O redator do discurso em que o Bush lançou a frase “eixo do mal” para descrever o Iraque, o Irã e a Coréia do Norte conta que sua frase original era “eixo de ódio” mas foi mudada para “eixo do mal” porque precisavam de um tom mais escatológico: a guerra de Bush é contra o Mal absoluto e com maiúscula, não contra ódios, que podem ser negociados e podem até ter razão. A palavra “eixo” foi escolhida para evocar o eixo original formado pela Alemanha, a Itália e o Japão na Segunda Guerra Mundial, a última guerra indiscutível em que os Estados Unidos se meteram. David Frum, o redator do discurso (que assim que saiu do governo escreveu um livro) diz que a Coréia do Norte foi acrescentada ao “eixo do mal” à última hora para haver uma identificação numérica instantânea com o trio de demônios antigos. Se arrependeram. Os coreanos ficaram ofendidos e ameaçam os americanos com ataques nucleares, e estes estão tendo que dizer calma, calma, era só retórica, enquanto se concentram no Iraque.
A evocação da Segunda Guerra é intrigante porque a geração para a qual Eixo ainda significaria alguma coisa está se acabando, ou perdendo a memória. Mas a referência era menos a um precedente histórico do que a um clima, um bom sentimento de uma nação em guerra a seu próprio respeito e a respeito da justiça da sua missão.
A referência ainda funciona. As imagens e o espírito daquela época atravessaram os anos, e guerras perdidas e incompreendidas, e ainda dominam a imaginação americana. Não demorará para vermos rapazes sorridentes pintando recados para Saddam em bombas, como faziam para Hitler ou Tojo. Os rapazes serão outros e as bombas serão mais destrutivas, mas o espírito de jovialidade guerreira será o mesmo. E será outra maneira de dizer que em 60 anos as coisas não se complicaram tanto assim, que ainda são os bons contra os maus. Ou os eixos do Mal.
O tom escatológico agrada à extrema direita religiosa que apóia Bush, e mostra um entusiasmo pouco cristão por atacar os outros. (Bush declarou que o seu pensador político favorito era Jesus Cristo, e uma vez disse que, antes de tomar qualquer decisão, perguntava-se: “O que Jesus faria nesta situação?” Numa recente manifestação contra a guerra em Washington, um dos cartazes dirigidos a Bush perguntava: “O que Jesus bombardearia?”)
A retórica fundamentalista da turma do Bush se iguala, no seu reducionismo conveniente, à do outro lado quando este chama os Estados Unidos de Grande Satã. É para dizer que quem não está com eles está com o terror, e vice-versa, e pronto. No meio dessas duas teologias armadas ficamos nós, nos borrando. Sem falar, claro, nos civis do Iraque, de Israel ou de outros lugares onde cairão os foguetes abençoados dos dois lados.
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Globo, 15 de fevereiro de 2003
Consciência.Net