Cupinzeiro: trincheira do samba paulista
O samba na luta pela identidade nacional. Bruno Ribeiro, 24 de novembro, 2003


É domingo. Sob uma lona azul armada num quintal, pessoas de todas as idades se reúnem para ouvir, cantar e dançar samba. Muitas das composições são inéditas, feitas pelos próprios integrantes do grupo. Outras relativamente conhecidas, boicotadas pelas rádios, estariam esquecidas se não fosse a tradição oral, incentivada e desenvolvida neste pequeno terreiro localizado na rua Virgílio Dalbem, no distrito de Barão Geraldo, bairro afastado do Centro de Campinas, interior de São Paulo. Estamos no Núcleo de Sambistas e Compositores do Cupinzeiro, que completou, em junho, seu segundo ano de vida.

A roda de samba, que envolve uma dezena de músicos, outros tantos voluntários e um público de até 200 pessoas, começa a ser feita no sábado. Na cozinha da casa, a compositora Anabela é responsável pelo caldinho de feijão, preparado em dois ou três grandes tachos. O feijão será servido de graça, durante o intervalo, no domingo. Nada ali é aleatório. O feijão, no caso, é também um símbolo de unificação nacional. Um reforçador da identidade que nos une, como o samba.

Para entender o Cupinzeiro é preciso entender a história do samba – gênero matriz de nossa música – e o preconceito que esta cultura sofre até hoje, em seu país de origem, por ser popular e mestiça. O sambista e pesquisador Nei Lopes, em seu livro Sambeabá – O samba que não se aprende na escola (Casa da Palavra, R$ 28), demonstra que não há nada de natural no fato de o samba estar fora da mídia e das grandes gravadoras; nem há nada de ingênuo no fato de seus compositores, com raras exceções, seguirem morrendo no anonimato, em meio às dificuldades financeiras.

Na opinião de Lopes, autor de Senhora Liberdade e outros sambas imortais, o Brasil continua refém de uma estratégia internacional muito bem arquitetada: “Dentro da estratégia de submergir a rica música popular brasileira no grande caldeirão do pop transnacional, a mídia hegemônica procura fazer crer que só essa corrente globalizada detém a primazia da modernidade (o que não é pop é velho e ultrapassado), da abastança (os artistas do pop são ricos, e seu público, potencialmente, também o é) e da beleza (o que não é pop é feio)”. O Cupinzeiro nasceu com os propósitos claros de combater esta mentalidade colonizada, fazendo o que estava ao seu alcance: roda de samba – e não show de samba. Ainda existe esta confusão na cabeça das pessoas.

A história do Cupinzeiro começa no inverno de 2001, quando um grupo de amigos resolve se reunir, religiosamente a cada quinze dias, debaixo de uma mangueira e ao redor de um velho cupinzeiro. O objetivo não era apenas fazer samba, mas levar uma vida menos individualizada. Como explica Edu de Maria, um dos fundadores, “o samba acabou sendo apenas um detalhe de união; o mais importante sempre foi o encontro, a troca de opiniões e a amizade desinteressada, valores que as sociedades urbanas estão perdendo”, explica.

A fundação do núcleo foi oficializada no dia 29 de junho de 2001, dia de Xangô, quando o Cupinzeiro era ainda um pequeno grupo de seis ou sete pessoas. O nome foi escolhido em alusão ao cupinzeiro – hoje extinto – que existia no local dos encontros. Acabou ganhando uma metáfora de resistência. Foi o próprio Nei Lopes quem chamou a atenção do grupo, dizendo que o cupim, assim como o samba, sobrevive em uma cultura subterrânea: ninguém vê o trabalho sendo feito, mas ele é capaz de corroer muitas estruturas.

Assim como um cupinzeiro faz com as construções mais sólidas, o Núcleo vem derrubando por terra muitos preconceitos. Um deles é o de que, hoje em dia, não se pode confiar em mais ninguém. As rodas são feitas na casa dos compositores Edu de Maria e Anabela. Não há segurança na porta, nem qualquer tipo de controle sobre a entrada e saída de pessoas. “A relação de confiança que se estabelece com o próximo é revolucionária”, acredita Anabela. O Cupinzeiro prova também que samba não tem de ser sinônimo de fama e dinheiro. “Samba é a cultura do povo, não uma mercadoria que se compra na prateleira do shopping”, reforça a compositora. Todos ganham a vida com outras atividades. Mesmo quem vive apenas de música, como é o caso de três integrantes, não recebe nada para dedicar o seu tempo ao projeto. “Tudo é idealismo e paixão”, afirma o percussionista Ênio Bernardes.

O Cupinzeiro não é um grupo musical para animar festas, nem um espaço cultural com fins lucrativos; não é uma associação patrocinada por instituições privadas, nem ostenta financiamento do poder público ou universidades. Enfim, é totalmente independente e sobrevive graças ao idealismo. A contribuição de R$ 3, pedida ao final da roda, não é obrigatória e serve apenas para pagar os gastos com o caldo de feijão, a limpeza da casa e o aluguel de mesas e cadeiras. Enfim, trata-se de de um “território livre do samba”, como definiu o compositor paulistano Alfredo Castro. É formado por pessoas de formações distintas, oriundas de diversos bairros de Campinas – do Centro ao DIC. Também não é um reduto exclusivamente universitário. Os estudantes formados em Música são minoria. Entre os integrantes há também aposentados, autônomos e gente que nasceu fazendo samba de ouvido.

Dentre os eventos desenvolvidos pelo Cupinzeiro estão grupos de estudo sobre a história do samba campineiro, pesquisas de campo, participações em atividades do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), presença no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, desfile do bloco carnavalesco e a organização do Ciclo do Samba em Campinas, que já trouxe para a cidade grandes personalidades do samba como Osvaldinho da Cuíca, Raquel Trindade e Wilson Moreira. Tudo com esforço próprio, correndo o risco de tomar prejuízo na bilheteria. “O mais importante é manter a coerência. Samba é integração da comunidade. Jamais vamos aceitar dinheiro de alguém se isto significar a mudança de nossos comprometimentos. Só queremos fazer com que as pessoas ouçam samba em suas casas”, diz Edu de Maria.

Baseado na história de luta do Grêmio Recreativo de Arte Negra Quilombo, fundado por Candeia em meados dos anos 70, o Núcleo de Sambistas e Compositores do Cupinzeiro vem escrevendo, aos poucos, a própria história do samba de Campinas. Se o pioneiro Quilombo, irmão carioca mais velho, resistiu valorosos anos na independência financeira e moral para deixar um legado, o legado de Candeia e de seu Quilombo está redivivo, em Barão Geraldo. Iniciativa genuinamente popular, o Cupinzeiro é um duro golpe na indústria da alienação e uma esperança de liberdade para a cultura nacional. 
 

Bruno Ribeiro é jornalista e compositor do Cupinzeiro [brsamba@yahoo.com.br]


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