Planet Hemp, imprensa e censura, por Raphael Perret Leal
    Após o impedimento da divulgação da transcrição de fitas que comprometiam seriamente o governador do Rio de Janeiro e candidato declarado à presidência da República, Anthony Garotinho, que afetou primeiramente o jornal O Globo e, depois, o Jornal do Brasil e a IstoÉ, proibir virou moda. E virou rock também. Jovens que não estudavam estavam impedidas de desfilar num evento estilístico no Rio. E menores de 18 anos não poderiam assistir, mesmo que acompanhados de responsáveis, ao show beneficente que se realizou no domingo, 22, na mesma cidade. Curiosamente, mas não surpreendentemente, as duas medidas judiciais foram expedidas pelo famoso juiz Siro Darlan.

    O show seria uma comemoração ao dia mundial do rock – que, na verdade, foi dia 13 de julho. Várias bandas nacionais se apresentariam. Uma delas seria o pivô da assombrosa proibição: o Planet Hemp, aquela que defende o uso da maconha e cujos integrantes já foram presos em Brasília, há 4 anos, pela mesma razão. Segundo o juiz, o grupo tem um discurso inadequado para os adolescentes.
    Se esse é o motivo pelo qual os jovens estão impedidos de ir à Praça da Apoteose se divertir, pular e cantar, sugiro ao senhor juiz que menores de 18 anos sejam proibidos de assistir à televisão. Assim, eles estariam
imunes ao discurso inadequado de programas como "Domingo Legal", que inibe a inteligência de qualquer um com suas futilidades. Ele também poderia evitar que os jovens assistissem aos programas que exibem rebolados indecentes de anônimas em busca de sucesso, numa exacerbação precoce de sexualidade totalmente prejudicial à educação. Xuxa e quejandos também poderiam ser evitados, já que se tratam de empresários que, disfarçados de ícones da diversão, pretendem apenas encher-se de dinheiro e explorar a veia consumista dos adolescentes.
    Além do mais, há uma errada conceituação quanto às letras do Planet Hemp. Quem nunca ouviu e só lê/escuta que a banda faz apologia à maconha se engana. Marcelo D2 & cia. não incitam seus ouvintes a fumar maconha deliberadamente. Eles apenas assumem que fumam, e tentam justificar tal ato. Procuram mostrar que não é tão mau assim etc. É, sem dúvida, uma defesa. Porém, acima de tudo, é um questionamento, é uma reflexão. Embora tenha outra linguagem, é similar à de "Cachimbo da Paz", música de Gabriel o Pensador (aquela, do refrão "Maresia/Sente a maresia..."). Na ocasião da prisão do grupo, em 1997, em Brasília, um agente da PF disse que eles deviam fazer tal qual Gabriel, que "deixou nas entrelinhas" e não foi tão claro. Isto é, não pode ser explícito. Atestado de burro para os ouvintes: se a mensagem é implícita, é como se eles não entendessem. Pueril é pouco.
    A medida judicial acaba por restringir a informação que chega aos jovens. O que o Planet Hemp faz não é coibir e aliciar adolescentes a fumar maconha. Muito menos, que se saiba, enfia mensagens subliminares em suas canções. A banda traz à luz uma importante discussão em torno das drogas. Seu ponto de vista é, obviamente, polêmico. Não menos, porém, desprezível. É evidente que suas idéias também não são verdades absolutas: a presença dos pais e educadores é importante para a correta absorção da informação sobre a maconha. Entretanto, impedir que suas idéias cheguem aos ouvidos das pessoas – de qualquer faixa etária – constitui uma atitude gravíssima de censura. Deve ser, pois, repelida.
    A começar pela imprensa. Esta se manifesta veementemente contra qualquer tentativa de impedir divulgação de informação – que é o que o Planet Hemp faz, através de sua música. O Jornal do Brasil, claro, comprou a briga. O show foi organizado pela Rádio Cidade, um dos veículos que pertencem ao complexo empresarial do centenário jornal. O Globo foi mais comedido, mas ao menos registrou a indecência.
    A música nacional já teve dias melhores. Já foi mais questionadora, mais incômoda. Depois de um tempo, passou apenas a agradar, todos sempre quiseram investir no filão da moda (rock, lambada, sertanejo, pagode, funk etc) e, assim, tornar-se produto da mídia, valorizado no auge, esquecido na decadência. Bastou surgir algo que realmente incomodasse, que quebrasse padrões do ‘establishment’ e que encontrasse eco em diversos setores da sociedade – foi sustentada nesse alicerce que o Planet chegou aonde chegou, caso contrário estaria limitada aos porões do ‘underground’ – para traços de autoridade excessiva, arbitrariedade e abuso de poder (re)aparecerem.
    O que se vê, enfim, é um esforço de se manter tudo como está na sociedade, em termos políticos, econômicos, culturais e sociais. A medida judicial é apenas uma amostra de várias atrocidades cometidas pelos mais diversos segmentos diariamente e que não escapam aos nossos olhos nos jornais. Procura-se evitar ou ridicularizar a divulgação de idéias que, às vezes, são mais perigosas que práticas atitudes. A imprensa não pode fugir do seu papel e fazer vista grossa para o caso do Planet Hemp. Não se pede que ela defenda as opiniões do grupo de Marcelo D2, mas sim que ela defenda, insistente e inquietamente, o espaço que eles devem ter para apresentar suas propostas. Ousadas, porém dignas.

Raphael Perret Leal
Jornalista


Consciência.Net