SIX

  Cansa dobrar joelhos nos bate-estacas das noites cariocas, a ofegante fricção entre meus pulmões e a oxigente claustro-asmática. Parecem cuecas soltas no armário facilmente arrombável com portinhola de fórmica. O número da Besta, lambuza-corpos e esfrega-coxas, nenhuma preocupação. A safra desse ano é a pior. Se eclética, não tem “stile”, se definida, fixa-cartesiana, é limitada, cansativa. Descartável como as pessoas-produtos passeio olhos recheados de discórdia e asco. Meu óculos não é pra night, é de grau mesmo. Agora minha onda é a mais pesada: água. Dançando, nós, cariocas, nunca somos feios nem dispensáveis, nunca: “é que eu tenho namorado”, prova de que não somos machistas também, liberamos pras mulheres irem se liberar também das nossas neuras, (que simpáticos não acha?), “acabei de chegar”, “vim só pra dançar”, “não quero deixar minhas amigas sozinhas”. Olhos vermelhos e estamos todos sem tempo, sem saco, sem gosto, sem alma, sem grifes, sem... toma ácido. Nas noites cariocas todos somos ovelhas em microfibra de lobos, expectativas de lã sintética fazendo de conta que moda não ofende, que som agrada, que fadas verdes abençoam essa jogatina, roleta russa no fígado e o gosto frio, insosso-insone de ausências na madrugasta.

Renato Kress | 4.8.02


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