Música no Brasil
Gustavo Barreto, 26 de julho, 2003

Durante minhas breves férias no mês de julho, entre a febre de 40º e a maldita dor de garganta que está me matando neste exato momento, decidi pegar algumas músicas na Internet por meio de um sistema parecido com o Napster – o Imesh – e me atualizar um pouco no mundo da música. Isso é obviamente impossível nas nossas queridas FM’s do Rio de Janeiro, freqüências que me fazem lembrar sempre as palavras “podre”, “patético” e “angústia”. Antes de entrar no assunto, justiça seja feita: entrou no ar semana passada uma das maiores rádios de Rock do planeta, a Fluminense FM – A Maldita, 540 AM – após um longo e tenebroso inverno, ainda em fase experimental.

Enquanto baixava algumas músicas no referido sistema, comecei a divagar sobre algumas questões que me deixaram um pouco pé da vida. Primeiro pensei no preço dos CD´s. Agora me respondam: quem é o idiota que vai pagar 22 reais em um CD podendo comprar um CD virgem por 2 e copiar as músicas com alguém que tenha um gravador? É, eu sei que eu sou um idiota. Tá certo que no Brasil os gravadores de CD ainda não são populares, mas cedo, se Deus quiser, as gravadoras vão sofrer com a ambição desmedida dos empresários brasileiros e internacionais. Na Europa, por exemplo, a circulação de CD´s gravados em casa já ultrapassou os 50 % há muito tempo. No Brasil, o caminho é o mesmo. Pirataria? Então que tal perguntar quanto custa um CD pronto – dentro da caixinha e devidamente gravado – para as grandes gravadoras? Pesquise, pergunte, informe-se: custa menos de 1 real. Você ainda sente vontade de pagar 20 reais? É melhor rasgar dinheiro, você lucra mais. E para piorar, eu ainda tenho que ouvir artistas conceituados fazendo propaganda contra a pirataria. Por que não protesta contra o preço? Não, no Brasil ninguém se interessa pelo bolso dos outros. Como Luis Fernando Verissimo escreveu no livro “Para Entender o Brasil”, em sua primeira edição, o problema do Brasil é um só: cinismo. Quando o brasileiro deixar de ser hipócrita e fazer valer tudo o que se fala, alguma coisa de fato vai mudar.

Tenho um sonho de que, no futuro, alguém entre com uma metralhadora nas três grandes gravadoras do país e mande dessa pra melhor todos os empresários corruptos que estiveram presentes. A partir daí, poderíamos reduzir o preço do CD para três reais. Utopia? No Centro da Cidade do Rio de Janeiro é mais ou menos quanto custa um CD, é pagar pra ver (e ouvir). Reduzindo este preço, a população teria maior liberdade de escolha e não teria que ficar subordinada à podridão que se ouve em qualquer rádio da ‘cidade’. E poderia ter música de qualidade também para o povo. Alguns dizem: “Mas existem rádios de excelente gosto, como a JB FM ou a Globo FM”. Não vou começar a falar sobre exclusão sociocultural no país, pois posso me irritar, mas transcrevo algumas linhas:

“A Globo FM (92,5) atua no segmento adulto-contemporâneo, conquistando ouvintes com poder aquisitivo elevado – classes A e B, na faixa etária entre 25 e 45 anos, residentes nas zonas nobres da cidade do Rio de Janeiro.” Surpresos? Sabem de onde eu tirei este trecho? Do site http://www.globofm.com.br/ - “O pior cego é o que não quer ver”, como diria Gabriel, O Profeta.

Em meu sonho, as pessoas ouviriam músicas com letras que tragam alguma mensagem importante, algo de enriquecedor para o desenvolvimento do pensamento livre e consciente. Em meu sonho, Legião Urbana, Gabriel O Pensador e músicas de presidiários (como ocorre em São Paulo) seriam obrigatórias. E quem nega que a maioria tem qualidade harmônica e ideológica? Mas não, vamos todos botar na cabeça do povo que um tapinha não dói porque, a partir daí, qualquer idéia idiota pode entrar sem problemas. Se você acha importante para o país economizar energia, pronto: de tanta porrada que você já levou da mídia, um tapinha na cabeça não dói mais. Como seria o corte de luz? A Light iria na sua rua, faria seu trabalho e depois iria embora. Mas imagine que um grupo de senhoras idosas decidisse jogar buraco em volta do poste e não quisesse sair, devidamente resguardadas por todos os moradores da rua, todos furiosos e sem saco de agüentar a incompetência do governo FH e suas mentiras há muito descobertas. Mas como é Brasil, todos abaixam a cabeça e desligam a luz.

