Direitos do leitor
Luis Fernando Verissimo
O
Globo, 5 de fevereiro, 2004
Já existe um estatuto
para os idosos e um para os torcedores de futebol, deveria haver algo parecido
para leitores de jornais e revistas. Uma lei que os protegesse não
só dos maus-tratos da notícia inexata e do desconforto da
má redação mas também dos sobressaltos do cabeçalho
exagerado e do enfoque chocante e da irritação com opiniões
descabidas. É verdade que, em se tratando de opinião, tudo
é subjetivo, e o que irrita um pode agradar a outro. A clássica
definição do articulista genial é o que concorda cem
por cento com a gente. Mas na falta de um estatuto que defenda o leitor,
talvez se pudesse estender o estatuto dos idosos para incluir manchetes
perturbadoras e artigos inacreditáveis entre as coisas que não
se podem fazer a um velhinho. Todo o editor deveria pensar seriamente no
efeito que terá em idosos fragilizados, antes de planejar uma primeira
capa ou publicar uma determinada opinião. Não têm sido
poucas as vezes, ultimamente, em que pensei em denunciar às autoridades
textos lidos cujo objetivo óbvio era me fazer ter um troço.
Mas é claro que todo
leitor já tem um direito sagrado e inalienável, que nem sempre
sabe que tem e raramente usa. O direito de não ler. Salvo razões
patológicas, como o masoquismo, ou o chamado fascínio do
abismo, não há nada que obrigue você a ler até
o fim o que você sabe que não vai gostar. O pleno exercício
do direito de não ler também serve como antídoto para
qualquer vocação totalitária. É melhor não
ler do que ler tudo e chegar ao fim de uma leitura raivosa pensando em
proibir a opinião que desagradou, ou escrever uma carta anônima
desaforada ou em difamar o autor e negar o seu direito de irritá-lo.
Infelizmente, o que não falta entre leitores são vocações
totalitárias.
O exercício do direito
de não ler também promove o saudável hábito
de pensar: “O que eu estou fazendo lendo isto em vez de estar lendo...”
e em seguida fazer uma lista mental de todos os que você poderia
estar lendo sem perder seu de tempo. Todos os que concordam cem por cento
com a gente.
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