| Os encontros singulares
na vida e na obra
de Fernando Sabino por Ana Rachel F. C. Dantas, abril de 2004. E dançam
na convergência
de um encontro combinado sem que nunca tenha sido acordado para tal Aníbal Beça Encontros e reencontros permeiam a vida de Fernando Sabino: as reuniões com Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes de Campos, o seu clássico O Encontro Marcado, os embates amorosos e sociais e, o mais latente, a tentativa de encontrar-se menino, o que a precocidade não permitiu. Sabino acredita veemente em coincidências e talvez essa seja sua premissa básica. Entre os esbarrões, o que nunca chegou a se repetir foi entre Arnaldo Bloch e o próprio Sabino. Este último evitou o jornalista da mesma forma que se isola do resto da sociedade: com a famosa secretária eletrônica. O que não passa de uma tentativa (silenciosa) para que o livro Fernando Sabino: O Reencontro não fosse escrito, o que não adiantou. O livro possui uma característica saudosa nas produções atuais: parece ter sido feito em um só fôlego. E no fôlego seguinte dá-se a leitura do mesmo. O perfil tem 13 capítulos e o primeiro, o oitavo e o último são homônimos: encontro. Todos os outros começam com a letra e. Gracejo com a supertição de Sabino ou recurso estilístico não se sabe, mas percebe-se que o primeiro atende aos questionamentos básicos do leitor, como uma espécie de lead, mas de uma forma literária.
Encontro, o oitavo capítulo, adentra nas produções do escritor e, com um esmero quase que imperceptível, fala das comparações sofridas entre as obras de Sabino. Este, estigmatizado por Encontro Marcado, sofre preconceitos por ter adotado a crônica como seu gênero predileto, aguçando a ira dos críticos que a taxam de literatice. Arnaldo abre a visão ao mostrar que livros como Encontro Marcado e A Marca, apesar de perfeitos ao extremo e, em especial, esta última, são sentenças vítimas da ganância estética de Fernando (como relatou Mário de Andrade em uma de suas cartas ao autor - e é porque ele não viveu o suficiente para ler Encontro Marcado...). Assim, Arnaldo Mostra que as crônicas de Fernando são constituídas de humor, linguagem acessível e, sim, uma ótima literatura. A Inglesa Deslumbrada provoca gargalhadas e reflexão sobre a grande simbiose entre a boa escrita e a comicidade.
Todos os outros capítulos permeiam o ciclo social do escritor. O sentimento confuso entre Clarice, correspondências com Mário de Andrade, sua relação atormentada com a política, seus feitos amorosos e sua relação peculiar com os filhos. Tudo ao redor de Sabino gera literatura. Talvez como válvula de escape ou apenas como inspiração, Encontro Marcado (principalmente) é a essência do autor. A falta que ela me faz sofreu cortes do escritor após o fim do relacionamento de 19 anos com a terceira mulher, Lygia Marina, a única a entrar em maiores detalhes sobre o autor. Em todas as outras crônicas percebe-se lastros de Fernando. Quem não leu Encontro Marcado se propõe a fazê-lo após a leitura do perfil feito por Arnaldo Bloch. Este último mostra todo o caminho literário percorrido por Sabino, o que pede leitores exigentes para se alcançar as flexuosidades do autor, estas que espantam os desavisados. Encanto, escape, escolha, encargo, estância, expurgos e entorno, os outros capítulos também são agraciados com enxertos de cartas e depoimentos do conhecidos escritor, o que tira a grande responsabilidade de Arnaldo Bloch, já que Sabino, avesso a jornalistas, entrevistas e qualquer outro contato social após o desapontamento com Zélia, uma paixão, esquivou-se do livro - nem chegou a ler, como o mesmo diz, mas a ex-mulher duvida. Arnaldo Bloch fez de um simples e singular encontro em uma livraria de Ipanema uma mistura de ficção, memorialismo, análise superficial psicológica e uma reportagem, deixando sua marca mais que individual no livro Fernando Sabino: o Reencontro. Características essas presentes nas intralinhas do texto e formadas ao longo de sua carreira. O jornalista Arnaldo Bloch é
formado pelo ECO, da UFRJ, iniciou sua carreira na revista Manchete,
onde foi repórter e redator no final dos anos 80. Foi também
correspondente e representante da revista em Paris no início da
década seguinte. Em 1993, entrou para o jornal O Globo, onde
foi editor dos suplementos Boa Chance e do Segundo Caderno,
e chefe de redação da sucursal paulista. Atualmente é
editor-executivo de suplementos de cultura. Enveredou-se na literatura
anteriormente lançançando os romances Amanhã a
loucura (Nova Fronteira, 1998) e Talk-show (Companhia das Letras,
2000).
