O acerto de contas com Paulo Vanzolini
Bruno Ribeiro, jornalista

O poeta carioca Vinícius de Moraes foi o responsável pelo mal-entendido. Um dia, ligeiramente bêbado ou não, brincou, dizendo que São Paulo era "o túmulo do samba". Essa declaração debochada custou à capital paulista a fama de não ter bons músicos, nem bons sambistas, nem boa vida noturna. São Paulo, a quinta maior metrópole do mundo, ficou, até então, reduzida à figura do compositor Adoniran Barbosa.

Gênio indiscutível, Adoniran –pseudônimo adotado pelo radialista João Rubinato, filho de imigrantes italianos– cantava sempre com um forte sotaque italianês (italiano + português), cheio de erros de concordância e carregado de gírias de fina e humorada ironia. Acabou criando o sotaque paulista no samba. É comum ouvirmos que Adoniran Barbosa foi o único grande compositor de São Paulo. E, realmente, alguns dos sambas mais conhecidos de todos os tempos, são de sua autoria: Trem das Onze, Saudosa Maloca e Samba do Arnesto, só para ficar nos mais famosos. Adoniran foi, talvez, o primeiro paulista a popularizar sua obra fora dos limites do Estado.

Há, porém, um São Paulo ainda por ser descoberto. E este São Paulo atende pelo nome de Paulo Vanzolini, compositor, boêmio e cientista (é professor de zoologia na USP). Aos 79 anos, somente agora Vanzolini tem sua obra musical devidamente reconhecida. Conhecido apenas pelo samba-canção "Ronda" (que tornou-se um clássico imortal da música brasileira), Vanzolini é titulado, enfim, como um dos maiores letristas da música brasileira em todos os tempos, ao lado de Chico Buarque, Noel Rosa, Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro.

Com o lançamento do songbook Acerto de Contas com Paulo Vanzolini –que contempla 4 CDs e 52 canções de seu repertório–, a gravadora Biscoito Fino nos presenteia com uma obra referencial. Seu valor histórico é incalculável e só teremos a dimensão de sua importância para a cultura nacional no futuro. Os intérpretes que participam do tributo foram escolhidos pelo próprio compositor: Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Martinho da Vila, Eduardo Gudin, Inezita Barroso, Virgínia Rosa, Paulinho Nogueira (que morreu poucos meses depois da gravação), Márcia, Trovadores Urbanos. Da família Buarque de Hollanda participam todos os cantores: Chico Buarque, Cristina, Miúcha, Piií, Ana de Hollanda. O time dos músicos que tocam nas faixas é composto por "cobras" da madrugada paulistana, músicos acostumados a passar noites em claro ao redor de uma mesa de bar no bairro do Bixiga, do Brás ou da Barrafunda. Vanzolini fez questão de levar para o estúdio seus amigos de boemia: João Macacão, Zé Barbeiro, Izaías do Bandolim, Luizinho 7 Cordas, Ítalo Perón, entre outros. O resultado é verdadeiro, informal e emotivo, deixando o coração da gente escancarado durante a audição.

Cantar o Rio ou a Bahia é fácil. Difícil é tirar poesia de São Paulo, uma cidade enorme, fria e impessoal como qualquer grande cidade do mundo. Paulo Vanzolini é o cronista da vida urbana e o comentarista amargo das dores do espírito. Não esperem, portanto, que mulatas sestrosas e frutas tropicais apareçam em seus sambas. O samba de São Paulo traz bem pouca alegria. Prefere a solidão, as manhãs chuvosas, a melancolia, a desilusão, a traição, o suicídio. Temas embebidos em humor mordaz, com a sobriedade peculiar do povo paulista.

Como cronista social, Vanzolini é inigualável. Significa, para São Paulo, o mesmo que Noel Rosa significou, para o Rio de Janeiro, ao retratar a cidade como ela é. A cidade de Vanzolini não é ensolarada, alegre e festiva, feito o Rio de Noel; a cidade presente em suas letras é uma cidade cinzenta, viciada em poluição, onde chove quase todos os dias, onde mulheres vagam solitárias pelos bares e onde cidadãos se atiram dos prédios, desiludidos com a vida. É a cidade dos crimes passionais que viram manchete de jornal e o poeta é aquilo que os boêmios, depois das quatro horas da manhã, costumam chamar de "a alma das ruas".

Em sua canção "Cravo Branco", a história de um homem que sai de casa "de terno tropical/ camisa creme/ lenço e gravata igual" e que, antes da meia-noite morre com um tiro no peito: "ela lhe deu um cravo/ o outro se ofendeu/ ele olhou o revólver/ dava tempo e não correu/ dobrou os joelhos/ sobrou no chão/ dois olhos redondos/ e o cravo branco na mão/ ai, o pobre/ caído no chão/ de bruços no sangue/ com o cravo branco na mão", é o relato descritivo, cinematográfico, de um dos muitos crimes motivados pelo ciúme que São Paulo registra todos os dias e figurava nas manchetes do Notícias Populares, enquanto o jornal existiu.

O cronista exemplar da cidade também aparece na deliciosa "Praça Clóvis" (praça que nem existe mais). Narra a história de um homem que tem a carteira roubada por um trombadinha, no meio da multidão que perambula pela praça, mas, que, afinal, o ladrão acaba lhe prestando um enorme favor: levar embora, junto com o dinheiro, o retrato da mulher que tanto lhe maltrata e persegue: "Na Praça Clóvis/ minha carteira foi batida/ tinha vinte e cinco cruzeiros e o teu retrato/ vinte e cinco francamente achei barato/ pra me livrar do meu atraso de vida/ eu já devia ter rasgado e não podia/ esse retrato, cujo olhar me maltratava e perseguia/ um dia veio o lanceiro/ naquele aperto da praça/ vinte e cinco, francamente, foi de graça".

Em "Ronda", seu clássico imortal, o olhar sobre a alma feminina da noite: "De noite/ eu rondo a cidade/ a lhe procurar/ sem encontrar/ no meio de olhares, espio/ em todos os bares, você não está/ volto pra casa abatida/ desencantada da vida/ o sonho alegria me dá/ nele você está". O final, trágico, termina com a mulher traída jurando matar o amante quando encontrá-lo nos braços de outra mulher: "E nesse dia, então/ vai dar na primeira edição/ cena de sangue num bar da avenida São João". Essa canção inspirou Caetano Veloso a escrever "Sampa", muitos anos mais tarde. A citação de Veloso "alguma coisa acontece no meu coração/ que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João" é explícita.

O gênio Vanzolini pode ser percebido também em outras obras-primas como "Valsa das três da manhã", "Noites de Vigília", "Raiz", "Tempo e Espaço", "Chorava no meio da Rua", "Samba Erudito", "Boca da Noite", "Volta por Cima", "Boneca", entre outras que, a partir deste lançamento, entram para sempre na memória musical brasileira. É uma pena que os amigos italianos ainda não possam desfrutar devidamente das música e da poesia deste grande brasileiro chamado PauloVanzolini. Mas uma coisa é certa: a Itália, que sempre respeitou e divulgou a cultura brasileira para o mundo, certamente vai ser também o primeiro país, fora do Brasil, a reconhecer a importância do samba paulista.
 

Bruno Ribeiro, é jornalista [brsamba@yahoo.com.br]. Texto de 28 de novembro, 2003.


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