| A obsessão pela autoria
Gustavo Barreto, 8 de janeiro, 2004
Para que uma característica seja, de fato, pertencente à quase totalidade dos seres humanos, deve ser vista como uma verdade absoluta. Mesmo que não seja. Algo que esteja tão bem constituído na mente das pessoas que estas não possam enxergar um milímetro de alternativas. É fato. E ponto final. Uma destas “verdades” falsamente assumidas pela quase totalidade das pessoas é a necessidade da autoria. O livro – na visão de Jorge Luis Borges “o mais espetacular instrumento utilizado pelo homem” – torna-se aqui o exemplo perfeito. Você consegue imaginar alguma editora de grande porte publicando um livro sem autoria? Parece absurda, hoje, a idéia de que as idéias valem por si só. Um livro bem escrito, com frases relevantes e que atiçam a alma, continuará a sê-lo com ou sem assinatura. O fato de se conhecer o nome da pessoa é apenas um elemento cartorial. Também produz alguma limitação no raciocínio, já que alimenta estereótipos de acordo com a profissão ou o passado do autor. Swedenborg
Swedenborg é criador de uma doutrina religiosa extremamente revolucionária e progressista, e deixo aqui a necessária curiosidade sobre tais conceitos para que os leitores se enriqueçam de forma surpreendente. O fato é que Swedenborg passou grande parte de sua vida formulando sua doutrina e conversando com seus próprios personagens. Cria, então, uma nova Igreja. Aqui, a parte mais interessante para nosso tema: qual a estratégia de Swedenborg? “Não faz pregações”, diz Borges, “publica livros, anonimamente, escritos em sóbrio e árido latim. E difunde tais livros. Desse modo decorrem trinta anos da vida de Swedenborg.” Tora
Certa vez perguntaram a Bernard Shaw se ele acreditava que o Espírito Santo havia escrito a Bíblia. Ele respondeu: “Todo livro que vale a pena ser lido foi escrito pelo Espírito.” (Borges, 1979, p.16) Isso nos remete ao livro sem autor. Ou este grande livro que é o mundo, cujos autores somos todos nós que aqui estamos. Michel Foucault também aborda o tema. Argumenta que nos domínios em que a atribuição a um autor é de regra – literatura, jornalismo, filosofia, ciência etc. – nem sempre se observa o mesmo papel. Em textos científicos, por exemplo, a atribuição a um autor era, na Idade Média, indispensável, pois era um indicador de verdade. Desde o séc. XVII, diz Foucault, o autor só funciona para dar um nome a um teorema, uma síndrome ou o que for. Em contrapartida, lembra que a partir da mesma época, o autor não cessou de se reforçar em relação ao discurso literário: “todas as narrativas, todos os poemas, todos os dramas ou comédias que se deixava circular na Idade Média no anonimato ao menos relativo, eis que, agora, se lhes pergunta (e exigem que respondam) de onde vêm, quem os escreveu.” (Foucault, 1970, p.28) Finaliza com um trecho notável e extremamente atual: “Pede-se que o autor preste contas da unidade do texto posta sob seu nome; pede-se lhe que revele, ou ao menos sustente, o sentido oculto que os atravessa; pede-se que os articule com sua vida pessoal e suas experiências de vida.” Aprisionados por esta obrigação estamos todos nós. Como jornalista, tenho alguma consciência de que a mim serão impostas a autoria, cartorial ou não, e a rotulação com um ou dois títulos, que me colocarão no meu devido lugar. Imortalidade cósmica
É o que ele chama de imortalidade cósmica: “Cada vez que alguém ama um inimigo, surge a imortalidade de Cristo”, diz Borges. “Cada vez que repetimos um verso de Dante ou de Shakespeare, somos, de algum modo, aquele instante em que Shakespeare ou Dante criaram esse verso.” (p.30) Essas afirmações poderiam vir acompanhadas do relato de alguns historiadores que afirmam serem as idéias de muitos pensadores de origem duvidosa. Acredita-se, por exemplo, que a maior parte das idéias de Leonardo Da Vinci foram tiradas de sua coluna 'Mande-me suas idéias', no jornal Florence Herald. Shakespeare descontextualizado de sua época também seria tachado de plagiador. Portanto, são os novos autores – nós, que estamos vivos – que levaremos ao mundo tais idéias. Gabinete mágico
Imaginemos estar em uma biblioteca. Como fala Borges, numa espécie de gabinete mágico. “Nele se encontram (...) os melhores espíritos da humanidade, mas que esperam nossa palavra para sair de sua mudez. Temos de abrir o livro; aí, eles despertam.” Mortos, prontos para serem ressuscitados. No entanto, nossa sociedade vive de espetáculo e fama – o que certamente não sobrevive sem autoria. Já tive alguns problemas com autoria. Creio que muitas de minhas idéias são de pessoas que conversaram comigo, cujas idéias passaram a fazer parte de meu inconsciente, para só depois virem à tona. Às vezes, me lembro do autor. Na maior parte das vezes não. Em nossa triste e pobre urbanidade amarga e concreta, isso constitui plágio, passível algumas vezes de processo penal. Abra-se um parêntese para uma situação irônica, já vivida por mim: ocorreu certa vez de me lembrar o autor, porém este não se lembrava de sua própria idéia. Borges contra-ataca: “Conheço de cor muitos poemas anglo-saxônicos. O que não sei é o nome dos poetas. Mas que importa isso? Quem importa se, ao repetir poemas do século IX, estou sentindo algo que alguém sentiu naquele século?” (p.31) Continua: “Talvez o mais importante seja o que não recordamos de modo preciso; talvez o mais importante nós o recordemos de uma maneira inconsciente.” Cada um de nós é composto por todas as coisas que estão em nossa volta. Livros, com ou sem autor; Autores, mortos ou vivos; Enfim, qualquer informação que nosso cérebro possa processar, sem ter que levar o caso a um tribunal. Ou, como define Borges, “toda essa maravilhosa parte da história universal, mesmo que não saibamos – e é melhor que não saibamos.”
Opinião
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