Paulo César Pinheiro:
O
Lamento do Samba
Bruno Ribeiro [bruno@cpopular.com.br]
Avesso à tietagem da mídia, Pinheiro é do tipo de artista que pode se dar o luxo de caminhar pelas ruas sem ser notado. E talvez seja o anonimato o principal combustível para a poesia desse “célebre desconhecido”, que se auto-define como um homem comum, das esquinas e dos bares. Em seu álbum de estréia pelo selo Quelé (parceria da Biscoito Fino com Acari Records), o poeta carioca, aos 53 anos, mostra que ainda é possível fazer belos sambas de amor, de solidão e de protesto sem cair no senso comum. O Lamento do Samba, recém-lançado, rendeu-lhe o Prêmio Shell em dezembro de 2003. É o primeiro CD de sua carreira a trazer composições inéditas e sem parcerias – realçando a faceta melódica de um compositor tido até então somente como exímio letrista. Em sua extensa carreira de quase 40 anos – sua estréia se deu aos 16, quando compôs Viagem, ao lado de João de Aquino –, acumulou sete álbuns que levam seu nome na capa, mas em todos ele aparece acompanhado por alguns de seus inúmeros parceiros. Dentre os parceiros destacam-se Pixinguinha, Baden Powell, Tom Jobim, Edu Lobo, Dori Caymmi, Sivuca, Radamés Gnatalli, Eduardo Gudin, João Nogueira, Mauro Duarte, Maurício Tapajós, Guinga, Raphael Rabello, Fátima Guedes, Sueli Costa, Joyce e, mais recentemente, Moacyr Luz e Lenine. Suas canções foram consagradas por divas como Elizeth Cardoso, Elis Regina e Clara Nunes, com quem foi casado. Muita gente provavelmente assovia canções de Paulo César Pinheiro pelas ruas sem saber que ele é o autor. Isso porque boa parte de suas composições está definiti-vamente gravada no imaginário musical do povo brasileiro. Bastaria citar Canto das três raças, dele com Mauro Duarte, como exemplo de sua grandiosidade. Mas Pinheiro é o autor também de Lapinha e Refém da Solidão, ambas com Baden; Matita-Perê, com Jobim; Poder da Criação e As Forças da Natureza, com João Nogueira. Um clássico popular, sem tirar nem pôr. As composições de O Lamento do Samba acompanham o nível de tudo o que Pinheiro fez até hoje. O samba-aviso Estrela Partida, ainda que se refira ao fim de um romance, parece falar também de decepções políticas: (água que vira vinho só traz loucura/ e uma estre-la partida é separação/ quebrada a jura/ o amor não dura/ e amor ne-nhum vai pedir perdão). A nostálgica Nomes de Favela, recorda um tempo em que Morro dos Prazeres e Cidade de Deus eram nomes que faziam sentido em meio à pobreza que ainda não era refém do tráfico e do crime organizado: (ou lá na favela a vida muda/ ou todos os nomes vão mudar). Em Lamento do Samba, uma obra-prima que batiza o trabalho, o poeta faz a exaltação da tristeza e do senti-mento: (quem não sabe a ciência do samba/ vai fazer o que pede o momento/ o segredo da força do samba/ é a vivência do seu funda-mento/ o que faz ser eterno um bom samba/ é a beleza que tem seu lamento). Não espere, pois, que Paulo César cante bem. Seria pedir a perfeição. O amigo e músico Maurício Carrilho escreveu certa vez que Pinheiro era o filho de Nelson Cavaquinho, tamanha a similaridade das vozes roucas e anticonvencionais. Ao ouvir o disco, atente à mensagem contida na filosofia do poeta. E, sobretudo, à importância do registro sonoro deste documento. Não ouça Paulo
César Pinheiro como se estivesse ouvindo um cantor qualquer, des-ses
que cantam nas rádios e nos programas de televisão; ouça-o
como se estivesse diante de um monumento nacional. Sua voz arranhada, de
nascença e cigarro, é apenas um detalhe menor num disco que
vem recordar o Brasil da importância do compositor que ele é.
O
Lamento do Samba deveria estar tocando na casa de toda família
brasileira.
