Auto Retrato
Renato, aqui está a crônica do grande Drummond, a qual disse que lhe enviaria. Essa crônica, em especial, mostra a genialidade de Drummond. Quando publicou o livro de poesias que contém o famoso poema "No meio do caminho" ele foi muito criticado. O poema em questão suscitou enorme polêmica, a ponto de o próprio poeta ter reunido num livro as críticas sobre tal texto. Pelas repercussões que provocou, o poema condessa a história de um momento na literatura brasileira. Coisas de grande poeta, coisas de Drummond. Até mais e força sempre. [Cândido Júnior]

Diz o espelho:
O Sr. Drummond de Andrade é um razoável prosador que se julga um bom poeta, no que se ilude. Como prosador, assinou algumas crônicas e alguns contos que revelam certo conhecimento das formas graciosas de expressão, certo humor e malícia. Como poeta, falta-lhe tudo isso e sobraram-lhe os seguintes defeitos: é estropiado, antieunfônico, desconceituoso, arbitrário, grotesco e tatibitate. (...)

Sr. Drummond de Andrade passa por ser autor de um poema (?) ou que melhor nome tenha, a que deu o título “No meio do caminho”. Essa produção corre mundo e é considerada ora obra de gênio ora monumento de estupidez. Na realidade, não é nenhuma dessas coisas, nem pertence ao estro do sr. Drummond. Com efeito, quem se der ao trabalho de examinar-lhe o texto verificará que se trata tão-somente da repetição, oito vezes seguidas, dos substantivos “meio”, “caminho” e “pedra”, ligados por preposições, artigos e um verbo. Não há nisto poema algum, bom ou mau. Há apenas vocábulos, que podem ser encontrados facilmente do Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, revisto pelo sr. Aurélio Buarque de Holanda.

Esse pequeno fato literário fez despertar em alguns julgadores a suspeita de que se trata de um mistificador. Tem-se por vezes a impressão de que o sr. Drummond se diverte com o escândalo produzido por seus escritos, escândalo de que emergem as seguintes opiniões a seu respeito: “É um burro.” “É um louco.” “É superior a Castro Alves e igual a Baudelaire.” (...)

Não há muita coisa interessante na vida do sr. Carlos Drummond de Andrade, embora ele pense o contrário. Tem explorado largamente o fato de haver nascido em Itabira, cidade mineira do ferro, como se isto constituísse uma singularidade. Também já publicou que foi expulso pelos jesuítas de Friburgo e que não é bacharel em direito nem médico nem engenheiro; é gente, apenas. Dir-se-ia alimentar, entre outros preconceitos, o anticlerical e o antiuniversitário, o que já deixou de ser uma originalidade.

[ANDRADE, Carlos Drummond de. Auto-retrato e outras crônicas. Rio de Janeiro, Record, 1989. p. 13 – 15.]


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