Augusto dos Anjos (20/4/1884 - 12/11/1914)
12 de novembro de 2004: Há 90 anos, a primavera de 1914 e a invencível tuberculose levaram, aos 30 anos de idade, o poeta Augusto dos Anjos, bacharel pela Faculdade de Direito do Recife.

Primavera

Primavera gentil dos meus amores,
- Arca cerúlea de ilusões etéreas,
Chova-te o Céu cintilações sidéreas
E a terra chova no teu seio flores!

Esplende, Primavera, os teus fulgores,
Na auréola azul dos dias teus risonhos,
Tu que sorveste o fel das minhas dores
E me trouxeste o néctar dos teus sonhos!

Guerra

Guerra é esforço, é inquietude, é ânsia, é transporte...
E a dramatização sangrenta e dura
Da avidez com que o espírito procura
Ser perfeito, ser máximo, ser forte.

É a Subconsciência que se transfigura
Em volição conflagradora... É a corte
Das raças todas, que se entrega à morte
Para a felicidade da Criatura!

É a obsessão do sangue, é o instinto horrendo
De subir, na ordem cósmica, descendo
A irracionalidade primitiva...

É a Natureza que, no seu arcano,
Precisa de encharcar-se em sangue humano
Para mostrar aos homens que está viva!


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