| Clarice vai embora para
Pasárgada, sim, lá ela também é amiga do rei
Clarice é feia como o outono: tem uns cabelos de folhas caídas e um sorriso de tronco marrom. Gosta de carinho nas costas e de sopro de névoas. É tão completamente densa, mas infinitamente intocável. Entretanto é feia. E, como tal, não precisa de maestro ou partitura. Esquece-se das coisas menos importantes: dos sapatos, das regras, da matemática e do silêncio. Às vezes, esquece até que existe, só para ficar pensando no sentido das coisas e das azaléias. Outro dia pôs uma linda flor no cabelo, um exemplar daqueles serezinhos que nascem na beira das estradas. A flor era pontiada e tinha um cheiro de algodão-doce amanhecido. Aprendera na escola que, às vezes, usam-se flores para simbolizar certos sentimentos e emoções. A violeta representa humildade; o cravo branco, a fidelidade; a rosa branca é o símbolo do silêncio; e o lírio, da pureza. A flor de Clarice quis dizer qual desses sentimentos? A pobre menina pede um tempo para pensar na resposta, que não virá, pois Clarice ainda brinca de roda e esquece fácil, fácil dos afazeres. Os únicos lugares do mundo onde não existem flores são as áreas geladas do Ártico e do Antártico e em alto-mar. Mas desse último, a garota discorda. A salinidade nunca fora impedimento para o cultivo. Conhecia gente que salgava a gosto a vida por aí, e nem por isso estavam impedidas de crescerem e reproduzirem-se. O problema é que Clarice anda se desapontando muito com as pessoas. Fez-se até muda por um tempo, mas ninguém se apercebeu disso. Hoje a garotinha vive dentro de um armário, onde conheceu sua borboleta de estimação, a qual deu o nome de Símile. A lepidóptera também andava descontente com o mundo e praguejava o dia inteiro a ponto de Clarice pensar muito em mudar-se dali. Mas a coitadinha precisava do serzinho alado, pois estava sozinha e tinha se tornado uma menina sem fantasias. O carnaval já havia passado dentro do armário e não sobrara um único bloco de história para a pobre garotinha contar. Clarice sou eu. Helana Gurgel | 30.11.02
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