| Com o tempo
Verissimo, 9 de novembro, 2003 Do baú. Com o tempo, ou nos transformamos nos nossos pais ou nas pessoas contra as quais nossos pais nos preveniam. *** Dizem que quem não é de esquerda na juventude não tem coração e quem não é de direita na maturidade não tem cabeça. O que sugere que uma consciência social persistente pode ser só tentativa de não mostrar a idade. *** Incendiários na mocidade, bombeiros na velhice... A metáfora comporta várias versões. Por exemplo: confeiteiros na mocidade, nutricionistas na velhice. *** “Ninguém é mais moralista do que uma ex-prostituta” pode ser dito de várias maneiras. Ninguém investe seu dinheiro mais conservadoramente do que um ex-jogador na bolsa. Ninguém é mais ateu do que um ex-fanático religioso. Ou ninguém é mais prostituta do que um ex-moralista. *** Há pessoas que, com o tempo, acrescentam outra. O rosto fica mais carnudo, a cintura se expande, tudo engrossa: incorporam um estranho. Com outras acontece o contrário: perdem um outro inteiro. (Jô Soares depois de fazer dieta: “Perdi um Wilson Grey”.) Deve ser parte do tão falado amor da Natureza ao equilíbrio, nada aumenta aqui que não diminuiu em algum lugar. E há um certo consolo em pensar que a sua barriga pode ser a barriga enjeitada de outro. *** Com o tempo adquire-se a certeza de que nada vale muito a pena. A suprema conquista da idade é poder chamar desânimo de sabedoria. *** O espetáculo das paixões humanas nunca muda, muda é o nosso angulo de visão: o que antes era voyeurismo, hoje é contemplação. *** A grande ursada é que, quando chegar a hora de aproveitarmos toda a experiência que acumulamos com o tempo, não teremos mais a energia. Algo como amontoar tanta coisa no lombo de um burro que ele não consegue se mexer. *** E o pior é esta sensação de que, entre os seus leitores, só 17% saberão o que é “ursada”.
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