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Morte espreita assim de mansinho todos meus passos, engatinhices e sorrisos. Minhas esperanças são folhas soltas pela casa, entre meus shampoos, dentro do tênis, na antena do telefone, entrada da casa, sobre o creme de barbear, teclado do laptop. Enganam. Quis tudo nessa quase morte ardente menos ter de ouvir Kenny G enquanto escrevo esse conto. Maldito vizinho. Morra, escorra lento pelos viscosos abismos no inferno. Nunca quis sofrer. Se te amo hoje, é culpa nossa. Eu, esperança que anda, ainda não aprendi a Murphologia das minhas quotidianidades sangrentas, a piromaníaca extensão dos meus tentáculos. Dedos cruzam teclas-pétalas e ainda permanece a tactibilidade, a memória da sua pele, boca e felicidade. Era sua, também, a felicidade? Todas as horas se cruzam, memórias gemem, se contorcem na languidez de um tatear incerto, inverno de possibilidades sobre celas. Floresço Fênix apenas para morrer no fogo, antes salamandra, o fogo não me atingisse. Morro mais, agora da cinzitude degradê de lábios e essa tempestade interminável no meu rosto. Renato Kress | 9.6.02
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