Guinada
política e canções de amor
Em "Donos do Brasil", Fagner enaltece obra de Francisco Carvalho, poeta do Ceará. Matérias reunidas de diversas fontes. Setembro de 2004. Beatriz Coelho Silva, da Agência Estado, no Rio de Janeiro:O cantor e compositor Raimundo Fagner pretendia fazer, este ano, um disco com músicas dele e de Capinam. Ambos trabalhavam alguns temas quando os apresentaram à poesia de Francisco Carvalho e ficaram encantados. Então mudaram tudo e "Donos do Brasil", que acaba de sair pela Indie, tem a nítida influência de Carvalho, um professor universitário tão discreto e tímido que ainda não apareceu pessoalmente para Fagner e Capinam, mas influenciou todo o CD, mesmo que tenha letras em apenas cinco das 13 faixas. "Sempre gostei de compor com parceiros, entrando com a letra ou a música - tanto faz - porque duas cabeças pensam melhor do que uma e o trabalho vira uma terceira coisa. Estava tudo mais ou menos encaminhado com o Capinam quando nos mostraram a poesia do Francisco Carvalho e entramos de sola nela. Sentimos necessidade de trazê-la para nós", conta Fagner. "Ele é cearense como eu, só que eu não o conhecia e o que me atraiu foi sua qualidade e atualidade. Ao contrário de outros parceiros, não mudei nem uma palavra de sua poesia. Não tinha intimidade com ele e algumas estavam prontas havia muito tempo, não podiam ser mexidas." Francisco Carvalho, apesar de pouco conhecido, tem uma antologia, "Memórias do Espantalho", publicada pela Universidade Federal do Ceará (UFC), que quer lançá-lo nacionalmente. "Ele se recusa a dar entrevistas, fazer televisão, mesmo que a gente insista que, com um trabalho na rua, isso é necessário", diz Fagner. "Mas a sua poesia atrai tanto quanto a de outros poetas que já musiquei em outras épocas (as mais conhecidas são a brasileira Cecília Meireles e a portuguesa Florbela Espanca)." É difícil dizer se a guinada política desse disco se deve a Francisco Carvalho ou a Capinam, embora parceiros de fé como Abel Silva e Fausto Nilo estejam presentes. A partir da faixa inicial, "O Bicho Homem", Francisco Carvalho mostra a que veio, com contundência e doçura, "Cesta Básica" faz percussão com palavras e "Reino" é um soneto que ganha grandiosidade com a melodia de Fagner. "Tem o lado político, mas tem também músicas de amor, como "Faz de Conta" (de Roberto Mendes e Herculano) e "Ressurreição" (dele com Abel Silva)", explica Fagner. "Não houve uma intenção prévia de fazer um disco político ou romântico, tudo foi acontecendo normalmente." Já a produção de Rildo Hora foi proposital. Fagner, que raramente tem seu nome ligado ao samba e gêneros afins, só agora se sente seguro para visitá-los. Há até um samba-enredo, a faixa-título, "Donos do Brasil" (dele, Nonato Luiz e Paulinho Tapajós), em que põe a maior fé. "Sempre me envolvi com samba, gravei alguns, mas me atrevi pouco, até então. Determinadas regiões da música exigem amadurecimento. Afinal, tocar e cantar choro e samba não é para qualquer um", brinca. "Por isso, o Rildo Hora caiu como uma luva. Ele arma a conjunção musical com a maior fidelidade à idéia que a gente passa." Disco lançado, Fagner fica no Ceará em outubro, envolvidíssimo com as eleições, já que ele sempre se meteu na política de seu Estado (e pouco na nacional). Em novembro, volta ao Rio para gravar o DVD desse disco. Diferentemente dos anteriores, que eram um apanhado de sua carreira ou o que fez com Zeca Baleiro, um projeto à parte dos dois, este já foi planejado desde o início da feitura do disco. "Quero chamar a Bibi Ferreira para dirigir o show, pois ela é a melhor pessoa para destacar a poesia dessas músicas", sonha ele. "Já gravamos com poucos músicos, para poder repetir ao vivo a sonoridade da gravação. A idéia é levar essa emoção para o público, ao vivo." Fagner lança CD de inéditas Nesta segunda-feira, dia 20, o cantor Raimundo Fagner recebeu a imprensa no Espaço Indie, no Rio de Janeiro, e falou do seu primeiro CD de inéditas pela Indie Records, o 30º disco do artista. "Donos do Brasil" homenageia os poetas que, segundo Fagner, "são os verdadeiros donos deste país" e tem parcerias com os poetas Francisco Carvalho, Capinam e Fausto Nilo, dentre outros. Ressurreição, com Abel Silva, e Dezembros, com Zeca Baleiro e Fausto Nilo, são as únicas regravações do disco. A canção "Faz de Conta", de Roberto Mendes e Herculano Neto, será a primeira de trabalho nas rádios. Fagner lança "Donos do Brasil" No novo trabalho, o cantor e compositor dá voz aos poetas; trata-se de um álbum de poesia musicada A faceta não é novidade, embora seja menos conhecida da maioria do público. O cantor e compositor fez história e polêmica há muito tempo, quando gravou "Canteiros", poema de Cecília Meirelles. A experiência foi repetida com sucesso em "Fanatismo", de Florbela Espanca, e "Traduzir-se", de Ferreira Gullar. Desde então, não parou mais. A novidade de "Donos do Brasil" atende pelo nome de Francisco Carvalho. O poeta, às portas de completar 80 anos, foi descoberto por Fagner por meio do jornalista Vicente Alencar. A idéia de fazer um disco voltado aos ritmos brasileiros deu lugar a um álbum de poesia musicada. Além dos poemas de Carvalho, Fagner recorreu a Capinam, Fausto Nilo, Brandão, Abel Silva e Sebastião Dias."Convoquei meus velhos parceiros para uma operação poética de emergência", diz o músico. Acompanhando o texto forte de Francisco Carvalho, o samba ("O Bicho Homem"), o blues ("Cesta Básica") e um quase rap ("Minueto da Porta"). O afiado Fagner pode até não mudar o mundo, mas planta mais sementes. "Alguém precisa se arriscar a fazer algo novo. O mercado está propício a isso. Chegamos a tal ponto de não-audição de música no Brasil que as pessoas querem escutar algo diferente", acredita. Fagner ensina que vale a pena propor o novo. O homem que já dirigiu o selo Epic, da extinta CBS, e lançou Amelinha, Zé Ramalho e Elba, entre outros, não desistiu de produzir. "Descobri a dupla veterana João Mathias e Tião Goiano. Um é cozinheiro de restaurante, e o outro, caminhoneiro. São maravilhosos. O CD deles sai em breve." Que venham novos sonhos. Frases de amor Além dos poemas de Francisco Carvalho, Fagner dá espaço, no novo álbum, ao romantismo, outra presença marcante em seu repertório. A música "Rosa da China", letrada por Fausto Nilo, canta a essência de um homem apaixonado: "Entre as mulheres que você se imagina, eu me perdi dez mil anos atrás". A mistura reforça o espírito jovem do músico que, na década de 70, reuniu em disco nomes como Patativa do Assaré, Ferreira Gullar, Geraldo Azevedo, Fausto Nilo, Belchior e Nonato Luiz, em uma espécie de sarau musical. Sem medo de ser popular, Fagner aposta na escolha de sua gravadora, a Indie Records, para a primeira música a tocar nas rádios: "Faz de Conta", parceria de Roberto Mendes e Herculano Neto. Sucesso à vista. Um trabalho com urgência poética Fagner descobre escritor octagenário em seu novo CD "Donos do Brasil". Mônica Loureiro, da Tribuna da Imprensa Parece que a maturidade profissional e a experiência de vida têm provocado em Raimundo Fagner a busca crescente por novidades. Se ele vinha de dois discos ao vivo seguidos, ano passado transbordou de inspiração ao lado de Zeca Baleiro no CD da dupla pela Indie Records. Agora, ele lança seu primeiro sozinho pela gravadora, que também carrega mudanças significativas. O CD "Donos do Brasil" já surpreende pela capa, que traz uma foto das dunas cearenses - a primeira de 30 discos que não tem a foto do cantor e compositor estampada. "E, será? Ah, mas eu tô tão bem na capa... A florzinha!", brinca Fagner. Ele diz que a programação visual ficou mesmo por conta da gravadora e que essa mudança não foi proposital. A outra surpresa é o novo parceiro de Fagner, o poeta Francisco Carvalho. "Eu pensei em fazer um disco muito mais ligado aos ritmos nordestinos, à nossa cultura, talvez só com parcerias minhas com Capinan. Mas quando li o primeiro poema dele, `O bicho homem', dei uma virada geral. Foi surpreendente. Um poeta que eu não conhecia, cearense, anônimo até pra mim que sou conterrâneo! Pela qualidade da obra, senti que estava diante de uma coisa extraordinária. Como sempre gravei poetas, descobrir um dessa magnitude é como se virasse uma obrigação", conta. Fagner pinçou "O bicho
homem", "Esse touro vale ouro", "Cesta básica" e "Reino"/"Minueto
da porta" do livro "Raízes da voz", do poeta que tem 80 anos e lança,
em breve, a antologia "Memória do espantalho - Poemas reunidos"
(Imprensa Universitária). "Faço questão de trabalhar
para divulgar esse trabalho", promete Fagner, que ainda não se encontrou
pessoalmente com Francisco.
