11 de maio de 2003
"Esse não! Esse não!"
Luis Fernando Verissimo

Minha porção mulher se chama Neide Conceição e gosto de pensar que ela é a responsável por algumas das minhas melhores atitudes. Ela está comigo desde o ventre materno e sempre convivemos muito bem, sem problemas. Costumo consultá-la de tempos em tempos e ela se contenta em ser apenas isso, uma consultora da minha personalidade, sem qualquer outra pretensão.

Nunca tentou derrubar a porção dominante masculina, e ai que tentasse. Como se sabe, não existe gaúcho homossexual, só porções masculinas que demoram a reagir quando a feminina se abranda. Em alguns casos o cara morre antes da porção masculina dele se recuperar, mas isso não quer dizer que seja homossexual, apenas que a reação atrasou um pouco.

A Neide Conceição conhece o seu lugar. Costumo conversar com ela enquanto faço a barba, que é quando a porção mulher da gente, sem nada para fazer, fica só observando esse nosso estranho ritual. Comentamos os assuntos do dia e freqüentemente me surpreendo com alguma observação dela, que nunca me ocorreria. Deve ser a tal intuição feminina.

Por exemplo: nem eu nem ela estranhamos que o ex-ministro Malan tenha assumido um posto no Unibanco, pois competência e honorabilidade para isto não lhe faltam, e nem eu nem ela temos qualquer coisa contra o Palocci. Mas, com aquele senso prático que caracteriza as mulheres mesmo em forma de porção, a Neide disse que o ideal na escolha de um ministro da Fazenda, ou mesmo um diretor de Banco Central, seria a possibilidade de fazer um "flash forward" para o futuro, quando ele já tivesse passado pelo ministério e seu nome fosso proposto para a diretoria ou o conselho de um grande banco.

Quem fosse aceito logo seria descartado. Quem fosse aceito com reservas seria considerado. Mas o ideal seria aquele que, baseado no que tivesse feito no Ministério da Fazenda ou no Banco Central, provocasse a reação mais irada de banqueiros vingativos : "Esse não! Esse não!" Mas como outra virtude da Neide é o realismo, ela reconheceu que isso era impossível, me aconselhou a não sonhar mais e acariciou meu rosto com a minha mão para ver se a barba estava bem feita.


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