| Vivo, melhor morto
A morte é um estado de inconsciência latente. Desde a separação ele tem vivido melhor morto. Era o que dizia aos íntimos. Nada sobre ontem. Nenhuma fração de raciocínio, racionando perdas. Flutua pela vida, comedido, social, calça jeans-tênis-camisa-hering, atos falhos por toda a casa. Ela, ainda post-mortem, assustava. Com suas mechas negras. Duas esmeraldas crispadas nas órbitas. Cor de esperança. Estampada nos olhos dele, morto-vivo-feliz. Ele também esmeralda, ele também mentira. Insana mentira entre porta retratos deixados na casa da mãe antes das mudanças. Adiava tédio e simpatia. Perambulava esquinas, livros, horas, cuecas, canetas, detalhes, panelas, shampoos, teclas e cicatrizes. Fração de mentira. Às vezes saudades. Criara nela um fantasma. Diria o apelido adotado para ela ao menos sete vezes ao dia. Tal ritual celta para clamar a ira dos deuses nórdicos sobre o inimigo. Que fora ele todo o tempo. Melhor Morto sabia. E morria. Na ânsia do próprio perdão, Melhor Morto-respiração, como tudo o mais automático, pesado, insistente, calhorda, chorava rasgando vísceras entre costelas e Melhor Morto, sorria. Renato Kress
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