João Ruy

Cuidado 

Pela fresta estreita
Alguém sempre espreita
Aguardando a hora.
Pode ser agora,
Pode ser mais tarde.
Sem fazer alarde,
Sem constrangimento,
Vai nos atacar.
De forma certeira
Num breve momento,
Vai-se a vida inteira:
Nos resta lutar.

Dominação

Me olha no olho
O espelho.
Onde havia mata
Tinha festa na floresta.
Pura civilização
Tetas fartas
Índia 
Sem pudor algum.

De vaidade de poderes
O espelho dos pudores
Saciou a vontade européia
caravela
epopéia.
Pelo espelho
Foi-se a imagem
De uma civilização
Gente brasileira
Sem bandeira.

Não há mais festa na floresta
(quase já nem há floresta)
na nova civilização
de poderes
de espelhos 
de pudores.

Brasileiro

Sou do tipo brasileiro comum
Pareço com a maioria,
Sou igual a qualquer um.

Minha casa não tem porta,
É sem parede e sem janela.
Nunca fui para a escola,
Não há comida na panela,
Não aprendi jogar bola,
Mas não vou pedir esmola.

Meu desejo é trabalhar
Quero apenas um salário
Que não seja tão pequeno
A me fazer esmolar.

Quero ter uma família,
Não se assuste, gente boa.
Se estou no cruzamento,
Caminho em outra trilha
Não faça mau julgamento
Não estou ali à toa
E não sou sua armadilha.

Sob a luz da lua
Moro em todo lugar.
Sou um menino de rua
Querendo a vida mudar.
Fui expulso da favela
Não tenho comida, panela,
Nem porta, parede ou janela.

Êxodo

Quando vim para a cidade
Era ainda bem criança.
De olhos tristes temia
Dos meus pais a esperança.
Tudo aqui era estranho,
Só de pensar eu tremia,
Sem saber o que dizer
Sem saber para onde iria.
Meu pai não tinha emprego
E nem jeito de arrumar.
Não tendo uma profissão
Vivia a biscatear.
Aos dez anos fui para a rua
Tentando arrumar dinheiro.
Sem rumo nem direção
Caminhava o dia inteiro.
(para quem está na rua
todos são poucos caminhos)
só tem uma direção
para João, Maria ou José
os rumos desta cidade
terminam na praça da Sé.
Aprendi muito depressa
A dureza de quem começa:
Sem medo de ninguém
Entreguei-me, cheirei cola,
Fumei, roubei, pedi esmola,
Agora estou na Febem.

Manipulação I

Todo o povo padece,
Mas logo tudo esquece
Na tela do globo ou da tvs.
Para tudo há um jeitinho:
Se for morto um vizinho
O sangue logo aparece
Na tela da globo ou da tvs.

De roubado, ser ladrão
Jovens vão se formando.

Nem só de pão vivem
o homem ou a mulher.
Tem sempre a ilusão,
Remédio para quem quiser.
Existe sempre um jeito
De tudo parecer perfeito,
Seja o crime ou o perdão,
Ganância, vontade de poder
Na tela da televisão
Tudo pode acontecer.

Manipulação II

E se o sol não nascer
Um dia?
Como é que vai ser?
De manhã bem cedo
Se ficar com medo
O que é que vai ser
Se domingo à tarde
Não tiver programa 
Na televisão?

Palavras, medo,
Conversa, caos.
Entorpecidos estropiam.
Nas imagens:
Grande explosão
São as cores da televisão.

Dias de caos 
No cais do porto.
Do homem morto:
Sangue vermelho
Pelas cores da televisão.

O que é que vai ser
Se domingo à tarde
Não tiver programa
Na televisão?

João Ruy
 

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