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Nem toda obra é legítima. Na verdade acho que nenhuma. A vida por exemplo, obra de cada um, tijolinho cotidiano montando sabe-se lá o quê. O de minha mãe um império, o de Nietzsche um bate-estaca. Normalmente vai-se imitando ou adaptando as idéias dos outros. Talvez uma varanda seja uma adaptação da sacada, ou o inverso, só pensando... Poderia achar semelhanças entre minha profunda indiferença pela humanidade e alguns livros não lidos. Mas escritos. Escritos escrotos e sentimentos realistas, taí a sacação que eternizou Nelson Rodrigues e vai eternizar o Rubem Fonseca. Existem por aí pequenas criaturas surrando muros em nossas cabeças. Seiscentos e sessenta e seis pequenos vermes transformando expectativas em frustrações, rasgando a fina tela de seda que cada pai e mãe coloca sobre seu filho até a adolescência, seiscentos e sessenta e seis pequenos vermes reeducando na experiência, retirando a culpa cristã, o “religare pecatorium”. Questão de objetivos, família, família, negócios à parte. A vida é um negócio, retrato de uma navalha sobre a seda dos pais, iminência da insensibilidade primordial, os mais fortes sobrevivem, os mais fortes são os outros, sempre. A vida é um negócio, ilegítimo. Renato Kress | 3.6.02
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