Déficits não importam
Luis Fernando Verissimo, O Globo
25 de janeiro, 2004


Quando Paul O’Neill substituiu Larry Summers — aquele que um dia defendeu a transferência de indústrias poluentes para países subdesenvolvidos porque a poluição afetaria mão-de-obra mais barata e assim o custo social seria menor (e hoje é presidente da Universidade de Harvard) — como secretário do Tesouro americano, especulou-se que ele seria melhor do que seus antecessores recentes, que incluíam, além de Summers, Bob Rubin, cuja missão no cargo era tornar o mundo seguro para a Goldman, Sachs. O’Neill vinha da indústria, não do setor financeiro, e talvez fosse um comandante diferente do esquemão (FMI, Banco Mundial, etc.) que nos governa. Não foi, mas está sendo diferente agora, depois de deixar o cargo.

Deu subsídios para um livro recém publicado sobre os bastidores do governo Bush e, entre outras revelações sobre o estilo do chefe e sua política externa (como a de que a idéia de atacar o Iraque foi defendida na primeira reunião de gabinete do novo governo, dois anos antes de 11/9), conta que o vice-presidente Dick Cheney fez pouco da sua preocupação de manter o equilíbrio orçamentário herdado do governo Clinton, dizendo que o governo Reagan provara que os déficits não importavam. O que não impediu o esquemão de continuar cobrando a responsabilidade fiscal dos seus países-clientes que os americanos desprezavam.

Cheney poderia ter buscado exemplos das vantagens de tratar déficits e dívidas como se não existissem mais longe, muito antes de Reagan. Se não quisesse, por prevenção contra a Velha Europa, invocar a Grécia Antiga, quando os atenienses chamaram Solon para dar um jeito numa sociedade levada à beira do caos pela concentração de renda, que já era brasileira antes de Cristo, e a primeira coisa que o poeta fez foi devolver a terra e a liberdade a quem as tinha perdido para credores que levavam débitos a sério, poderia usar exemplos antigos do seu próprio país, onde o capitalismo, historicamente, não teve do que seu queixar do calote ou da dívida adiada. Toda a expansão americana no século dezenove, quando as ferrovias abriram o vasto território do Oeste para os “robber barons”, a nobreza da falcatrua, construírem suas fortunas e aquela sociedade tão invejada, foi feita de falência fraudulenta em falência fraudulenta. Não pagar as dívidas era uma condição para o desenvolvimento e os Estados Unidos tiveram a sorte de crescer antes que saldar compromissos com bancos, com qualquer sacrifício, virasse um imperativo moral, o que é um fenômeno do século vinte. O crescimento americano, quando eles ainda não tinham se transformado em pregadores da adimplência alheia, foi feito em ciclos alternados de explosão e depressão, quando falências em série e pânico financeiro arruinavam milhares de vidas mas acabavam com dívidas acumuladas e purgavam o sistema, que começava de novo do colapso.

A única novidade de Reagan, citado por Cheney, foi tornar explícita a hipocrisia.


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