"Quando comecei a musicar os poemas de Francisco, senti a necessidade de convocar meus parceiros. Foi uma situação poética emergencial", exagera. "Brandão é o maior poeta cearense de nossa geração. Nonato é um dos maiores violonistas do mundo. Sua agenda no exterior é lotada. Pena que é escravizado pela mulher...", alfineta. O baiano Roberto Mendes, novato em discos de Fagner, entrou neste com "Faz de conta" (com Herculano Neto) e "Todo seu querer" (com Capinan). E Sebastião Dias, com "Canção da floresta", um bônus track. "Me lembrei dela quando fiz um show no Acre. Como faltou música no disco, resolvemos incluí-la", diz, reclamando que hoje em dia é preciso muitas músicas para se fazer um disco. "Antes nós podíamos fazer só com oito ou 10... Agora, imagine, ter que ficar ouvindo direto 20 músicas de um cara!". Outra faixa que entrou como bônus em "Donos do Brasil" foi "Dezembros", do disco de Fagner & Zeca Baleiro. "Foi uma sugestão do Líber Gadelha (diretor artístico da Indie). Ele não impõe nada, só sugere. Mas se a gente não aceitar, fica ligando 200 vezes até conseguir!", brinca. Fagner aproveita para comentar sua parceria com o cantor e compositor maranhense. "O trabalho com Zeca tinha começo, meio e fim, ficou bem redondo. Nós somos parceiros, ninguém ia virar dupla! Aliás, meus parceiros estão ficando velhos. Eles não fazem nada, ficam lá, escrevendo... Por isso que o Zeca deu uma injeção legal: ele toca, compõe, faz música, bebe...", diverte-se. Para assinar a produção e direção musical ao seu lado, Fagner chamou Rildo Hora. "Ele é um arranjador que conhece o espírito nordestino, o primeiro para quem mostrei os poemas de Francisco antes mesmo de dizer se íamos trabalhar juntos ou não. Esse trabalho tem uma conotação nordestina muito forte e achei que ele era o mais indicado", justifica. O fôlego de Fagner Novo disco do cantor mergulha na poesia de Francisco Carvalho. Fonte: Jornal do Brasil Mal terminou a temporada do álbum gravado com Zeca Baleiro, em 2003, e Raimundo Fagner já coloca outro disco na praça. A profusão de trabalhos, com dois CDs em pouco mais de um ano se deve, segundo o cantor cearense, à injeção de ânimo dada pelo parceiro, que o fez redescobrir o prazer de compor. O novo disco, Donos do Brasil, teve como catalisador outra parceria, com o poeta cearense Francisco Carvalho. Fagner se impressionou com a força de poesias como O bicho homem, cujos versos foram os primeiros musicados pelo cantor: - No final do ano passado tive contato com a poesia do Francisco, e a idéia do disco tomou forma. Eu me reuni com os parceiros antigos para buscarmos a intensidade da sua obra, a força do seu universo poético - recorda Fagner. Além das poesias musicadas de Francisco Carvalho, o disco traz composições do cantor com antigos parceiros, como Fausto Nilo, Capinan e Abel Silva. Há espaço ainda para uma música do cantador e repentista Sebastião Dias, Canção da floresta, um apelo ecológico que Fagner levou uma década para gravar. - Tenho uma fita com o Sebastião cantando essa música há uns 10 anos, mas nunca havia encontrado espaço em discos anteriores para esse tipo de mensagem. Gravei a música no meu estúdio em Fortaleza para o amigo Jorge Vianna, governador do Acre, e depois decidi colocá-la no álbum. A faixa-título, com música de Fagner e Nonato Luiz sobre letra de Paulinho Tapajós, propõe uma reflexão sobre outra mazela nacional, o etnocídio das populações indígenas. O arranjo do