Entrevista:
Paulo César Pinheiro
Lançando seu quarto livro, “Clave de sal”, Paulo César Pinheiro, presta uma homenagem ao mar e a todos aqueles em que se inspirou, em especial a Dorival Caymmi e Jorge Amado, além de seu avô, um profissional da pesca no mar. Paulo César Pinheiro, compositor de cinco gerações, temperado na luta contra a censura do gerenciamento militar e a atual – bem mais sofisticada e que impede a veiculação da música brasileira autêntica –, conta um pouco da sua trajetória honrosa, que inclui mais de 1.500 músicas compostas, 900 das quais gravadas, de literatura e arte voltadas para o povo. AND - Você é
considerado um dos letristas mais avançados do Brasil. Quando começou
a compor?
AND - E também
quase não lia?
Quando eu voltei das férias, já queria ler, pegar tudo que via. Associei-me a uma biblioteca pública, entre o Largo da Carioca e a Cinelândia e, como morava em São Cristóvão, saía de casa cedo, pegava dois livros na biblioteca e lia os dois no mesmo dia. Na manhã seguinte, fazia o mesmo. E virei um leitor voraz. Não tinha nenhum conhecimento em literatura. Lia os filósofos gregos, os romances brasileiros — os regionais, principalmente. Virei um bom aluno e a música veio junto, também sem explicação. AND - E quando a música
virou profissão?
O João foi o meu primeiro parceiro, o Baden veio logo em seguida. Houve um batizado da sobrinha dele, em Olaria e o João me levou à festa para conhecê-lo. Foi a primeira noite que eu passei fora de casa. O Baden tocou naquela noite. A irmã dele pediu que cantássemos para ele. Nós cantamos e ele adorou. A partir daí ele passou a me procurar e nos tornamos amigos. Ele me buscava em casa e me levava para as noites. Meu pai achava que música era coisa de vagabundo; só me deixava sair porque era com o Baden Powell. Comecei a conhecer a noite, os compositores, os cantores, sempre ao lado do Baden. Mas nunca tinha imaginado ser parceiro dele. Eu ia fazendo as minhas músicas com o João. Até que, aos 16 anos, o Baden me disse: “Tá na hora da gente compor alguma coisa juntos.” E aquilo me deu um certo susto, porque o Vinicius naquela época era considerado o maior compositor, o maior letrista do Brasil. Ele tinha uns 50 e poucos anos e eu 16, sendo ele, para mim, uma referência, difícil de encarar. Mas o Baden insistiu e eu topei, com um pouco de medo. Ele me deu uma música e eu fiz a letra. De primeira, eu não achei que estivesse legal, embora ele tivesse gostado. Voltei para casa e refiz uma letra definitiva. A parceria embalou, e essa, mais tarde, foi a minha primeira música gravada, um samba chamado Lapinha. Em 1968, concorreu num Festival da Record chamado “A Primeira Bienal do Samba” e ganhou, defendida pela Elis, no auge do seu sucesso. Talvez tenha sido um dos maiores Festivais de todos os tempos. Participaram Pixinguinha, Nelson Cavaquinho, Cartola, João da Baiana, etc., abrigando gente da velhíssima guarda e os que estavam começando: o Chico Buarque, o Billy Blanco, o Elton Medeiros, eu, o Sidney Miller... E só tinha música boa. Mas só tinha craque. E eu era completamente desconhecido, além de ser o caçula. Os festivais tomavam o horário nobre da televisão brasileira: era a “novela das oito” da Globo de hoje. Os cantores da época passaram a me procurar, pedindo música para gravar. Daí em diante todo mundo gravou meus trabalhos. Todo ano a Elis gravava uma música minha. Além dela, a Elizeth Cardoso, o MPB-4, Nana Caymmi, etc. AND - Como era fazer música
na época do gerenciamento militar?
