A dialética radical do poeta Ivan Junqueira
Leandro Konder, 3 de janeiro, 2004


Nós todos usamos a linguagem, a maior parte do tempo, para pedir ou transmitir informações. Esse uso, mesmo quando é utilitário, não deixa de ser legítimo. Precisamos nos comunicar. Sinto uma necessidade dupla: quero que o outro (o interlocutor) me entenda e quero também entendê-lo.

A linguagem, contudo, não se limita a informar, não se reduz à função de comunicar dados e fatos, conhecimentos constituídos. Há uma dimensão constituinte na atividade humana. Os seres humanos estão constantemente modificando o mundo; eles inventam coisas novas, eles se inventam a si mesmos.

A linguagem deve dar conta não só das necessidades objetivas, mas também das necessidades subjetivas, que expressam nas palavras, nas imagens, nos sentimentos, nas sensações, nas emoções, nas intuições - em tudo que os seres humanos podem sentir diante do novo - a capacidade da humanidade de enriquecer sua linguagem.

Indo um pouco mais fundo: expressam a capacidade da humanidade de se enriquecer através da linguagem.

Dizer melhor alguma coisa, senti-la melhor e pensá-la melhor são desafios interligados. Se o sujeito falha ao enfrentar um deles, ficará prejudicado em seu esforço de enfrentar os outros dois. Quem se exprime mal, em geral, está confuso tanto no plano do pensamento quanto no da sensibilidade.

Esse é um dos pontos que tornam extremamente necessária a discussão da importância da linguagem poética na sociedade contemporânea. As pessoas nem sempre percebem que a poesia não é mero entretenimento, brincadeirinha literária inconseqüente.

A dinâmica de uma sociedade que é posta a girar em torno do mercado (uma dinâmica que tende a transformar tudo em mercadoria, que põe um preço em todas as coisas) acarreta certo desprezo inevitável pelos valores qualitativos, quer dizer, pelos valores que expressam as qualidades - incomensuráveis! - dessa espécie tão criativa que é a dos seres humanos.

Como lidar com essa situação?

Como fazer poesia nesse quadro rudemente pragmático, no qual muitos editores recusam propostas de lançar livros de poesia sob a alegação de que eles ''não vendem''? Se os livros de matemática, de física, de química vendessem muito pouco, seria razoável nos conformarmos com a pobreza da oferta deles nas livrarias, com a explicação dos editores de que não dão lucro?

Tem gente que não se resigna a essa capitulação e se recusa a abandonar a poesia. Por exemplo: Ivan Junqueira.

Ivan Junqueira vem se dedicando desde 1956, como poeta e como crítico, à poesia. Ao longo de quase meio século, ele vem sendo fiel a um combate que tem lhe imposto muita canseira, muito desgaste, mas também lhe tem trazido a imensa alegria de se ver amplamente reconhecido como um poeta de primeiro time, um conhecedor profundo da literatura em versos.

O Ivan agora está tendo uma excelente antologia da sua obra poética, bem organizada e prefaciada por Ricardo Thomé, lançada pela editora Global. É uma ótima ocasião para quem ainda não o leu descobri-lo.

A poesia do Ivan não é de fácil leitura, porém, na medida em que o leitor vai mergulhando nos poemas, vai se espantando com a beleza dos versos, a força das imagens, a sutileza do diálogo implícito com outros poetas, como Camões, Fernando Pessoa, Drummond, João Cabral, T. S. Eliot e Jorge Manrique.

Não sei qual dos poemas eu escolheria como favorito.

Talvez a escolha recaísse sobre O poema, que termina com a indagação perturbadora: ''Que será o poema?/ uma voz que clama?/ uma luz que emana?/ ou a dor que o algema?''.

No momento em que escrevo estas linhas, entretanto, meu entusiasmo é provocado pela segunda das Três meditações na corda lírica. É impressionante a radicalidade dialética desse poema, ao abordar o velho tema filosófico do confronto entre o que quer perdurar e o que se sabe efêmero.

Num dado momento, o poeta diz que o que muda nada espera ''senão ser inimigo do que é''. Fala em esquecer a lei do que é perpétuo e encerra o poema declarando: ''a condição do ser é não ser término/ mas só início de outro ser que o nega./ Agora dorme em paz com tua guerra/ e renuncia para sempre ao credo/ que te faz crer imóvel luz eterna./ - Tudo é processo. E a vida não repete''.
 

Leandro Konder é filósofo. Publicado no Jornal do Brasil


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