produtor Rildo Hora mescla samba e viola nordestina à canção, caracterizando uma união musical das etnias que constituem a origem da população do país. - Imaginei essa música com a mesma estrutura de Os sertões, que havia gravado com o Rildo em 1997. Ele é um maestro capacitado em várias áreas. Decifrou o que eu estava pensando para o disco, trazendo essa contribuição do samba e do choro carioca, sem perder o espírito musical nordestino - louva o cantor. Fagner também não poupa elogios a Zeca Baleiro. A faixa Dezembros, composição da dupla e Fausto Nilo, presente no CD Raimundo Fagner e Zeca Baleiro, foi regravada pelo cantor cearense: - O Zeca me trouxe um novo estímulo para compor. Sentia falta de um parceiro novo. Não que os meus estivessem velhos, mas precisava de uma pessoa para virar a noite compondo, como eu, ele e o Fausto fizemos. Foi tão espontâneo que, quando o projeto com o Zeca terminou, já emendei em um novo disco. Seria o sinal de um novo álbum da dupla? - Temos outras composições que não botei nesse CD para fazer uma ruptura salutar entre os dois trabalhos. Ainda não pensamos em gravar juntos novamente, mas já cogitamos, no futuro, fazer um trabalho com um terceiro cantor. Uma boa aliança Tárik de Souza, no Jornal do Brasil Depois de uma fértil parceria com o maranhense Zeca Baleiro, que resultou num disco que levou o nome da dupla no ano passado, Raimundo Fagner preparava um álbum de composições com o poeta baiano tropicalista José Carlos Capinam. O projeto era esse até que Fagner colidisse com o livro Raízes da voz, do conterrâneo Francisco Carvalho, um dos freqüentadores da Casa Juvenal Galeno, em Fortaleza, reduto de poetas. Conhecido por ter musicado Cecília Meireles, Ferreira Gullar e Florbela Espanca, ele se afinou com a pegada imagética de Carvalho. Resultado: Donos do Brasil (Indie), o novo CD de Fagner, contém cinco parcerias dele com FC e apenas uma com Capinam, também escalado com outro compositor, o baiano Roberto Mendes (Todo o seu querer). Completa o novo tour autoral do solista reencontros com velhos parceiros como Fausto Nilo (Rosa da China), Brandão (Mistério de amor) e Abel Silva (Ressurreição) e uma incursão em dupla com o violonista Nonato Luiz e o compositor Paulinho Tapajós, na faixa-título. Donos do Brasil é uma das melhores do disco, a despeito do tema recorrente da titulariedade indígena do país (''Quando a terra era de Tupã/ quando o povo falou tupi''). Deságua num samba-enredo tratado com perícia pelo co-produtor Rildo Hora, que também divide arranjos e regência com Fagner e Jota Moraes. O formato baladão grandiloqüente dominante em algumas faixas (Mistério do amor, Ressurreição, Todo seu querer) e a reprise de Dezembros, do disco em parceria com Baleiro, diminuem o poder de fôlego do repertório. Este cresce na aliança da dupla central e eventualmente surpreende na desgarrada moda violeira Canção da floresta (Sebastião Dias), outro tema batido, a ecologia, reciclado com empatia. No mais, é deleitar-se com as imagens um tanto rústicas e abruptas de Francisco Carvalho musicadas por um inspirado Fagner em Cesta básica (''um tiro no ouvido/ pra não morrer de rir''), Esse touro vale ouro, Reino, Minueto da porta e principalmente no manifesto O bicho homem (''que mama no seio da reminiscência''). A MPB captura um poeta de outra praia e adensa sua espuma. Um disco para não morrer de esplim Geraldo Medeiros Júnior “Um quilo de levedo, pra
não morrer de bêbado”.
