"A igreja é uma merda!". A frase foi dita de boca cheia por Kim, vocalista do Catedral, aquela banda que depois de 10 anos trilhando o promissor caminho do "rock cristão", fazendo fãs como uma imitação "gospel" da Legião Urbana, virou pop/rock "secular" e (surpresa!) está fazendo fãs como uma imitação viva da Legião Urbana. Agora, com o lançamento de seu novo disco, Mais Do Que Imaginei, o quarteto carioca assina em baixo de uma das últimas declarações de Renato Russo - a de que o rock-gospel é deprimente - e afunda o passado na lama. "Era um segmento podre mesmo".
A carreira do Catedral começou no final dos anos 80, com a reunião dos irmãos Kim, Cezar e Julio, mais o amigo Guilherme. Eram todos evangélicos, e a guinada pelo circuito religioso foi tão natural quanto obrigatória para os músicos em início de carreira. "Não demorou para construirmos um nome", diz o baixista Julio.
Alguns anos no meio deram uma certeza ao grupo, que sempre procurou fazer letras com mensagens críticas à vida moderna, sociedade e religião: aquele nicho de mercado - igrejas, gravadoras e público fiel, literalmente - era fácil demais e frustrante demais. "A partir de 1995, começamos e ficar saturados daquela coisa toda", revela Kim. "Aquele universo era limitado demais".
Como a situação era cômoda financeiramente, a banda se manteve até 1998 sob o estigma do "som gospel" - mas sempre abusando do sarcasmo com seu próprio público. "Passamos a criticar descaradamente a religião. E o gozado é que ninguém se dava conta. O público continuava na eterna louvação", fala Kim. Para exemplificar o caso, o cantor cita músicas antigas como "Pedro Zé Nordestino" (que fala do desprezo da igreja por um retirante sem-teto), "Fingir" (libelo contra os dogmas sagrados) e "A Revolução" (com verso que diz "não vamos mais construir templos ricos").
"Quando mudamos nosso estilo, perdemos muito deste público fanatizado. E, na verdade, ele não faz a menor falta. São pessoas que não passam nada", detona o cantor. Ele continua: "nossa postura sempre foi de crítica social mesmo. E grande parte dos evangélicos só quer saber de adoração. A música acaba se tornando um instrumento para dominação".
Dissociados do circuito eclesiástico desde 1999 (quando assinaram com a gravadora Continental), os Che Guevara do movimento gospel só querem agora saber de tocar no rádio. O disco passado do Catedral, Para Todo Mundo, vendeu 70 mil cópias, mas foi barrado em muitas FMs devido ao passado religioso do grupo. "Em São Paulo, por exemplo, somente duas emissoras tocaram nosso som", destaca o vocalista/líder, acrescentando que a troca de estilo foi algo "bastante arriscado, para um grupo que ganhava muito dinheiro e tinha uma carreira estabelecida."
Para vencer o bloqueio, o novo disco ataca de romantismo, baladas, roquinhos guiados pelos violão e algum pop suinguado, tudo à la Renato Russo. "Incluímos a regravação de 'Kiss Me', do Sixpence None The Richer, banda que também deixou o lado gospel e tomou muita porrada da crítica. Outra de 'Sol de Primavera', do Beto Guedes. E as letras críticas continuam", garante Julio.
A banda acredita que estas referências ajudarão na abertura da mídia. "O CD saiu agora e já vendemos 30 mil cópias. A situação está mudando, graças a Deus", comemora Kim. Ops... "Graças a Deus"? "Na verdade eu continuo protestante. Mas, como a maioria dos católicos do Brasil, não vou à igreja nunca", orgulha-se. Longe dos templos, e com tantos ataques à comunidade religiosa, o Catedral (mesmo tocando nas rádios) não teme as chamas do inferno, como todo bom roqueiro. "É, lá deve ser quentinho e divertido mesmo".
Fonte: Usina do Som
Consciência.Net