Ana Rachel é colaboradora da revista Consciência.Net e estudante de jornalismo..[+]Morre Fernando Sabino Texto da Record editora que publicou boa parte de sua obra 11 de outubro, 2004.
Fernando Sabino A 12 de outubro de 1923, nasce Fernando Tavares Sabino em Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais. Faz o curso primário no Grupo Escolar Afonso Pena, e o secundário no Ginásio Mineiro, em Belo Horizonte. Aos 13 anos, escreve seu primeiro trabalho literário: uma história policial logo publicada na revista Argus, editada pela polícia mineira. A partir daí, passa a escrever crônicas sobre rádio, enquanto inicia estreita convivência com Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos. Entra para a faculdade de Direito em 1941, mesmo ano em que publica seu primeiro livro, Os grilos não cantam mais, elogiado por Mário de Andrade numa carta que daria início a pródiga correspondência entre ambos. Em 1944, muda-se para o Rio. Dois anos depois, ao completar o curso universitário, vai morar em Nova York como correspondente do jornal Diário Carioca e assistente no Consulado Geral do Brasil, o que lhe vale a iniciação nos autores de língua inglesa. Curiosamente, é na metrópole americana que começa a escrever O grande mentecapto, obra que abandona para retomar mais de 30 anos depois. Em 1952, com o lançamento de A vida real, Sabino exercita-se em novas experiências literárias. Seu primeiro romance, O encontro marcado, é escrito quatro anos depois. Durante o ano de 1959, trabalha como correspondente na Europa de grandes jornais brasileiros, como o Jornal do Brasil e da revista Manchete. Um ano depois, é enviado a Cuba para realizar reportagens para diversos veículos de comunicação do Rio, Minas Gerais, Bahia e Recife. Os anos 60 se caracterizam como um dos períodos mais férteis na carreira do escritor mineiro. São desta época livros como O homem nu, A mulher do vizinho (Prêmio Fernando Chinaglia do Pen Club do Brasil) e A companheira de viagem. De 1964 a 1966, o escritor vive em Londres como correspondente do Jornal do Brasil. Em 1972, passa a dedicar-se também ao cinema ao lado de David Neves, com quem realiza uma série de minidocumentários sobre Hollywood para a TV Globo. Funda a Bem-te-vi filmes, produzindo curtas-metragens sobre feiras internacionais em Assunção, Teerã, México, Argel e Hanôver. Concilia as funções de produtor e diretor numa série de documentários sobre escritores brasileiros contemporâneos. As reminiscências de sua infância, Sabino as registra em O menino no espelho, obra de 1982. Seis anos mais tarde, o autor voltaria à autobiografia com O tabuleiro de damas. O livro De cabeça para baixo, em que relata suas experiências em incontáveis viagens, é lançado em 1989 e reeditado com atualizações e acréscimos sete anos depois. Tem, em seu currículo, traduções de Flaubert, Hemingway, Twain, Tolstoi e Maurois, entre outros, além de prêmios importantes, com destaque para o Jabuti de 1979 na categoria romance, com O grande mentecapto. Em 1999, ganhou da Academia Brasileira de Letras o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra. Publicou ainda Livro aberto vencedor do Jabuti 2002 na categoria Contos e Crônicas e Cartas perto do coração em 2001, Cartas na mesa, em 2002, Cartas a um jovem escritor e suas respostas em 2003, e Os movimentos simulados em 2004. Fernando Sabino morreu no Rio
de Janeiro no dia 11 de outubro de 2004, às vésperas de completar
81 anos, em sua casa, em Ipanema no Rio de Janeiro, ao lado de familiares
e amigos, depois de uma luta de dois anos contra o câncer.
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