Fogos de artifício
Verissimo, O Globo
26 de fevereiro, 2004


O amor, segundo a letra da velha valsa, é um holocausto de palpitações. O Brasil está vivendo um holocausto de hipocrisias.

Uma hipocrisia explode de dentro da outra, como nos fogos de artifício. Difícil saber qual a maior, ou a mais barulhenta.

A cena patética de quem viria a ser um dos homens mais importantes da República — afinal, o braço direito do braço direito do governo — oferecendo uma lei da jogatina para um empresário do jogo redigir como lhe conviesse, em troca de dinheiro para campanhas eleitorais e um porcentinho para ele, detonou a conflagração em cascata. De dentro da hipocrisia dos que passaram oito anos impedindo qualquer investigação de suspeita de escândalo no governo anterior saltou a hipocrisia do PT, que passou oito anos cobrando CPIs e agora não quer. Para outro lado saltou a hipocrisia dos que se declaram chocados — chocados! — com a cena do molha-mão explícito, como se ela não fosse uma representação barata de uma rotina, o dinheiro comprando favores da política, antiga como o dinheiro e a política. Cachoeira e Valdomiro só faziam a versão crua do que em outras esferas é feito com mais fineza e disfarces. 

Como pano de fundo disto tudo, como o céu profundo atrás dos fogos, está a hipocrisia institucionalizada de um país em que o jogo é proibido e é onde mais se joga, e das maneiras mais variadas, em todo o mundo. E a da falta de uma legislação sobre financiamento de campanhas. Que pode vir, por ironia, junto com uma lei para regular os bingos. 

E por trás destas está a hipocrisia maior de todas essas palpitações morais sendo usadas para desestabilizar um governo que já tinha renunciado a tudo que o tornava impalatável para os donos do poder real — da pretensão a outra política econômica até a sua autodefinição como “esquerda” — e ainda assim precisa pagar pelo acinte de ter sido eleito. Já tinham exigido a história e a coerência do PT para ele poder fingir que governa. Por que poupar a ética? 

Ninguém ainda se preocupou muito em saber de onde vieram as tristes fitas do Valdomiro, e por que apareceram agora. Mas esta hipocrisia, em comparação com as megahipocrisias de artifício, soa como um tiro de espoleta.


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