Satisfações
Verissimo

Da recepção avisaram que tinha um Carmano para falar com ele. Carmano, Carmano... O nome não lhe era estranho. Queria falar com ele ou com qualquer um do jornal?

- Pediu para falar com o senhor.

- Manda subir.

Estava só ele na redação. Às quintas, sempre ficava até mais tarde para fechar o caderno de cultura que saía nos domingos. Fazia o caderno de cultura quase que sozinho. Editava, diagramava, escrevia resenhas...

Resenhas. Era isso. Comentara um livro desse Carmano semanas antes. Um livro policial. Metera o pau. Na certa o tal de Carmano viera pedir satisfações.

Tarde demais para barrá-lo na recepção. Ele estava subindo. Ele estava no elevador. Talvez já engatilhando a pistola com que se vingaria da crítica.

Ou seria uma navalha? No livro o assassino usava uma navalha.

Mas o Carmano que entrou na redação parecia estar desarmado. Era um homem franzino, camisa fora das calças, mais moço do que ele. Chamou-o de senhor.

- O senhor é o Zardo do caderno de cultura?

- Sou eu.

Ele estendeu a mão.

- Carmano. O senhor escreveu sobre o meu livro na semana passada.

- Ah, certo. Certo. E aí? Tudo bem?

- Eu só queria fazer uma pergunta.

- Faça.

- O senhor...

- Me chame de você.

- Você disse que a cena do crime era inverossímil. O cara sozinho no local de trabalho. Como o criminoso iria saber que o cara estava sozinho, lembra?

- É. Olha. Inverossímil, não. Achei meio forçado.

- O senhor escreveu "inverossímil".

- No sentido de forçado. Improvável. Coincidência demais.

- Era só o assassino investigar a vida do cara para descobrir os seus hábitos, a sua rotina de trabalho. A cena não era inverossímil.

- Mas você não escreveu nada sobre essa investigação. Ficou parecendo que o assassino foi matar o cara contando com a coincidência, contando com a eventualidade de ele estar sozinho. Quer dizer...

- Mas a investigação está subentendida.

- Não. Péra um pouquinho. Você não pode pedir que o leitor subentenda nada. É como pedir que ele faça o seu trabalho por você. O leitor só sabe o que você diz pra ele. Só sabe o que você quer que ele saiba.

- Como é que você sabe?

- Eu sei, meu caro. Estou cansado de ler policial. E sempre me coloco no lugar do leitor comum. E o leitor comum nunca subentende. Entende o que você lhe conta ou não entende nada. Subentender, nunca. Não é a função dele.

- Se for inteligente, subentende. Talvez você não seja um leitor inteligente.

- Bom, se você vai partir para...

- Por exemplo: o que o senhor subentende da minha presença aqui, hoje, a esta hora?

- O quê?

- Não está subentendido que eu pesquisei a sua vida, descobri a sua rotina de trabalho e sabia que às quintas você fica até tarde na redação, e que a esta hora estaria aqui sozinho? Aqui onde eu posso matá-lo sem que ninguém veja, e ninguém descubra até eu estar longe?

- Me matar?

Carmano levou a mão direita às costas. Disse:

- Não está subentendido que eu tenho uma arma na cintura, aqui atrás?

- Que arma?

- Subentenda.

- Navalha?

- Vejo que o senhor leu meu livro com atenção. Não gostou, mas leu até o fim. Outra pergunta. Por que o senhor disse que a identidade do criminoso ficava evidente desde o começo, no livro?

- Porque o criminoso era obviamente o menos provável, o que parecia mais inofensivo, o que ninguém desconfiaria.

- Por que era um insignificante como eu?

- Não. Eu...

- O senhor acha verossímil que eu tenha uma navalha aqui atrás?

- Acho. Quer dizer...

- Pois não é uma navalha.

Carmano começou a movimentar o braço lentamente, para mostrar o que tinha na mão escondida.

Zardo:

- Você vai me matar por causa de uma resenha? Só porque eu...

- Você me ridicularizou. Você me chamou de inocente inútil. Disse que eu tinha muito que aprender sobre livros policiais e que a primeira lição era não fazer outro.

- Mas eu gostei, viu? Eu gostei! Achei um pouco forçado mas...

Carmano mostrou a mão. Ela também não segurava uma pistola. Imitava um pistola, com dois dedos estendidos. Que ele apontou para a testa de Zardo.

- Veja. Uma pistola subentendida.

E fez:

- Pum!

Depois que se recuperou, Zardo ligou para a recepção e deu ordens para nunca mais deixarem entrar alguém para falar com ele, às quintas. Naquele domingo sairia uma resenha dele metendo o pau no trabalho de uma nova poeta. Era só o que faltava, a poeta também ir pedir satisfações.

Talvez agredi-lo com o salto do sapato. Ou coisa pior. Com as poetas, nunca se sabe.
 


Luis Fernando Verissimo, Estado de S. Paulo, março/2003
Literatura | Artes

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