Resistência
antiimperialista no Oriente Médio
A poesia palestina
de resistência; O cantar dos que não se rendem. Rosana Bond,
fevereiro de 2004
Foi nas décadas
de 1950 e 1960 que surgiu o movimento da poesia nacional palestina. Adquiriu
força e vitalidade tais que em muitos momentos representou, e ainda
representa, um brado de combate e esperança para os palestinos que
vivem sob a ocupação de Israel ou no exílio. Apesar
da forte repressão à arte popular – “A democracia israelense
não suporta que os palestinos cantem”, disse uma vez o poeta Tawfic
Zayyad – a poesia daquele povo árabe não é “marginal”.
Como disse o peruano Julio Carmona, “marginal é a poesia que a estética
dominante pontifica ou institucionaliza; ao se tomar o povo como pedra
de toque (e sempre o povo tem a última palavra em tudo) a única
poesia que não se marginaliza é aquela que não se
afasta de sua fonte, aquela que vinda do povo, a ele retorna.”
O poema é, de longe,
o mais popular gênero da literatura palestina. Isto pode ser em parte
atribuído à forte tradição oral da sua cultura.
Houve, desde o início, uma vontade de simplicidade na poesia de
resistência. Os artifícios de linguagem em favor da estética
foram postos de lado. O poeta Mahmud Darwish expressou claramente isso
num de seus primeiros versos:“Se os mais humildes não nos compreendem
/ será melhor jogar fora os poemas / e ficarmos calados. / O poeta
diz: / se meus versos são bons para meus amigos / e enfurecem os
meus inimigos / então é que sou mesmo poeta / e devo continuar
cantando.”
Fontes: Poesia Palestina
da Resistência , edição OLP/Brasil, 1986 e Beleza Cruel
(prólogo de Julio Carmona), edição Lira Popular, Peru,
1982.
Não iremos embora
Tawfic Zayyad*
Aqui
Sobre vossos peitos
Persistimos
Como uma muralha
Em vossas goelas
Como cacos de vidro
Imperturbáveis
E em vossos olhos
Como uma tempestade de fogo
Aqui
Sobre vossos peitos
Persistimos
Como uma muralha
Em lavar os pratos em vossas
casas
Em encher os copos dos senhores
Em esfregar os ladrilhos
das cozinhas pretas
Para arrancar
A comida de nossos filhos
De vossas presas azuis
Aqui sobre vossos peitos
Persistimos
Como uma muralha
Famintos
Nus
Provocadores
Declamando poemas
Somos os guardiões
da sombra
Das laranjeiras e das oliveiras
Semeamos as idéias
como o fermento na massa
Nossos nervos são
de gelo
Mas nossos corações
vomitam fogo
Quando tivermos sede
Espremeremos as pedras
E comeremos terra
Quando estivermos famintos
Mas não iremos embora
E não seremos avarentos
com nosso sangue
Aqui
Temos um passado
E um presente
Aqui
Está nosso futuro
*Tawfic Zayyad, palestino
de Nazaré, é considerado um pioneiro da poesia de resistência.
A maior parte de sua obra foi escrita na prisão.
Discurso no mercado do desemprego
Samih Al-Qassim*
Talvez perca — se desejares
— minha subsistência
Talvez venda minhas roupas
e meu colchão
Talvez trabalhe na pedreira...
como carregador... ou varredor
Talvez procure grãos
no esterco
Talvez fique nu e faminto
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última
pulsação de minhas veias
Resistirei
Talvez me despojes da última
polegada da minha terra
Talvez aprisiones minha
juventude
Talvez me roubes a herança
de meus antepassados
Móveis... utensílios
e jarras
Talvez queimes meus poemas
e meus livros
Talvez atires meu corpo
aos cães
Talvez levantes espantos
de terror sobre nossa aldeia
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última
pulsação de minhas veias
Resistirei
Talvez apagues todas as
luzes de minha noite
Talvez me prives da ternura
de minha mãe
Talvez falsifiques minha
história
Talvez ponhas máscaras
para enganar meus amigos
Talvez levantes muralhas
e muralhas ao meu redor
Talvez me crucifiques um
dia diante de espetáculos indignos
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última
pulsação de minhas veias
Resistirei
Ó inimigo do sol
O porto transborda de beleza...
e de signos
Botes e alegrias
Clamores e manifestações
Os cantos patrióticos
arrebentam as gargantas
E no horizonte... há
velas
Que desafiam o vento...
a tempestade e franqueiam os obstáculos
É o regresso de Ulisses
Do mar das privações
O regresso do sol... de
meu povo exilado
E para seus olhos
Ó inimigo do sol
Juro que não me venderei
E até a última
pulsação de minhas veias
Resistirei
Resistirei
Resistirei
*Samih Al-Qassim nasceu
em Zarqá, no seio de uma família drusa. Formado professor,
depois da publicação de seus primeiros poemas foi proibido
pelos israelenses de exercer a profissão.
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