| Desapontamento
Morte. Suga profunda poços, abismos, telefones, dígitos, teclas, dentes, rangidos, urros. Ganho sóis, músculos, sorriso e lábios outros. Ganho silêncio, solidão, toda uma merda de esgoto, dejetos abrindo canais entre os túneis mórbidos do meu lixo-entranha. Quero sair, não tenho onde, quem, asas. Tudo está numa mistura de ferrugem e sangue velho entre meus dedos, nas unhas comidas, peles rasgadas, no trôpego trapo de tripa rastejante que me torno, inumano. Ódio. Ridículo ódio esmagando abelhas na sala vazia, o cheiro amargo do própolis espesso que, impulsionado, circula pelas veias, capilares e artérias, conduzindo matéria nutritiva e oxigenação aos tecidos do desgosto, lembra a ruína de só me atingirem na viga mestra, apenas lá. Sentimentos, quem precisa? Indiferença, cinismo, sadismo, ironia, caos. Autônomo. Frio. Nesse mundinho de merda é preciso ser ninguém para ser algo, o que está com a cotação muito mais em alta em todas as bolsas do primeiro mundo do que ser alguém. Renato Kress | 3.7.02
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