Cinco Marias
Fabrício Carpinejar 

Quantos cavalos foram abatidos
na evolução do meu rosto? 
Quisera ser mais feminina
para não me omitir diante do espelho. 
Experimento tantas roupas
antes de sair porque
meu corpo não me serve.

* * * * *

Entendo a loucura materna. 
Como um táxi vago, 
saiu a persegui-lo
na madrugada. 
O luminoso apagado, 
o taxímetro marcando
anos de convivência. 
Revistou os bares, 
as delegacias, os hospitais. 

Ela queria encontrá-lo ao menos
para cobrar a corrida

* * * * *

Separar-se é ter a residência invadida. 
Conferir peças na sala, armário, 
carteira, com pouca noção exata
do que foi embora. 
Olhar desconfiado
aos objetos que viram
e nada dizem.

Separar-se, uma porta
arrombada por dentro.
 

Esses poemas integram o livro inédito Cinco Marias. Carpinejar é autor de As Solas do Sol (Bertrand Brasil, 1998), Um Terno de Pássaros ao Sul (Escrituras Editora, 2000), Terceira Sede (Escrituras, 2001) e Biografia de uma árvore (Escrituras, 2002). Recebeu vários prêmios como Olavo Bilac/2003, da Academia Brasileira de Letras; Cecília Meireles 2002, da União Brasileira de Escritores (UBE); Marengo D’Oro, de Gênova (Itália); duas vezes o Açorianos de Literatura, edições 2001 e 2002; Destaque Literário – Júri Oficial como melhor livro de poesia da 46ª Feira do Livro de Porto Alegre (RS), e Fernando Pessoa, da União Brasileira de Escritores/RJ, em 2000. Mais aqui


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