Quer saber o melhor remédio contra o esplim? O novo disco de Fagner. Sim, o velho e bom Raimundo Fagner! Se você é daqueles que acham que a obra de Fagner deveria ficar restrita aos discos dos anos setenta e início dos anos oitenta e que, de lá pra cá, o que se viu foi um cantor preso às baladas românticas, tocadas à exaustão nas rádios e nos programas de auditório da tv, fique sabendo que está desatualizado. E muito! Uma nova fase da carreira de Fagner, síntese dos períodos anteriores, começou a se desenhar desde o disco Raimundo Fagner, de 1996. Ali, já se via a preocupação com um repertório primoroso e arranjos sofisticados. Daí em diante, descontados os projetos comemorativos e os lançamentos de dvds que resgataram os grandes sucessos da carreira, viu-se discos que oscilaram entre músicas de letras fortes, boas melodias e de ritmos regionais. Em seus dois últimos trabalhos, Fagner já havia mostrado que ainda tem muito a contribuir com a música brasileira. Em 2001, um belíssimo disco de inéditas, que deixou interpretações definitivas, a exemplo de Certeza, Muito Amor, O Vinho, Sem Teto, Jardim dos Animais e Tempestade. No ano passado, uma importante parceria com Zeca Baleiro, que rendeu um disco de inéditas e um dvd ao vivo, onde se destacam Balada de Agosto, Azulejo, Três Irmãos, Cantor de Bolero, entre outras. O cd Os Donos do Brasil, que começa a chegar às lojas, é prova real de que é injusto taxar o Fagner atual de brega ou de coisa parecida. É um disco do bom compositor Raimundo Fagner, presente em nada menos do que dez das treze faixas. É, também, de pura poesia. Versos musicados a partir de poemas de Francisco Carvalho, ou letras de músicas compostas pelos geniais de sempre, Fausto Nilo, Capinan, Abel Silva e Brandão, dão uma sensação de volta ao passado, ao mesmo tempo em que se vê um Fagner síntese, melhor do que nunca. Os poemas de Francisco Carvalho marcam em muito o novo trabalho. São letras sintonizadas com o social (“que bicho é o homem de salário fixo?” ou “um quilo de arroz para não morrer de fome”), com o transcendental (“a casa é uma pilastra que sustenta a alma”), com o rural ingênuo (“esse touro quando mija, fecunda o sexo das vacas”). São letras novíssimas, musicadas por quem acha que o seu trabalho não está terminado, mas, antes, existem muitos caminhos ainda a serem reinventados. A quilométrica O Bicho Homem, de quase sete minutos de duração, merece destaque por ser uma crônica social, a respeito do papel do homem, das incertezas, do sofrimento, do amor, do carinho e do medo de morrer. Aquele mesmo menino guerreiro, dos anos oitenta, embora mais menino e mais experiente. Da parceria com Fausto Nilo, apenas Rosa da China, belíssima canção, com direito a musa com blusa lilás, ou citações à bela da tarde. O solo de guitarra, remete a Ave Maria no Morro. Dezembros, sucesso nacional a partir da novela Da cor do Pecado, é repetida, com a mesma gravação do disco em parceria com Zeca Baleiro. Duas belíssimas músicas de Roberto Mendes, engrandecem o cd. Faz de Conta, em parceria com Herculano Neto, remete ao Fagner dos anos setenta, nos versos “nem sempre andei assim, nem sempre fui tristeza”; alguém se lembra de “não sou alegre nem sou triste, sou poeta”? Versos como “faz de conta que o tarde é cedo e o agora não espera”, são de quem vive o tempo e o ritmo da poesia pela beleza. Todo Seu Querer é outra, feita com Capinan, romântica, quentíssima, sensual, “tua mão em fogo acende teu corpo, tira tua roupa procurando a flor”. Este é o Fagner dos anos oitenta? Em parceria de Fagner com Capinan, consta ainda a lindíssima Nome de Estrela. Com belos solos de guitarra, que lembram Robertinho de Recife (os solos de Deslizes nos shows dos anos oitenta), embora sejam executados por Fernando Caneca. Os versos “pra chorar, basta que haja beira-mar”, ou “como um pássaro que a noite entristeceu e traz nos olhos a melancólica lua” remetem às noites de lua cheia, com violão e boas companhias. A ave noturna é do Fagner dos anos setenta, os solos de guitarra dos oitenta, mas a síntese, com uma poesia viva e bela, é a do artista de hoje. As parcerias com Brandão