Interpretando a barba
Por Luis Fernando Verissimo, 15 de maio de 2003, n'O Globo
O branqueamento da barba tornou o radical elegível porque representa a sabedoria ou apenas a resignação que vem com o tempo? Lula é o mesmo, só com uma barba mais confiável, ou mudou junto com a barba, cansou de esperar e concordou em ser ele mesmo o anti-Lula definitivo, o seu próprio antídoto? Não tinha ocorrido à direita brasileira esse modo revolucionário, inédito no mundo, de livrar-se da esquerda: dar-lhe o poder. A direita passou 13 anos tentando evitar o impensável justamente porque não tinha pensado adequadamente a respeito. Ou talvez a protelação da eleição do Lula até que a sua barba ficasse branca é que foi sábia. Um patriciado não mantém suas abotoaduras por tanto tempo na sociedade mais desigual do planeta sendo burro o tempo todo. Só deixaram o Lula entrar no Planalto quando a armadilha não podia mais ser desarmada, ainda mais por um cordato senhor de barbas brancas. Não existe melhor lugar para a esquerda mostrar suas contradições do que no poder, onde nenhuma coerência dogmática sobrevive por muito tempo, e se junto com a esquerda se entredevorando em público os banqueiros continuam felizes, felizes como nunca, o que mais pode pedir a direita? Lula, pinte a barba. Só
para a gente se lembrar como era.
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