| Adriana.
Vou negar, vou mentir. Dizer que não é nada disso, que você não entende direito e por isso pensa desse jeito. Vou negar. Ignorar que pensa diferente e te explicar que é daquele outro jeito que é o meu porque vou mentir mesmo e é mesmo fácil como sempre teve sido - aceitar o que eu digo é a fórmula comum do bom-senso entre a gente. Não que essa vida possa ser algo de maravilhoso se de repente me der a louca e eu começar a achar que você fala coisa com coisa, nem é bem disso que to falando. Ás vezes eu só quero tapar esses teus estúpidos vácuos, de expressão, de vontade, de personalidade, e ir ao cinema. Só isso. Meu caso com meu corpo é problema meu e você sempre com aquela expressão, como se eu não fosse nada mais que uma extensão da sua coxa esquerda ou umbigo. Vou mentir. Não quero mais estar nem aí se você simplesmente desaparece e te encontro mal, te encontro pelos outros, te encontro com as outras. Não vou me desligar do que acontece não. Porque eu não acho que mereça essa atitude, nem o sorrisinho e o disse-me-disse dos teus parentes. É, sei. A essa hora já estamos todos putos brigando por alguma coisa que não sabemos qual é, mas que sempre foi o outro que começou. É mais fácil assim, não é? Sinceramente não sei muito bem o que ainda faço aqui. Deve ser bem costume mesmo, acordar, fazer café, te olhar de relance com ressentimento põe aí até uma pitada de ódio, nem sei e ir pensando pelo dia que já demos o que tínhamos de dar, ir me perguntando quando vou parar essa merda toda e assumir um outro rumo. Enfia o sorriso no cu e roda. Parece que você acha que me falta coragem, que não saberia me entregar a outro, não é bem isso, querido. Tem duas coisas que me prendem aqui e pode ter certeza de que nenhuma delas te agradaria ouvir. Pra início de conversa porque esse teu sorriso ta me enchendo o saco eu não sou tua, nunca fui e nunca serei. Sou minha. A decisão de entregar meu corpo para você é momentânea e foi feita em separado a cada momento daquela cama ali. Depois disso eu volto ao zero. As melhores noites aqui foram as que passei na varanda, quando você enchia a cara, quando dormia fora. Não que eu não pudesse ser sua, é que você nunca conseguiu me fazer sua, nem uma vez. Daí eu volto a mim e repenso, a cada trepada nossa, se quero fazer isso de novo, se essa novela mexicana vale a pena. Vamos encarar? Eu adoro a vista do teu apartamento, principalmente quando você vai embora, mas você é um merda na cama. Se conheci caras melhores? Pode ter certeza. Por que não fiquei com nenhum deles? Nem tudo na vida é sexo meu caro. E se fosse não seria com você que eu ia me prender. O outro motivo de não largar você? Talvez esteja falando dele agora justamente porque já não me incomoda mais. Eu tenho um pouco de pena. Olha bem pra você. Isso, se olha no espelho mesmo. Não acha que você ta pesado, carregado de certezas superficiais como a de que no fim dessa conversa eu vou deitar naquela cama ou te perguntar se quer café, de que no fim vou deixar isso tudo pra lá e ficar feliz se achar o canário que fugiu na quinta passada? Essas tuas certezas, no começo, me deixavam puta! Eu pensava: Caralho, que arrogantezinho de merda. Burguesinho escroto. E depois sentava na tua varanda, porque, porra, a tua vista é incrível. Eu é que tô sendo babaca? Você me fez de mãe, seu corno! Olha bem na minha cara: eu não sou tua mãe, valeu? Hoje eu tenho pena, muita pena das tuas certezas. Teu mundo é tão clean, tão transparente, tão superficial que falta vida, cara! Sabe, acho que entrei na tua porque precisava de um tempo. Ficar sem estresse por uns meses, ficar sem pagar conta, ficar sem mergulhar em preocupação, descansar. Depois voltar pra vida que dessa tua vida sem sujeira, que dessa tua vida sem segredo, onde todas as chances de algo real, podre, imundo, escondido... eu ia encher o saco cedo demais. Tinha certeza. Entrei nessa casa a mais de um ano, já deixando as roupas perto da porta queria fugir no meio da noite e te deixar um bilhete em braile só de sacanagem, dizendo: Acorda cara. Fui entrando pela cozinha - você nem notou que me fez entrar pela primeira vez logo pela cozinha e vendo por onde fazia pra sair. Até que eu vi a varanda. Não que não imaginasse, pela portaria, qual era a tua vista, mas nem podia mesmo acreditar que fosse assim. Aí eu fiquei. Não digo que tô arrependida de tudo, porque a tua vista é fenomenal e porque, convivendo com você, pude perceber o quanto a minha vida faz sentido. A gente aprende por contraste, comparação, sei lá. Deve ser por isso que ninguém consegue imaginar o infinito e é justamente por isso que eu vou ficar aqui, para dar sentido pra minha vida. Agora me faz um café. Disse Adriana em frente ao espelho, 3 minutos antes de receber Marcos, sorridente. Renato Kress
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