| Preto no Branco (Ou Branco
na Preta)
Carol Considerações Primeiras Na Tevê do Branco, tem vez o branco. Que seja saudável, perfeito, bonito e jovem, preferencialmente. Lembro de certa ocasião em que uma ONG resolveu criar polêmica e andou processando a Tevê do Branco porque dado autor enviara ao Éden espírita sua protagonista. Quer dizer, a revolta não se deu pela cândida personagem ter batido as botas, mas por ter ido d’Essa pra Melhor, e a Melhor Global ser composta de elementos igualmente (pasme!) brancos. Resumo da ópera: o céu da Rede Globo não comportava, por exemplo, negros ou orientais. Vai ver não encontraram nenhum ator disponível. Mas, pensando bem, o Pitanga nem estava com a Benê, e o Toni Tornado ainda não tinha sido mordido, ué! Mas o que é isso? Infâmia! Toda a sorte de atores compõe o quadro televisivo brasileiro. Já vi até japonês interpretando jardineiro em novela das sete, negro sendo escravo em saga quinhentista, deficiente encarnando Saci em programa infantil... Nossos Otellos interpretam papéis diversos. São empregadas domésticas em belos lares aristocráticos, motoristas particulares de louros executivos, bandidos inescrupulosos batedores de carteira cheia, e, vez por outra, protagonizam até um pastelão débil. Não são Otellos, não são heróicos mouros nem estrangeiros intrigantes. Nem a coitada da Rita Baiana, a mulata viçosa de Aluízio, cheirando à baunilha, fugiu à regra. Beth Faria é de amargar até cortiço pré-oitentas. Parece injusto, no entanto, retomar toda essa história de exílio justamente agora, ao soar do gongo global. É época de vinheta hansdonística: a Globeleza tem balançado as tetas, dia a dia, incansavelmente, em nossos aparelhos. Contagem pornorregressiva, anúncio do carnaval que vem aí. É engraçado observar como, em determinado momento do ano, de pseudo-libertário caráter, aquela figura, não gratuitamente criada por um alemão, encarna definitivamente um padrão mítico do país, filho bastardo da relação incestuosa dada entre o Colonizador e a Herança escravocrata brasileira; “Achei Anica na fonte
Gregório de Matos Gregório de Matos é o primeiro autor consagrado que torna a mulher mulata efetivamente motivo de preocupação poética, distinguindo, inclusive, da figura da mulher negra, nos idos de 1600. A negra de Gregório deve ser avó da negra de Aluízio, a corticeira Bertoleza, a “escrava”, “crioula”, “demônia”, “suja” criatura, que além desses, carrega mais e piores predicados. A mulata de Gregório, da mesma maneira, deve ser avó de Rita Baiana. Elas definem o princípio de prazer. Vivem os presentes, parecem sinuosas quanto ao trabalho e transformam-se gradualmente em tentação. O seiscentista é capaz até de confundir as águas em que trabalha a mulata Anica com as que vertem de seu corpo, e assim é convertido trabalho em prazer. No século seguinte, Padre Antonil, missionário da Companhia de Jesus, dedica suas atenções a investigar, em sua curiosa “Opulência do Brasil”, todo o processo de desenvolvimento da indústria açucareira no país. Disseca, então, cuidadosamente, todos os componentes do Engenho, inclusive suas categorias humanas, e chega a afirmar que o Brasil é o “Inferno dos negros, purgatório dos brancos, e paraíso dos mulatos e mulatas”. O Padre acredita que o mulato, sendo filho de negro e branco, é “favorecido pela natureza e abençoado pelo branco”. Assim, sendo ou não escravo, tem regalias do senhor, favores atendidos, serve de outra maneira a que não serve o negro ou a negra. A “Negra Fulo”, de Jorge de Lima, se atende ao parâmetro mítico brasileiro, deve ser a “Mulata Fulo” também. Só pra terminar O Teu Cabelo Não Nega “O teu cabelo não
nega mulata
Lamartine Babo E como a cor não pega, ta aí a hansdonística Globeleza, grávida, e servindo de consolo a todo o ser humano negligenciado pela gRobo. Carol | 31.01.2003
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