A partir do momento em que comecei a gravar, já fui tendo problemas com a censura. Tive muita música censurada, discutia com o censor; um suplício porque eram muito ignorantes. Tinha uma música, também de 68, Sagarana, cuja letra eu fiz em homenagem ao Guimarães Rosa, um dos meus escritores prediletos, a ponto de chegar a dominar sua linguagem e a escrever igual a ele se eu quisesse. Fiz essa composição assim, como uma letra de música semelhante à sua literatura. Ela foi muito comentada. Partia de uma idéia inusitada, diferente, original. A censura alegou que ela havia sido escrita em linguagem cifrada, de código, e a canção foi vetada. Fui discutir na censura com um livro do Guimarães Rosa debaixo do braço. E disse para o censor: “O nome dessa música é Sagarana, por causa desse livro”. Mas era muito difícil conversar com esses caras. Outra minha, Cordilheiras, ficou cinco anos presa numa gaveta de censura. Eu acabava virando uma bola de ping-pong naquele prédio da polícia federal, em Brasília, de sala em sala. Quanto mais argumentava, eles, não tendo saída para os nossos contra-argumentos, mandavam-nos para outro censor. No final, caíamos no primeiro, de novo. Era um inferno, tanto a censura federal, quanto a local, na esquina da Senador Dantas com a Álvaro Alvim. Nós escrevíamos por metáforas, fazíamos o que era possível para que a música pudesse passar. AND - Algumas músicas
claramente contra o regime passavam, outras, que não tinham esse
teor, eram vetadas. Por que isso?
Fui contratado pela Odeon e fiz um disco em 72. Comecei a entender o funcionamento das gravadoras, e via como elas mandavam as músicas para a censura. Num determinado momento, a censura nem aceitava mais a letra escrita, queriam a gravação, porque na gravação poderia conter uma segunda intenção. Então eu disse: “Olha, eu vou fazer uma malandragem. Vou mandar essa música no meio de um bolo que a Odeon sempre manda.” Era um período em que havia muito material para mandar. Tinha um disco do Agnaldo Timóteo, com aquelas canções derramadas, e outras coisas românticas. Pedi a um funcionário da casa que enfiasse Pesadelo no meio desses discos. Assim, a música veio liberada. E o MPB-4 a gravou. Mesmo depois de liberada, as pessoas tinham medo de gravar, mas o MPB-4 sempre foi valente. Apesar disso, toda vez que eles cantavam Pesadelo, ninguém entendia como tinha passado pela censura. As emissoras de rádio começaram a não tocá-la. AND - E qual a música
desse período que mais te marcou?
AND - Quem mais lhe influenciou
na literatura e na música?
Musicalmente não há nada de político. Influenciei-me pelo que ouvi desde menino e pelo que ouvi depois, adulto, quando fui olhar para história, para evolução musical, ou seja, pelos autores que no começo do século passado moldaram a alma brasileira. Noel, Dorival Caymmi, Ataulfo Alves, Ary Barroso, Pixinguinha, João da Baiana. E os chorões, que são os mais antigos de todos. As pessoas falam muito do samba como se ele fosse o começo da história musical popular do Brasil, e não é. A primeira música gravada com o nome de samba foi Pelo telefone, do Donga. Pela primeira vez saiu no disco Samba de Donga. Isso, no começo do século passado. Os chorões são do começo do século retrasado. Agora mesmo saiu uma série, pela Acari Records, a gravadora da minha esposa em parceria com Maurício Carrilho. O projeto, da Petrobrás, se chama “Os princípios do choro”. Eles abordaram um período que vai de 1840 a 1880, ou seja, nem chegaram no século XX, nem chegaram no Pixinguinha, e fizeram 15 CDs. Trata-se um registro da história do choro, desde o primeiro chorão. Todos os músicos são mestiços, não apenas negros ou brancos. O primeiro de que se tem notícia, um sujeito chamado Henrique Alves Mesquita, era mestiço e foi estudar música na Europa, a mando do imperador. Lá, namorou a mulher de um rei europeu e foi preso. Ficou dois anos preso na Europa — a história brasileira já começa a esculhambar! — e aí voltou. Só que a corte não quis mais saber dele, e ele foi tocar na rua. Nessa coleção de 40 anos, há a história de cada um desses caras. E quando o samba começou a ser feito eram eles que acompanhavam os sambistas, faziam as harmonias e tocavam. AND - Em que a mestiçagem
contribuiu para a evolução da música brasileira?
