Nosso pânico
Luis Fernando Verissimo, O Globo, 3 de março de 2003

"Será que entre os presos deste país existe um que tenha cometido um crime mais hediondo do que matar uma nação de fome e na miséria?” — escreveu o filósofo mais influente do momento, o anônimo autor da carta distribuída a comerciantes antes do ataque orquestrado do tráfico ao Rio, na segunda-feira.

Difícil dizer o que assusta mais: o poder de mobilização e de fogo do crime, o que não é novidade, ou o tom político da sua última ameaça, que é inédito. Pois é aterrador pensar que só o que distingue vandalismo organizado de insurreição é o arranjo das palavras que acompanham os atos. Que só o que falta para banditismo virar revolução é um rótulo que grude, é a frase apropriada.

Mais de um criminoso já explicou sua vida e seus crimes como um revide à sociedade desigual em que nasceu, já tivemos muitos aspirantes a Robin Hoods e a bandidos justiceiros entre nós, e hoje nem o mais reacionário defensor da tese de que vagabundo nasce feito discute as causas sociais da delinqüência, mas o vocabulário da retribuição ainda não se articulou, ainda não achou a sua seqüência certa.

Você e eu, que somos pessoas conscientes mas sensatas (no Brasil não é fácil ser as duas coisas ao mesmo tempo) e já concluímos há muito que vivemos no meio de uma guerra civil crônica, ou já nos perguntamos muito “como é que essa gente não se revolta?”, temos medo de dizer isto com clareza, para não contribuir para o clima de guerra, ou passar por defensor de assassinos, ou, num descuido, dar aos bandidos slogans prontos para transformar terror cotidiano em terror político, e aí como é que a gente fica? Nosso pânico é que, junto com as armas de uso exclusivo das Forças Armadas, o tráfico passe a usar a retórica de uso exclusivo da esquerda, ou a nossa retórica da indignação sem a sensatez.

Não podemos nos arriscar nem a concordar que as cadeias estão conspicuamente vazias de culpados pelo que foi feito à nação em anos de insensibilidade e descuido, para não alertá-los de que estão chegando perto de um discurso aproveitável de retribuição. Portanto: ssshhhh.


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