e Abel Silva são retomadas. Do primeiro, Mistério de Amor, digna das boas parcerias dos dois, a lembrar Sonho de Arte ou Beleza. Do segundo, na realidade uma regravação, que para muitos soará como inédita: Ressurreição é a mesma música já gravada por Fagner e Agnaldo Timóteo no início dos anos oitenta. Numa gravação mais contida, porém de igual beleza, Fagner retoma uma canção que deveria estar mais presente em seu repertório. Romântica e bela, poderia estar em qualquer disco dele, em qualquer uma das quatro décadas de seu repertório. Outra música que soará como inédita, deverá ser Donos do Brasil, título do disco. Já gravada no cd de Nonato Luiz, a música se transformou num sambão muito bom. Está presente, mais uma vez o compromisso com o país, nos remetendo inevitavelmente a pensar: quem são atualmente os donos do nosso país? Numa possível resposta, a Canção da Floresta é um hino ecológico, de autoria de Sebastião Dias, digno dos discos de Roberto Carlos, já exaustivamente gravados desde os anos oitenta. Talvez nunca seja demais denunciar o que fazem com o nosso planetinha, em especial quando se tratam de versos e melodias eternas. Os arranjos e a produção ficaram sob a incumbência de Rildo Hora e do próprio Fagner. Como novidade, o time de músicos não é composto pelos cearenses, componentes da banda que o acompanha nos shows. Agora, entram Carlos Bala na bateria, Fernando Caneca na guitarra e Fernando Merlino nos teclados, além de muita percussão, para os sambas Donos do Brasil e O Bicho Homem. Jamil Joanes, Mingo Araújo e João Lyra, membros permanentes da banda, estão em várias faixas. Ecológico, social, romântico, rural, poético pelo poético, é esse o Fagner de 2004. Como sempre, desapegado de rótulos, livre, solto, sonhador e com os pés no chão, ele consegue fazer um disco para agradar seus ex-fãs dos anos setenta e os mesmos que continuaram nas duas últimas décadas. Não importa qual o Fagner que você prefere. Da dura poesia dos anos setenta? Do romantismo dos anos oitenta e noventa? A síntese de hoje? Num país de tantas injustiças sociais, de tanto desgoverno, de tanta música ruim nas rádios, o novo disco é necessário como arroz, água, pedra, levedo, ópio e aipim. Nem que seja para não morrer de esplim. A força do lirismo Em seu novo trabalho, Raimundo Fagner apresenta apenas canções inéditas e prova estar num dos melhores momentos criativos de sua carreira. Com produção do cantor e Rildo Hora, Donos do Brasil é um verdadeiro tratado de lirismo e boa melodia. Fagner assina praticamente todas as canções, as exceções são Faz de Conta, de Roberto Mendes e Herculano Neto, Todo Seu Querer, de Roberto Mendes e Capinan, e Canção da Floresta, de Sebastião Dias. O cantor e compositor cearense traz como parceiros Francisco Carvalho, Capinan, Abel Silva, Nonato Luiz, Paulinho Tapajós, Zeca Baleiro e Fausto Nilo. As canções vão do romantismo puro à reflexão social. Entre elas, Esse Touro Vale Ouro (Fagner/Francisco Carvalho), metáfora sobre o poder através da história de um touro que está sendo leiloado, O Bicho Homem (também de Fagner e Francisco Carvalho), que fala dos malefícios que o ser humano vem causando ao planeta, em estrutura melódica que vai do samba ao choro, Cesta Básica (mais uma do cantor e Francisco Carvalho), outra metáfora, desta vez sobre a sobrevivência do cidadão comum, Rosa da China (Fagner/Fausto Nilo), uma das mais belas canções romãnticas dos últimos tempos, e Mistério de Amor (Fagner/Brandão), com levada pop, que tem totais condições de estourar nas rádios. Dezembros, de Fagner, Zeca Baleiro e Fausto Nilo, gravada originalmente no disco que reuniu o cearense e o maranhense, entra como faixa bônus, depois do sucesso alcançado ao ser incluída na trilha da novela Da Cor do Pecado. Um trabalho de qualidade, que só faz reafirmar a condição de Raimundo Fagner como um dos mais competentes criadores da música brasileira. Fagner canta samba e apresenta 12 inéditas em CD inspirado em poetas Fagner adere ao samba na faixa-título de seu 30º disco, ‘Donos do Brasil’, co-produzido por Rildo Hora. Em tempos de discos acústicos com regravações de