Voltando ao nosso triste assunto, fico pensando o que passa na cabeça de um abjeto daqueles que participa de uma banda de “pagode”, bizarramente entitulado de “estilo musical”. Não tem problema nenhum eu chamá-los de abjetos. Primeiro que a maioria não sabe ler. Se soubesse, com certeza não saberia o sentido da palavra. Como eu sei que nenhum deles têm um dicionário em casa e que, mesmo se tivesse, levaria anos para localizar a letra “A” e décadas para localizar o “B”, o “J” etc, eu fico tranqüilo.

Crianças picham muros, roubam coisas, cometem outros pequenos delitos e vão para um juizado de menores, mas quando assistem a um show de pagode ninguém faz nada. Deveria ser considerado atentado ao pudor, no mínimo, se é que ninguém já se suicidou por ter deparado com algo do tipo na TV. Tive a oportunidade outro dia, por sinal. A banda em questão tinha 9 pessoas (quase um time de futebol!!!), sendo que um ficava na frente e oito não faziam absolutamente nada. O da frente, coitado, sorria que nem um palhaço enquanto o CD rolava no velho estilo “playback”. Ele nem tentou disfarçar. É claro, quando a Britney Spears (que tentou disfarçar) vem ao Brasil e faz “playback”, todos ficam horrorizados, meu Deus, o mundo está acabando! Aquela loira não sabe cantar, esses americanos são tão idiotas. Se nós não somos tão idiotas quanto eles, então o que somos afinal? Abjetos? Sobre Pagode, Funk e afins eu não comento mais, pois o texto é sobre música, e nada disso é música.

É triste saber, aliás, que existam duas linhas de pensamento sobre a influência americana nas nossas rádios e lojas. Uma acha tudo muito bom e ouve qualquer coisa que seja em inglês. Já a outra acha que eles são um bando de destruidores da nossa cultura e negam completamente o que vem de fora. Um bando de perdidos, na minha opinião. Permita-me dividir a música, que usualmente divide-se em 361 estilos musicais, em duas partes: música boa e música ruim. Concordo que 70 % do que se ouve por aqui vindo da terra do Tio Sam é puro lixo, coisas que muitas vezes nem eles ouvem. Contudo isso não significa tudo que vem de fora é lixo. Seria a mesma coisa que dizer que todos os chilenos são ditadores, pois lá nasceu Pinochet, ou ainda que todas as brasileiras são “profissionais da noite” acéfalas (entenda como quiser), uma vez que a Luciana Gimenez nasceu no Brasil. Uma quantidade enorme de música boa é produzida nos EUA todos os meses, a gente é que não sabe procurar. Nem tente chegar perto do rádio, é muito perigoso. E por que procurar só nos EUA? O mundo tem cerca de 217 países; o que te faz pensar que não possa existir alguém fazendo algo legal em outro canto do mundo? Eu não seria tão pretensioso assim.

Em um país bem menor, um oceano depois da metrópole, se produz tanta música boa por ano que seria impossível ouvir tudo no mesmo ano. Estou falando da Inglaterra, país que proporcionalmente dá um banho de música nos concorrentes, perdendo apenas, na minha opinião, para gênios como Cartola, Noel Rosa, Tom, Vinícius e outros. Mas tudo isso, lembre-se, é música boa, tanto os ingleses de Londres como os cariocas de Vila Isabel. Dê uma pequena pesquisada e descubra quantas bandas que você acha que são americanas são, na verdade, britânicas ou escocesas. Na Oxford Street, por sinal, há uma loja que permite aos compradores ouvir e escolher quais as músicas que mais agradam e depois colocar em um CD personalizado, custando 14 libras o serviço. Excluindo-se a diferença de câmbio, um CD personalizado para um cidadão inglês está 37 % mais barato do que um CD normal para um brasileiro. Mas eu não sou inglês, não é mesmo?

Excluindo-se o fator preço, o quadro anda mesmo triste por aqui. Tem gente chamando Charlie Brown Jr. de Rock. Bem, todo mundo tem o gosto que merece. Neste momento, Johann Sebastian Bach, Nicolò Paganini, Wolfgang Amadeus Mozart, Tom Jobim, Renato Russo, Cazuza, Jimi Hendrix e outros grandes músicos devem estar se remexendo no túmulo, desesperados, doidos para voltar e salvar a humanidade, ou dar uma ajudinha àqueles que estão vivos na luta, como os bravos lutadores Eric Clapton e B. B. King. Felizes aqueles que não os deixaram morrer.

Gustavo Barreto


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