Por que
Cássia Eller não continuou vivendo?, por Jair Alves
Existem duas maneiras tradicionais
de se tratar casos como esse: a primeira de forma conservadora, sensacionalista,
preconceituosa, assim como fez no dia de hoje o jornal Agora, do grupo
Folha, "Droga mata Cássia Eller"; "Cantora escancarou homossexualidade",
que apesar de vender alguns exemplares a mais, nada acrescenta ao debate,
ao esclarecimento. E existe, também, a forma trágica de se
ver o mesmo episódio, não apenas como algo que poderia ser
evitado, mas como a radiografia de uma sociedade que chegou ao seu limite
de saturação.
Cássia Eller
pertencia àquela "thurma" que não está nem aí
com o preço do dólar, ela queria mesmo é cantar e
representar o mundo da maneira como sentia. É oportuno indagar se
isso é correto – viver e deixar viver – enquanto milhares de outros
tantos estão por aí morrendo de fome ou bala. Mas ela, Cássia,
só sabia cantar e não estava nem aí, ela não
considerava nenhuma outra hipótese, pois o que ela queria mesmo
"era ser Cássia Eller", assim diz o seu verso.
Não há
dúvida, ela seguia o mesmo caminho dos poetas românticos,
dos beats, mas ainda não tinha vivido o tempo e fama para propor
coisas mais que não fizessem parte daquele mundo de "Cássia
Eller". Ainda assim há que se perguntar, por que ela não
seguiu vivendo quando mais precisamos ouvir sua voz?
Nada de comparações
com Elis, que também se foi. Elis foi incauta, amadora no trato
com o perigo. Cássia era, portanto, diferente nesse caso profissional
– vivia os limites do seu corpo como queria...
Agora que o presidente
pós-moderno legalizou a cachaça, poderia legalizar, talvez,
outras coisas menos perigosas e aí poderíamos morrer dentro
dos limites da lei. Assim como fazem os mexicanos, embriagados com tequila,
os russos pós-Yeltsin, embriagados com vodka, ou os afegãos,
encharcados com o ópio.
Aí um dos primeiros
bebês, nascidos durante os anos da transferência da capital
federal para Brasília, (Cássia Eller-1962) poderia nem ter
(?), fosse o Brasil diferente. Afinal, ela é filha da revolução.
E por que então
ela não seguiu vivendo?
Porque vivia perigosamente
– assim como os poetas românticos, os beats. E não estava
nem aí.
O mais brutal é
que agora ela não está mais AQUI.
Jair Alves é dramaturgo
Consciência.Net