| Gente fina
Verissimo, O Globo, 18 de setembro, 2003 A frase mais reveladora do ano — está bem, do mês — foi a do Lula, quando disse que pobre não dá calote. O PT ainda sofre da síndrome do que vão dizer da gente. Ainda precisa mostrar, aos que não acreditavam que o PT iria se comportar como gente grande no governo, que sabe seguir a etiqueta, que é responsável, que, enfim, não age como a elite imagina que agem os pobres. Quem esperava que o PT iria cometer a suprema gafe social, que é não pagar suas contas, estava enganado. O PT no governo vai pagar suas contas até mais rápido do que o credor pedia. Para provar que é gente fina. Pobre não dá calote porque não tem as opções dos ricos para não pagar suas dívidas. Porque vive num universo em que a hierarquia moral é definida pelos credores. E porque se convenceu que dar calote é coisa de pobre, portanto vergonhoso. A escala de valores que diz ao pobre que não dar calote é mais importante do que alimentar um filho, que não dar calote é o que define sua respeitabilidade, é a mesma do mundo submetido à etiqueta do lucro financeiro acima de tudo, esse estranho manual de boas maneiras que nos impuseram. O presidente argentino Kirchner disse ao FMI no governo o que o PT dizia fora, que não pagaria a dívida com a fome do povo. Um atentado às regras do comportamento esperado, equivalente a assoar o nariz numa toalha de linho da Casa Rosada. O FMI apenas achou pitoresco. Lula não se animou a testar o que diriam da gente se fizesse algo parecido. Em todos os outros aspectos, tem sido um presidente anticonvencional como nunca se viu igual. Enfrenta sem medo a tênue linha que separa o simpático do ridículo, ao vestir todos os chapéus e empunhar todos os instrumentos que lhe oferecem, não se deixou constranger pelas formalidades do cargo. Mas boa parte do seu eleitorado gostaria de vê-lo contrariando as regras que contam, desrespeitando as convenções que nos sufocam. Está bem, calote não. Mas ao menos uma má-criação pra valer.
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