| Reviravoltas, reviramexes e reviraviras...
Nossas vidas têm
dessas pegadas. Planos vão pro ralo, e nós, poetas, no embalo
entramos de sola e dividimos a bola se ainda quisermos controlar um mínimo
possível de nossas vidas e olhar no espelho pensando : “esse nariz
é meu?!!”.
Num dia moramos bem,
comemos médio, vivemos de uma irrealidade palpável e divertida.
Onírica. Ainda não se vive a própria casa nem se come
a própria comida. Vida bela a da infância e adolescência.
Vida insana de paudurescência as cinco da manhã numa latência
que bem passa com uma mijada, às vezes.
Noutro dia estamos
em ‘casa nostra’, com os ‘mobiles nostros’ e as cores que escolhemos pras
paredes – agora se pode pintar as paredes – o que fascina. Um quarto só
seu, com uma porta que separa o quarto da sala, por exemplo – agora há
mais portas – o que fascina.
Num dia temos noiva,
transamos bem, vamos ao cinema, teatro, cafuné e conversa. Se vive
uma irrealidade palpável e divertida. Onírica. Sabemos eu
e Murphy, que não se vivia a própria noiva – ao menos não
somente – nem se comia a própria noiva – ao menos não somente.
Vida bela a da infância do sentimento, essa insânia de paudurescência
saciada as cinco da manhã com aquela que até o cheiro entre
as coxas te excita.
Noutro dia temos
gastrite da solidão, mandamos poemas, esperanças e memória
pro inferno, socamos paredes – nem todas mais dão na casa dos vizinhos
– liberamos gotinhas miseráveis no dormir e no acordar, olhos traidores.
Nada mais fascina.
Num dia...
Renato Kress | 2.6.02
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