Trabalhas sem alegria para
um mundo caduco,
onde as formas e as nações
não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente
os gestos universais,
sentes calor e frio, falta
dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques
da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude,
a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina,
abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes
de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de
aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os
problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar
prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino,
em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com
eles conversas
sobre coisas do tempo futuro
e negócio do espírito.
A literatura estragou tuas
melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito,
muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso,
tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século
a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra,
o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes,
sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.