sucessos, Fagner surpreende com CD de inéditas, Donos do Brasil, nas lojas esta semana – um ano depois do lançamento do álbum dividido com Zeca Baleiro. Donos do Brasil inaugura a parceria do cantor com o poeta cearense Francisco Carvalho. Empolgado com livro de Carvalho, Raízes da Voz, Fagner musicou cinco poemas do escritor, entre eles O Bicho Homem, que procura retratar a natureza humana em 42 versos. A outra novidade do disco é a produção de Rildo Hora em seis das 13 faixas. Nome atualmente associado aos CDs de samba, Rildo arregimentou percussionistas dos quintais cariocas, como Gordinho. Mas, a rigor, há apenas um samba no repertório: o ufanista samba-enredo que batiza o disco e que foi arranjado com a batucada típica do gênero. Se Donos do Brasil exalta as tribos indígenas, Canção da Floresta, de Sebastião Dias, é o apelo ecológico de natural acento ruralista. Como quase todo álbum de Fagner, Donos do Brasil equilibra sotaques regionalistas (como o de Esse Touro Vale Ouro, o menos inspirado dos cinco poemas de Francisco Carvalho) e as tonalidades românticas de canções como Todo seu Querer e Nome de Estrela, ambas letradas pelo poeta baiano José Carlos Capinam. Acima de sotaques, paira o tom poético do disco – evidente no soneto Reino (acoplado ao Minueto da Porta, outro poema de Francisco Carvalho) e em faixas como Rosa da China, parceria de Fagner com outro poeta e fiel colaborador, Fausto Nilo. O problema do CD está na falta de inspiração do compositor. As inéditas sucumbem na comparação com as duas músicas já conhecidas do repertório. Ressurreição é das melhores parcerias de Fagner com Abel Silva (outro poeta recorrente na discografia do cantor cearense) e acaba soando como a melhor faixa do disco, inclusive pela guitarra espacial de Robertinho de Recife, músico omitido na ficha técnica. Detalhe: Ressurreição foi feita em 1983 para Agnaldo Timóteo, que a gravou em duo com o próprio Fagner. A outra música já conhecida, Dezembros, vem do recente CD gravado por Fagner com Zeca Baleiro. A repetição da bela canção é indício de que ainda era cedo para Fagner investir em outro disco de inéditas. O compositor soa aquém dos poetas. Fagner revela poeta cearense em novo CD Cantor e compositor lança o poeta Francisco Carvalho em seu novo disco, Donos do Brasil. Texto de Beatriz Coelho Silva, da Agência Estado Donos do Brasil, novo CD do cantor e compositor Raimundo Fagner, que acaba de sair pela Indie, tem a nítida influência do poeta cearense Francisco Carvalho, um professor universitário tão discreto e tímido, que ainda não apareceu pessoalmente para Fagner e Capinam, mas influenciou todo o CD, mesmo que tenha letras em apenas 5 das 13 faixas. "Ele é cearense como eu, só que eu não o conhecia e o que me atraiu foi sua qualidade e atualidade. Ao contrário de outros parceiros, não mudei nem uma palavra de sua poesia. Não tinha intimidade com ele e algumas estavam prontas havia muito tempo, não podiam ser mexidas", conta Fagner. Apesar de pouco conhecido, Francisco Carvalho tem uma antologia, Memórias do Espantalho, publicada pela Universidade Federal do Ceará (UFC). "Ele recusa-se a dar entrevistas, fazer televisão, mesmo que a gente insista que, com um trabalho na rua, isso é necessário", diz Fagner. "Mas a sua poesia atrai tanto quanto a de outros poetas que já musiquei em outras épocas (as mais conhecidas são a brasileira Cecília Meireles e a portuguesa Florbela Espanca)." A partir da faixa inicial, O Bicho Homem é ao mesmo tempo contundente e doce, Cesta Básica faz percussão com palavras e Reino é um soneto que ganha grandiosidade com a melodia de Fagner. Segundo o cantor, "não houve uma intenção prévia de fazer um disco político ou romântico, tudo foi acontecendo normalmente." Disco lançado, Fagner
fica no Ceará em outubro, envolvidíssimo com as eleições,
já que ele sempre se meteu na política de seu Estado (e pouco
na nacional). Em novembro, volta ao Rio para gravar o DVD desse disco.
Para o show ele quer chamar a Bibi Ferreira para dirigir, "pois ela é
a melhor pessoa para destacar a poesia dessas músicas".
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