Lei de ferro
Verissimo, O Globo
15 de fevereiro, 2004


Uma frase que certamente não ouviremos mais — junto com “Madame, sua liteira chegou” e “Quem é o center-forward do scratch?” — é “Trabalhadores do mundo, uni-vos”. Os trabalhadores do mundo sofrem com a grande perversidade da globalização, que abriu as fronteiras nacionais para empregadores atrás de mão-de-obra barata e desregularizada mas não para eles. Trabalhadores do mundo rico são prisioneiros das suas vantagens, ganhando tanto que não podem competir com os trabalhadores do mundo pobre, que não podem ser solidários com as suas reivindicações de tarifas altas para proteger seus empregos pois perderiam os seus. Nenhuma solidariedade é possível num mundo em que o capital vai atrás do lucro onde quer e o único internacionalismo permitido ao trabalho é esse tráfego tétrico de empregos exportados cruzando com desemprego importado.

Economistas neoclássicos dizem que o exercício continuado do livre-comércio dará razão ao clássico David Ricardo, que no século XVIII teorizou que estados nacionais explorando suas respectivas vantagens em recursos naturais, capacidade industrial e mão-de-obra acabariam se complementando e todos ganhariam com isto, inclusive os trabalhadores, no melhor de todos os modelos econômicos possíveis. Mas num recente artigo para o “Herald Tribune”, William Pfaff lembrou que o Ricardão tinha outra teoria, que chamava de “a lei férrea dos salários”. Para Ricardo, mesmo no melhor dos mundos teóricos, os salários tenderiam a se estabilizar ao nível da subexistência mínima, já que o trabalho é um recurso universalmente disponível e infinitamente substituível.

A organização do trabalho a partir do século XIX e o crescimento dos sindicatos pareciam desmentir o fatalismo de Ricardo, pois os trabalhadores aos poucos deixaram de ser o lado indefeso do modelo ideal. A legislação social, em maior ou menor grau, nos países industrializados — ou em países como o Brasil, em que a legislação precedeu a industrialização — inviabilizava a teoria de Ricardo, pelo menos em teoria, e retirava as condições para a confirmação da sua lei férrea. Segundo Pfaff, a globalização está restaurando estas condições. O trabalho organizado perde a sua força até em países como a França e a Alemanha, onde sindicatos e movimentos sociais sempre tiveram grande participação política, e a receita para “responsabilidade” econômica aqui no quintal passa pela flexibilização de leis trabalhistas e outros eufemismos para roubar do trabalho o seu poder de barganha. Trabalhadores do mundo inteiro, hoje incapazes de se unirem, só têm a perder uns duzentos anos de luta, mais ou menos. Para Pfaff, o pensamento de David Ricardo estava tristemente certo. Só foi um pouco prematuro.


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