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A soma de atos de que é feita cada vida humana

Hoje de manhã, na aula de ginástica, uma imagem veio à minha memória: o dia de 1978 em que, na polícia federal de Buenos Aires, estive frente a frente (não via o seu rosto) com um policial que me fazia a seguinte pergunta: Você está sendo procurado? O guichê escondia o rosto, só ouvia a voz. Respondi: Não, não estou sendo procurado. “Ah, é porque aqui há um pedido de informações ao seu respeito”, disse a voz. “Deve ser um atestado de antecedentes que pedi em São Paulo,” respondi.

Tinha, de fato, pedido tal documento em São Paulo. Durante um tempo que me pareceu eterno, não ouvi nada. Esperei. Ouvi o som de um carimbo e o passaporte que demorara muito mais do que o esperado em ser expedido, apareceu por debaixo do vidro do guichê. Tinham passado muitos dias desde o começo do trâmite, e algo me cheirava mal. Quando fui, depois de várias vezes, me disseram estar na seção de passaportes observados, e me apontaram para uma escada. Eu sabia que essa escada poderia me levar à morte, mas preferi subir. Não voltaria para São Paulo com a dúvida.

Tinha ido morar lá em dezembro de 1977, depois que terminara o serviço militar, e aproveitara a vinda para Argentina de um casal amigo, para voltar e, em Buenos Aires, tirar um passaporte. Hoje de manhã, essa imagem voltava, e não podia deixar de ver meu rosto de então, um jovem de 24 anos, ainda com os traços do treinamento militar. Muitos pensamentos vieram à mente, enquanto fazia ginástica. Pensava na infinita soma de atos de que cada vida humana é resultado.

Não sei o que levou esse policial a me deixar partir, a me deixar ir embora. Poderia ter me dado o passaporte para o inferno. Uma porta diante da qual passei na ida e na volta naquele dia de julho de 1978, era um sumidouro (chupadero), segundo soube depois. Um lugar onde sumia gente. Pensava na infinita soma de atos de que cada pessoa humana é resultado. Saí da aula de ginástica, vi o rosto da recepcionista, sorridente, e segui viagem. Na padaria, outro sorriso da caixeira.

Na cabeleireira, a competência de quem ganha a vida trabalhando, cuidando dos demais. No supermercado, uma senhora idosa cedeu a vez a este que escreve, idoso mas nem tanto. Pensava na soma de atos de que cada vida humana é resultado. Pensava se algum dia teriam fim estas recordações. Pensava que se não fossem os fatos que me levaram a deixar a Argentina em 1977, não estaria aqui. Não seria quem sou. A vida tem seus caminhos. Quantos atos são necessários para que uma pessoa viva!

Por Rolando Lazarte

Doutor em Sociologia. Escritor. Terapeuta comunitário. Membro do MISC-PB Movimento Integrado de Saúde Comunitária da Paraíba. Vários dos meus livros estão disponíveis online gratuitamente: https://consciencia.net/mis-libros-on-line-meus-livros/

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