Sérgio e Lúcia

  Houve dias de balestra, um dardo atrás do outro e meia dúzia de fundas zunindo sobre a cabeça. Agora calmaria, agora sonho, agora espero. As intimidades, amenidades que se tornaram, vagam cegas pelas entreabertas coxas dela. Não que se acostume de todo, meio insensatez frictícia ou a ritmia decorada da dança mórbida, até já sem palavras, esparsos gemidos e insatisfações talvez melhores que nada. A mesma fuga na culpa muda sobre o outro, o chapéu e os sapatos, já perto da porta, não quiseram entrar muito, esperavam mostrando o caminho de volta. Certos detalhamentos, quando muito evidentes, irritam - pensou. Pensou e caminhou rua afora, não deixara nada, nenhum ato falho, nem lembranças, apenas uma leve sensação de
hipersensibilidade peniana - A vadia tinha a buceta travada! - atravessou a calçada cambaleante num sorriso de desbravador português sobre indefesa indiazinha. Sua casa ficava longe, Marta o esperava, com sua carne cheirosa, sua pele lisa e seu sorriso limpo - pasta de dente demais.

Lúcia e Sérgio

  Homem sério sobre o balcão, antebraço grosso, olhar perdido, rígido. Coxas grossas e um perfume caro - as palavras foram poucas antes da penetração, depois, nenhuma. Violência e rispidez, mas ela queria. Ela desejava porque sabia que ele era assim, amava. Nunca se atrevera, mas amava. Deitou-se de bruços, na verdade queria conversar, parar por um instante que fosse, tornar aquilo tudo real. Foi levantada pela cintura - Por Deus, de novo não! – ele havia achado sua mina e começara a escavar seu ouro. Luzes apagadas. Nenhuma palavra. Emorragia. Nenhuma percepção. Era hemofílica. Antes do sono eterno um leve gemido, mordera tanto os lábios que o visco rubro lhe percorria o pescoço, descia pelo braço - sem tato, sensibilidade. Luzes apagadas. Nada visto. Morreu horas depois, sem dor, sem amor - amava.

Renato Kress


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