “inimigo” entre os cariocas.

Quando sobe a favela, o soldado do Bope não tem como saber a diferença entre trabalhador e traficante. Os fãs do capitão Nascimento também não. Logo, eliminar a sensação de ameaça exigiria eliminar os pobres. E de onde os ricos tirariam seus lucros? A violência contra os trabalhadores não pode chegar ao extermínio. Os senhores de engenho já sabiam disso.

Resta tentar acreditar que a punição é o único instrumento educativo possível. Se não está funcionando, basta aumentar o rigor. A pena de morte foi instituída por fora da lei, os presídios se transformaram em inferno e as penas se tornaram maiores, muitas vezes mais longas que a vida do detento. A violência urbana cresceu junto com a punição. E qualquer educador pode nos explicar a limitação do recurso da punição com instrumento educativo. Assim como qualquer estudante conhece a indignação que punições excessivas provocam e a capacidade que elas têm de insuflar a revolta. O PCC, criado nos RDD (Regime Disciplinar Diferenciado), em São Paulo, também está aí para não deixar dúvidas.

Não vemos o óbvio porque estamos tão cegos quanto estavam os norte-americanos, pelo desejo de vingança que alimenta o círculo vicioso de violência.

Mas por que a sociedade brasileira identifica nos pobres a ameaça? Se pobreza gerasse violência, se um terço dos pobres brasileiros escolhesse o caminho da violência, o Brasil seria um território inabitável. Também não sei bem a resposta, mas parece que toda sociedade vingativa precisa de seu bode expiatório. Os nazistas tinham os judeus, os norte-americanos trocaram os comunistas pelos fundamentalistas e nós, os escravos rebeldes pelos “traficantes” das favelas.

Depositamos no bode expiatório todas as nossas frustrações, rancores e ódios, para destruí-los ritualmente, com a esperança de aliviar nosso espírito do peso. Expiamos nossas culpas sem termos que reconhecer nossas próprias sombras.

Mas a estratégia se tornou ineficaz e as sombras ameaçam nos engolir. Como os norte-americanos, fomos surpreendidos pela globalização que reduziu distâncias e trouxe o bode expiatório para dentro de casa. Eles tentam se proteger com controle de imigração, enquanto alimentam a violência com suas invasões militares. Nós discutimos bloqueadores de celulares nos presídios e muros para isolar as favelas. E reforçamos a violência com invasões do Bope.

A política de segurança do governo Sérgio Cabral parece especialmente inspirada na política externa de Bush. Como o governo norte-americano, o governo do Rio de Janeiro parece querer esconder sua fragilidade na violência crescente. Até que a população carioca acorde do pesadelo e comece a exigir paz, em vez de violência. E a paz, claro, começa por tratar o outro com o mesmo respeito com que desejamos ser tratados. Não para ter direito ao paraíso depois da morte, mas para escapar ao inferno terrestre que nossa sociedade intolerante e preconceituosa criou.

Ana Lucia Vaz é professora de Comunicação Social e integrante da Rede Nacional de Jornalistas Populares (Renajorp).

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