Assim é Lobão, por Raphael Perret
Lobão gosta de desafios, encrencas, dificuldades. Não é dífícil comprovar: ele já abandonou o palco, após cantar duas músicas e depois de tanta vaia dos metaleiros presentes no Maracanã, no Rock in Rio 2; na Blitz, foi a uma sessão de fotografias para a IstoÉ, pegou a grana, esculachou o grupo e se mandou pra carreira solo; foi preso por porte de cocaína; dá entrevistas xingando tudo e todos, reclamando de jabás e enaltecendo os discos piratas. O seu mais recente show, "A Vida É Doce", realizado no Garden Hall, no sábado 29 de maio, no Rio, é obra digna de seu conturbado e competente currículo.

O cantor e compositor faz questão de seguir o roteiro, e brinca, sempre simpático, com os pedidos da platéia. Diz, por exemplo, que odeia "Revanche", e que não vai tocar "Vida Bandida" (embora quebre a promessa no bis). O script merece mesmo a atenção que Lobão procura dar. Lá estão músicas de seu mais recente disco, homônimo do show, e dos outros
anteriores, "Noite" (1997) e "Nostalgia da Modernidade" (1995) que, segundo o cantor, compõem uma trilogia de sua fase mais madura. "'Nostalgia...' é o meu primeiro disco já adulto. É um período de grandes experimentacões. Na verdade, eu o considero o meu primeiro disco de verdade, e por assim sê-lo, escolhi fazer uma trilogia para chegar a algum lugar inexplorado, para falar uma língua que nem balbuciava ainda..", afirma.

Se é assim, exponha a trilogia, Lobão! E tome música dos últimos discos, como "A Queda", "Samba da Caixa Preta", "Universo Paralelo"... O público pequeno retratava que a fidelidade ao artista era maior do que a vontade de ouvir alguma música popular do compositor. Nas músicas mais recentes, não havia muita empolgação, a não ser que a canção fosse, digamos, pulável. Os aplausos, no entanto, eram constantes. Principalmente depois de frases de Lobão, como "Estou puto com Gilberto Gil", ou "Esses entretedores, como Lulu Santos, Paralamas, precisam corresponder às expectativas do público. Eu não. Eu sou apenas um traidor". Não faltaram lembranças ao "apoio" da Rádio Cidade - que usou uma música antiga, "Me Chama", gravada ao vivo em um disco lançado pela BMG, que é uma gravadora, e gravadora não é uma entidade muito apreciada por Lobão - e misturas de palavras difíceis, o que divertia a platéia.

Lobão, porém,  é esperto. Ele sabe que não adianta ser tão robótico assim e seguir fielmente o script. A platéia pede e não faltam sucessos, como "Me Chama", "Vida Louca Vida", "Rádio Blá", "Noite e Dia". Pra empolgar e relembrar os anos 80, época de letras mais cascudas, mais diretas, mais inteligentes. Como as das músicas de Lobão.

Mas, afinal, por que o desafio? Imagine cantar para um público reduzido músicas de seus CDs mais recentes, enquanto a platéia fica pedindo sucessos? Lobão contornou tudo: arrancou aplausos nas canções desconhecidas, e empolgou nas famosas. Imaginem, então, se ele fosse, em vez de traidor, um entretedor.

Raphael Perret


Consciência.Net