As ditaduras acabam, a resistência do povo não

Ditadura, direitos humanos e cidadania” foi o tema de uma das mesas da tarde dessa terça-feira (23/03) do Fórum Social Urbano…

“Ditadura, direitos humanos e cidadania” foi o tema de uma das mesas da tarde dessa terça-feira (23/03) do Fórum Social Urbano. O debate realizado com apoio do Sindipetro-RJ e da campanha “O Petróleo Tem que Ser Nosso”, teve como anfitrião o economista e ex-preso político da ditadura brasileira Francisco Soriano, também diretor do Sindipetro-RJ e autor do livro “A Grande Partida: Anos de Chumbo”.
Antes do debate foi exibido o documentário homônimo e baseado no livro de Soriano e dirigido pelo cineasta Peter Cordenonsi. Após a exibição também falaram sobre suas experiências com a tortura e a repressão política o advogado Modesto da Silveira e o professor de história Francisco (Chico) Mendes. A idéia de eternizar as histórias de dor e lágrimas vividas no calor do regime de exceção vigente no país entre 1964 e 1985 surgiu de um compromisso “assinado” entre pressos políticos, sobretudo dois deles: Francisco Soriano e José Milton Barbosa. Como infelizmente Milton foi assassinado pela ditadura, coube a Soriano o cumprimento do “acordo”: escrever o livro daqueles dias.
Modesto da Silveira, responsável pela defesa de milhares de homens e mulheres que lutaram contra o regime militar imposto a partir de 1964, iniciou a discussão afirmando que os integrantes daquela mesa não conheciam o que diziam pelos livros mas pela própria vivência. Para ele a geração atual, dos vinte a trinta anos, deve conhecer essa história para prevenir nosso país de futuras ditaduras.
Soriano justificou o propósito do filme admitindo não ter se sentido totalmente contemplado com a obra literária, que naturalmente tem limitação de linguagem e público. “Depois de esgotada, em seis meses, a primeira edição do livro resolvi ‘apelar’ para o formato audiovisual, que já foi exibido em várias emissoras de televisão do país”, conta. Chico Mendes dialogou com o último depoimento do filme, quando o economista Marcos Arruda afirma terem sido os opressores os verdadeiros derrotados da história, dizendo que não é tão otimista quanto Arruda e acredita que, na verdade, o imperialismo venceu e ganhou as mentes do povo.
“Eu me sinto um derrotado, não só no Brasil como também no Chile, pois após o sequestro do embaixador suíço fui para lá e vivi a derrota de Allende”, ressaltou Chico, que foi um dos presos políticos trocados pelo embaixador sequestrado em 1969.
Tortura nunca mais. Solidariedade para um outro mundo possível
O professor Chico Mendes reafirmou o que é comum ouvirmos daqueles que foram torturados. Para ele as marcas da tortura ficaram a tal ponto, que foi preciso quatro anos de terapia para se livrar do som de uma serra elétrica que não o deixava dormir. Lembrança dos tempos de cárcere na Ilha das Flores, onde o som desse instrumento o acordava sempre bem cedo.
Soriano e Modesto também reforçaram um coro de “tortura nunca mais”. Já o economista Marcos Arruda, depoente do filme de Soriano e presente entre o público da atividade, não exitou em participar do debate utilizando palavras de otimismo e esperança e afirmando que, embora historicamente os opressores vêm vencendo constantemente, não é utopia acreditar na construção de um “outro mundo possível” por meio da solidariedade.
“Os que estudam história enxergam pelos últimos milhares de anos. Como estudei geologia eu exergo pelos últimos milhões ou bilhões de anos. Isso é uma vantagem pois eu não perco a esperança, apesar de tantos anos de derrotas acumuladas”, concluiu.
História sempre viva
Em breve será lançada a segunda edição do livro “A grande Partida: Anos de Chumbo”. O filme homônimo pode ser solicitado ao autor Francisco Soriano por meio do Sindipetro-RJ. No próximo dia 31 de março será lançado no Clube de Engenharia, a partir das 18h, o livro “Um Tempo Para Não Esquecer”, do professor e historiador Rubin Aquino.
(*) Texto publicado originalmente na Agência Petroleira de Notícias (APN).

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