O Brasil criou uma “raça” nova. E eu sou um produto disso. Minha avó é uma índia de uma tribo guarani de Bracuí, misturada com inglês. Meu pai é caboclo, paraibano, mistura de índio com negro. Meu avô não tinha sobrenome. Tem gente que diz: “Ah, o samba é africano”. Não é, não... O samba é brasileiro, tem o semba africano, que nem é parecido. O africano não tem idéia do que seja samba. O que há no Brasil é um sistema político infeliz que massacra a cultura de seu país. O ministro da Cultura, representando o Brasil como ministro, toca reagge lá fora! Quando ele pensa em fazer alguma coisa com as comunidades empobrecidas usa formas que não são brasileiras. Como um compositor vira ministro da cultura de seu país e canta música de outro país? Porque não canta a dele, que é bem melhor? É só mercado, grana! Ele não está preocupado com a cultura popular. Por que não toca Procissão, Domingo no parque, lá fora? Ele possui um cargo e está representando o país dele, ou seja, não tinha nem que estar cantando e dançando. Mas já que está, dance e cante a coisa de seu país. Não precisa cantar a música do Jimmy Cliff que é da Jamaica, ou então vai ser ministro na Jamaica. Hoje, a música “americana” dominou o Brasil. Quando a música brasileira dos anos 60 em diante tomou conta do mundo, eles se assustaram, por que um país de Terceiro Mundo não pode ter a música mais bonita do mundo. E daí abafaram essas manifestações, já que as gravadoras são todas transnacionais. Começaram, assim, a jogar o lixo deles para cá, que já poluiu mais de duas gerações. AND - E a mais recente
produção brasileira?
A partir do golpe militar para cá houve a interrupção do processo evolutivo musical do Brasil, porque o ‘americano’ tomou conta de tudo. Essa interrupção, que data do final da década de 70, fez com que uma geração depois da minha não conseguisse botar o pescoço para fora. A princípio, surgiram o Pixinguinha, o Dorival, o Noel Rosa, o Nelson Cavaquinho, o Cartola. Posteriormente, o Baden, o Tom, o Carlos Lyra e, logo depois, a minha geração, Dori, Edu Lobo, Francis Hime, Milton Nascimento, um monte. Essa geração seguinte a minha foi achatada, não pôde mais mostrar a cara; foi esmagada pelo massacre estrangeiro. No lugar que hoje poderia estar o samba mais bonito do mundo, está um rap que não é brasileiro — que não é nem música, aliás, é uma forma de verso falado com um ritmo chato embaixo. Aquilo que a gente dizia, a revolução que a gente trazia nas letras da nossa época, tinha como base músicas muito bem feitas. Hoje, a reclamação é feita com a música do país contra o qual se reclama. Ou seja, está tudo errado. AND - E você acredita
que isso possa mudar?
AND - As gravadoras tendem
a desaparecer?
Há oito anos eu via um programa de TV, desses que passam nas tardes de domingo, e o Amado Baptista, aquele cantor de Belém, estava com um disco na mão reclamando que o disco dele não tinha saído ainda e que ele tinha comprado o disco num camelô. A capa do disco, no caso, não estava nem pronta. Se a capa não estava pronta e o disco também não, como é que ele comprou o disco no camelô? Quem pirateou? As gravadoras. Então foram elas que começaram o processo e agora o feitiço virou contra o feiticeiro. Agora, elas estão sendo pirateadas mesmo. Além disso, governos anteriores isentaram as gravadoras do ICMS, para que elas investissem na cultura brasileira, em discos não industriais. Com esse dinheiro, elas, ao invés de investirem na cultura, pagaram o jabá, e foi assim que começou a história. AND - E a que se deve
essa mentalidade?
O imperialista crava a cultura dele no meio da sua, esmaga a sua e a cospe fora. Todos os meninos, hoje, falam inglês. Hoje se escuta muito mais inglês do que português. As gírias, criação do povo e fazem parte da mutação da língua, são em inglês. A ‘globalização’ padronizou a cultura, a arte, o ser humano. O ‘americano’ tomou conta não só do Brasil ou da África, mas de todo mundo. São os xerifes que impõem as suas regras, seus costumes, para o mundo inteiro. Existe uma série de trabalhos que precisam ser feitos no Brasil: a democratização dos meios de comunicação, a regionalização das coisas... O cara do sertão do Cariri, do Ceará, canta Michael Jackson. É aquela história que diz em um samba do Maurício Tapajós com letra do Aldir Blanc: “O Brazil não conhece o Brasil”. Poderia ser diferente, não fossem os péssimos líderes e governantes. AND - Está surgindo
algo no Brasil que te atrai?
AND - E a geração
de músicos que fizeram sucesso nos anos 80?
AND - Afinal, o que é
gênero musical no Brasil?
Estou fazendo o julgamento de seleção do prêmio Tim, o antigo prêmio Sharp. E está lá: categoria MPB, categoria pagode, categoria samba. É uma enxurrada de coisas ruins. E sempre, alguma coisa boa, é de um selo independente. Os melhores instrumentais são de selos independentes, as revelações também. AND - Em que outros projetos
você está envolvido?
