| Lugar na História
Luis Fernando Verissimo Velha questão: a História é feita por grandes líderes e grandes patifes, ou os heróis e os vilões são só penduricalhos de um processo impessoal, de uma história que aconteceria mesmo sem o seu arbítrio ou predestinação? A História personalizada é mais atraente, claro. Quem não prefere uma narrativa com “personagens fortes” que determinam o seu destino e o dos outros pela sua ação, decisão e caráter? O governante inspirado, o general audaz e o tirano insano têm todos a mesma função: simplificam a História e nos isentam de procurar os seus significados ocultos, o que é sempre aborrecido, além de darem boas histórias. E são politicamente convenientes. Pense em toda a auto-análise e comiseração poupada à civilização cristã pela idéia de que o horror nazista foi fruto de duas patologias passageiras, a de Hitler e a do povo que o apoiou, em vez de dois mil anos de intolerância. Ou menos, se você datar a genealogia do Holocausto das fogueiras da Inquisição. Pense na vantagem de poder pôr a culpa de todo os excessos do totalitarismo soviético num desvio de personalidade do Stalin. Até atribuir o momento atual a um choque de culturas teológicas é uma forma de personalização: seria tudo entre deuses de índoles diferentes. Heróis metafísicos, mas heróis. Como as razões racionais para invadir o Iraque ou não existiam ou são inconfessáveis, sobrou como explicação o caráter lamentável do Saddam. Há sempre um Ogro providencial e seus seguidores fanáticos para justificar a violência de um império. Bush também é uma simplificação conveniente, seja como herói ou como vilão. Sua personalidade é tão irrelevante quanto a de Saddam para a História do momento. Mas é mais fácil e prático pensar que tudo se resumiu mesmo a Caubói do Apocalipse x Carniceiro de Bagdá. A personalização é atraente também porque inclui no processo histórico a possibilidade da escolha moral, a faculdade humana da regeneração. É bom pensar que a preocupação com seu lugar na posteridade pode mudar um líder e que suas reversões podem mudar a História: De Gaulle, contrariando a direita francesa que o colocara no poder justamente para evitar isto, dando a independência aos argelinos; Nixon contrariando toda a sua biografia e iniciando a abertura para a China. Agora, quem sabe, Ariel Sharon e os líderes palestinos decidindo que preferem passar à História como os que trouxeram a paz do que como heróis das suas respectivas intransigências. A personalização também simplifica as expectativas brasileiras. Nossa História estaria em suspenso, só esperando para ver que chapéu, afinal, o Lula vai usar no seu governo. Publicado em O Globo, 9 de julho, 2003
Opinião
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