Carta a um irmão
 
  Talvez eu tenha passado um tempo distante. Sem telefonemas, cartas, até códigos de barra me evitavam e eu te perdi num turbilhão que até hoje me faz enumerar coisas, palavras sem nexo em frases. Lá nos quase contos que escrevo escravo, você deve fazer idéia... um diário fragmentado das minhas velas, poemas e sombras nas noites corcovadas. Na verdade acho tudo muito esquisito: nós dois na Lagoa, - faz quanto tempo? Dois anos? – eu estava desconstruindo, como sempre, brincando de Lego com a vida, e lá estava você, um cara que eu nem conhecia direito, camisa azul da Adônis, bermudinha e sapato, típico uniforme de pai-pai trintão, me mostrando meia dúzia de paus de barraca que eu precisava chutar, seguir sonhos e ver no que dava. Do alto da sua torre, seus tijolos de tarô taurino, objetivo, seguro e rígido, você me via e de certa forma admirava as loucuras leoninas, irmão, aí me puxava de medo: terra – “e se vocês dois terminarem?” ou “você acha que a Carol vai durar pra sempre?” – carinho. Hoje que já nem me lembro mesmo se noivei antes de ir morar sozinho ou versa e vice. Cagadas nas calçadas flambadas do meu mundinho. Memórias são como aquele ícone de lixo do windows, você compacta e fragmenta se quiser ter espaço em disco pra viver o presente. Eu estava me construindo lá com aqueles pedalinhos em forma de cisne, que eu, típico carioca, só conhecia até então do Cremerie em Petrópolis. Eu descobria um irmão e uma vida que não sei se fugi ou se foge de mim na Rodrigo de Freitas, esse nome que hoje não consigo ler sem achar que era um sanitarista, e se não era, se era biólogo – logo vem às mentes, minha e sua, que “papai deve saber”... reconfortante não acha? Nem tanto – hoje acho que seja quem for, será quem eu quero no meu diário, foi um nome na mesma coliteração do seu e me deu asas, hoje minha criatividade me dá mais respostas, muito mais chaves do que portas possíveis nesse mundo paterno do cotidiópio no despertador.

Renato Kress | 9.7.02


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