As frases que nos perseguem
Luis Fernando Verissimo

O FMI nos ama, a Goldman Sachs nos recomenda, o que foi que fizemos de errado? Nós do CALDO, Corpo Auxiliar Luma de Oliveira, cuja função é torcer para que o PT não perca sua alma, entendemos todos os argumentos do novo governo para continuar a política econômica do velho, e que podem ser resumidos na frase “coerência tem hora”. Tudo bem. Longe da gente criar problemas para o Lula e dar chumbo para a reação. Mas quando chegar a hora de ser coerente de novo, lembramos que um bom exemplo de cura da dependência no capital predatório internacional quem deu foi o Joseph Stiglitz, que era do Banco Mundial e sabe: a Malásia superou a crise dos asiáticos mais depressa porque foi o país que desprezou mais depressa as regras do FMI. Nossa recomendação é: pensem malásio. Quando chegar a hora.

Mas não é preciso ir tão longe no mapa, apenas mais longe no tempo, para buscar exemplos de desobediência premiada à ditadura da especulação. Quem conhece um pouco da história dos Estados Unidos sabe que a grande expansão americana no século 19 foi feita de falência em falência, com depressões purgativas seguidas de novos ciclos de calotes criativos, e que não é exagero dizer que a história do desenvolvimento deles é a história de uma guerra aberta entre o capital produtivo e o capital financeiro, só amainada, mas não encerrada, com o crescimento das bolsas de valores e do mito do capitalismo popular. Sorte dos americanos que na época não havia um FMI inglês para receitar responsabilidade fiscal e dizer que pagar dívidas era mais importante do que se industrializar, criar empregos e conquistar um continente. E que o ethos dominante no mundo ainda não fosse o estabelecido pelo capital financeiro, segundo o qual é mais moral manter o crédito do que alimentar um filho.

O novo governo deveria ter adaptado a frase que perseguiu o Fernando Henrique durante todo o seu bi-mandato, com um adendo: esqueçam tudo o que nós escrevemos e dissemos — por enquanto. Mas tive um exemplo de como nem sempre se deve lamentar as frases que nos perseguem. Escrevi uma vez que era um cético que só acreditava no que pudesse tocar: não acreditava na Luiza Brunet, por exemplo. Cruzei com a Luiza Brunet num dos camarotes deste carnaval. Ela me cobrou a frase, e disse que eu podia tocá-la para me convencer da sua existência. Toquei-a. Não me convenci. Não pode existir mulher tão bonita e tão simpática ao mesmo tempo. Vou precisar de mais provas.

O Globo, 11 de março de 2003


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