Tenho um disco novo. Na primeira semana de dezembro já vai estar nas lojas. Chama-se O lamento do samba, com 14 músicas minhas, sem parceria. Pela primeira vez, duas gravadoras se juntaram para fazer um projeto, e duas gravadoras independentes: a Acari e a Biscoito Fino. Fizeram um selo chamado Quelé, em homenagem a Clementina de Jesus. Eu estou inaugurando esse selo, mas já existem 12 selecionados para dar prosseguimento ao projeto. Roque Ferreira será o segundo. Há também o Pedro Amorim, o Maurício Carrilho, a Amélia Rabello, ou seja, pessoas das novas gerações que vão poder botar o pescoço para fora através do Quelé. Quando se fala em samba, fala-se em Zeca Pagodinho, no Arlindo Cruz, no Sombrinha, mas tem um outro samba aí que ninguém fala porque não está no ar. E as gravadoras geralmente não querem gravar, já que não se trata daquele samba de refrão fácil que se ouve duas vezes e você sai cantando na terceira. É outro samba, um samba que vem mais dessa linha evolutiva que foi interrompida. E o samba do Baden, do Ary Barroso, é um outro samba que ficou para trás. E muitos chamam de “samba de raiz”, que é pejorativo. Por desconhecimento, muitas vezes quando alguém regrava, por exemplo, um samba do Noel Rosa, com uma vestimenta mais do som padronizado, da moda, as pessoas engoliam sem saber que aquilo é de 1930. Mas se gravarem do jeito que a música é, dizem que é velho. É muito mais uma visão de forma. AND - Por que o samba
anda tão alegre ultimamente?
E quando eu digo lamento, eu não digo tristeza, não. O samba de lamento das décadas anteriores, de 50 para trás, eram músicas de carnaval. Agora, olha os temas: “Passava noite vinha dia / o sangue do negro corria, dia a dia / De lamento em lamento / de agonia em agonia / ele pedia o fim da tirania”. Isso é samba de carnaval. Você admite isso num baile de carnaval hoje? Mas isso era samba de carnaval. E a marca do negro, do lamento, está lá. Escutar um samba de enredo de carnaval é como se tivesse escutado todos, é tudo a mesma coisa. Aquele belo samba que o Silas de Oliveira fazia, com cuidado, não se faz mais, porque o importante, fazem crer, não é o povo aprender, refletir, é fazer o povo se “animar”. AND - E sobre as parcerias
com gerações de compositores?
Está para ser feito um disco com a cantora e atriz Soraya Ravelli só de músicas minhas. E um disco para mostrar esse leque por onde eu já passei, só com composições inéditas. Vai pegar desde o Pixinguinha até o Felipe. Um de 24 anos outro de cento e tal. Vai se chamar O arco do tempo, se não me engano. É daí que vem esse meu conhecimento da cultura popular. O Pixinguinha nasceu em 1897. Para chegar a ser parceiro de um Pixinguinha ou de um Radamés Gnatalli você tem que entrar de cabeça, ir lá nos primórdios para conhecer a sua história, e não ficar uma superficialidade. O Prêmio Shell começou com o Pixinguinha e com o Villa-Lobos e eu sou o 23° a ganhar esse prêmio. Estou ganhando pelo conjunto da obra, que são cerca de 900 músicas gravadas, e feitas mais de 1.500. Tenho mais de 600 inéditas, na gaveta, saindo aos poucos. Quando eu morrer vocês terão que me aturar muito tempo! (risos) Mas a arte não tem pressa. A minha contribuição para esse processo é fazer, não é nem falar muito, para que as pessoas entendam da onde é que nós viemos. Está sendo editado
também um livro de uma jornalista, a Conceição Campos,
sobre a minha obra, uma tese de mestrado, de 2001. Já saíram
dois livros a meu respeito, ou seja, já existe uma história.
E, para isso, a dedicação foi total, eu me entreguei completamente.
Leão do Norte
Sou o coração
do folclore nordestino
Pesadelo
Quando o muro separa uma
ponte une
Mordaça
Tudo o que mais nos uniu
separou
É provável
que o tempo faça a ilusão recuar
Mas só se a vida fluir
sem se opor
Música | Artes
|