| As Bananas
Verissimo Eram três irmãs, Lia, Lila e Lilian, e foi da Lia, a mais velha e mais mandona, a idéia de formarem um trio. Mas foi de Lila, a do meio e mais engraçada, a idéia de se chamarem As Bananas. Quando começaram a se apresentar, nas festas de família, Lilian, a mais moça, mal sabia andar. Ficava entre as outras duas, que a amparavam. Era a que mais brilhava do trio, pois tentava imitar as irmãs e não conseguia, não acertava os movimentos, errava as letras das músicas, caía no meio do número - um sucesso. Lia era a mais musical e afinada das três, Lila era a palhaça, Lilian a favorita do público. Em todas as festas, na casa, sempre chegava um momento em que as pessoas começavam a pedir "As Bananas! As Bananas!" E as três, depois de fingirem que hesitavam, que não queriam, que não tinham preparado nada, corriam para o quarto para se fantasiar. Todo ano tinha um número novo das Bananas. A carreira das Bananas acabou quando a Lia começou a namorar, pois ela não queria ser ridícula na frente do namorado, que não aprovaria, o que Lila achou ridículo. Lilian sugeriu que o namorado fosse incorporado ao grupo - que, segundo a Lila, passaria a se chamar Três Bananas e Um Babaca - mas Lia nem quis ouvir. O Gerson era um rapaz sério e ela mesmo não tinha mais idade para aquelas palhaçadas. E quando a Lia brigou com o Gerson, que era sério demais, e propôs a volta das Bananas, foi a vez da Lila dizer que não queria mais. Com 15 anos, tinha entrado no que, no futuro, seria chamado misteriosamente, na família, de "aquela fase da Lila", - como em "isso foi antes ou depois daquela fase da Lila?" E quando a Lila saiu da sua fase e ela e a Lia quiseram ressuscitar As Bananas, foi a Lilian que não quis. Estava namorando o Maneco, de quem não se desgrudava por nada no mundo, muito menos para se fantasiar e pagar mico. Nem quando o clamor pela volta das Bananas chegou ao auge numa festa de aniversário - liderado pelo pai e maior fã das três - e o próprio Maneco disse que queria conhecer o famoso trio, a Lilian aceitou. O Maneco se uniu à torcida quando esta começou a gritar "Bananas! Bananas!" mas a Lilian se manteve firme. Ficou grudada no Maneco. Tinha 13 anos e tinha encontrado o amor da sua vida. A Lilian era assim. Também não conseguia jogar boneca velha fora. Apesar dos protestos, As Bananas nunca mais se apresentaram. A Lia estudou Direito, ficou com o escritório do pai quando ele morreu, casou três vezes, chegou a tentar a política, mandona como era, mas desistiu. Seu último marido - que ela apresenta, só para deixá-lo nervoso, mas de brincadeira, como "o meu penúltimo" - é mais moço do que ela mas vivem bem, ele gosta de velejar, ela enjoa no barco, ele é bonito mas burro, ela resolveu voltar para a música e estuda violão quando tem tempo. A Lila fez teatro, fez artes plásticas, casou com um engenheiro que ri de tudo que ela diz e faz, teve dois filhos e é promotora de eventos com uma sócia. Foi ela que ficou com a mãe viúva em casa, a mãe implica com o marido dela ("Sem sal") mas ajuda a cuidar das crianças. E a Lilian casou com o Maneco, o amor da sua vida. - Bate nela? Como, bate nela? - Bate. Eu vi. - Viu o Maneco bater nela? - Vi as marcas. Ela quis disfarçar, depois confessou. O Maneco começou a beber e a bater nela. Lila tinha ido ao escritório da Lia contar. Estava furiosa. Lia, antes de se enfurecer também, se emocionou. Ficou com os olhos cheios d'água. Não se lembrava de ter uma emoção assim desde a última vez que vira o pai na cama do hospital antes de morrer e ele abrira os braços e dissera "Viu no que deu?" - O que, papai? - Tudo. A vida. Nós. Não conseguia imaginar alguém batendo na Lilian. Logo na Lilian. A Lili. A Nenê! Aquilo não ia ficar assim. - Vamos lá - disse. - Onde? - Falar com o seu Maneco. A Lilian ainda tentou defender o Maneco, mas reagiu quando ele disse que a Lia e a Lila não tinham nada a ver com a vida deles, que não se metessem, que dessem o fora da sua casa. - Elas são minhas irmãs, Maneco. - É. Grandes irmãs. Quando é pra ajudar, ninguém aparece. Maneco nunca perdoara a Lia por não ter emprestado o dinheiro para o restaurante, para a criação de coelhos, para nenhum dos seus planos. - Olha aqui, ó Maneco - disse a Lia.- Se bater na minha irmã mais uma vez, uma vez só, você vai ver. - Ver o quê? As três agora estavam lado a lado. A Lilian entre as outras duas, como no número. Quem respondeu foi a Lila. - As Bananas. Você vai finalmente conhecer as Bananas. - Que bananas?! Que bananas?! - Experimente pra ver. O Maneco não se lembrava das Bananas. Mas prometeu que não ia bater mais na mulher. Com a Lilian sozinha ele podia. Mas aquelas três juntas não eram de brincadeira. Mais tarde, as duas tomando chá, a Lia perguntou à Lila se ela era feliz com o marido e a Lila respondeu que não sabia, achava que era. Depois a Lia comentou que talvez não houvesse no mundo homem certo para as Bananas e a Lila suspirou e disse "É, acho que não." Depois as duas ficaram em silêncio, só lembrando. Luis Fernando Verissimo, Estado de S. Paulo, 20 de julho, 2003
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