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A saga martirial dos povos originários: O caso dos Waimiri-Atroari

O processo colonizador, agravado pela expansão capitalista, em escala mundial, desencadeou uma sucessão de ataques a terras e gentes pelo mundo afora. Até na Oceania temos registros de hostilidades por parte dos invasores ocidentais, contra os aborígenes, haja vista, por exemplo, o relato (imaginário?) partilhado pela escritora Marlo Morgan, no livro intitulado “Uma Mensagem do Outro Lado do Mundo”, ed. Alma Livros (“Mutant message down under”, Haper Collins Publishers, 1994), sobre o qual já tivemos oportunidade de comentar, há uns quinze anos, na revista da FAFICA “Interfaces de saberes”.

Há farta documentação dando conta das atrocidades cometidas pelos colonizadores ocidentais contra nossos povos originários, nos diversos continentes, inclusive no continente americano. Nas periferias urbanas seus jovens e adultos indígenas perambulam sem destino, tornando-se presas fáceis de trabalhos análogos a escravidão, ou reféns da dependência alcoólica e de drogas.

Sorte semelhante continua reservada aos demais povos originários, inclusive nas Américas do Norte, Central e do Sul. No caso dos Estados Unidos, são diversos os registros históricos dos massacres cometidos pelos colonizadores comprovando também a devastação de suas terras e territórios. No Canadá, têm sido denunciados os maus tratos cometidos contra os indígenas até pelos cristãos. Em sua recente visita a este país, o Papa Francisco pediu perdão aos povos indígenas pelos malfeitos de que têm sido vítimas.  De volta a Roma, ainda em viagem, em entrevista concedida a jornalistas, o Papa Francisco não hesitou em denunciar o genocídio praticado pelos cristãos contra os povo originários do Canadá (Cf. https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2022-07/papa-francisco-coletiva-jornalistas-a-bordo-voo-retorno-canada.html) . No México e na América Central, é igualmente conhecida a tragédia de que foram alvo os Astecas e os Maias, assim como na América do Sul, sofreram as mesmas atrocidades os Incas, os Aymaras, os Mapuches e os povos originários do Brasil, desde as invasões europeias de 1492.

 

Nas linhas que seguem, voltamos nosso olhar especial para apenas um desses povos, os “Waimiri-Atroari”, situados no Amazonas.

Como os demais povos originários de outras regiões, os Waimiri-Atroari vivem há séculos na mesma região amazônica. Com suas organizações, com sua cultura, com suas crenças, com seus rituais, os Waimiri-Atroari viveram em paz até por volta de 1830, quando começaram a ser invadidos e perseguidos por caçadores, castanheiros, seringueiros, madeireiros, garimpeiros… Desde então, resistem bravamente. Tal a sua bravura nas ações de resistência e autodefesa que os brancos invasores os denominavam como “os índios mais ferozes do Brasil”. Quem vivia sossegado em seu território, e, tendo passado a ser agredido, tinha o dever de se defender, com seus meios próprios. Esta situação nos faz lembrar um dito satírico: “que bichinho malvado! a gente mexe com ele e ele morde”…

É dessa forma que os Waimiri-Atroari em numerosos episódios tiveram e têm que enfrentar uma luta renhida e desigual, não apenas contra invasores individuais ou em pequenos grupos, mas as próprias investidas do Exército, em especial no episódio da construção da BR 174 (eles a chamam “BR um, sete, quatro”), por construção em seu território, entre 1968 e 1988. Quem está de fora e de longe não percebe a gravidade do que estava acontecendo – uma verdadeira desgraça para os Waimiri-Atroari -, na medida em que esta BR introduziria uma série de consequência e ameaças:

  • Escancarava aos invasores todos os meios de agressão ao seu território;

  • Passaria a permitir livre acesso a garimpeiros e madeireiros e grileiros;

  • Sua vida cotidiana passava a ser gravemente alterada, em seu dia-a-dia, em sua organização, em seus costumes, em sua cultura;

  • A BR 174 se torna a porta de entrada de doenças letais para os nativos, que, vivendo isolados dos brancos, não dispunham de recursos, nem de acesso a serviço de saúde regulares…

 

Com efeito, por conta de sucessivas e continuadas investidas de toda sorte de invasões e de ataques, às aldeias perdem o sossego por causa das ameaças; cresce o número de vítimas de perseguições, de ataques, de abusos de mulheres e adolescentes, tendo os nativos que enfrentar todo tipo de contaminação (gripe, malária, sarampo e outros males, sem que possam recorrer a vacinas e tratamentos, dado o grau de isolamento da “civilização”. Tem que conviver com vários tipos de crueldades infligidas pelos não-Índios provocadas pela exploração desordenada de garimpos, a poluírem o subsolo, o solo, os rios, os peixes, as plantas e os próprios nativos. Têm que enfrentar a desenfreada extração de madeira, a derrubada da mata, com tudo o que representa tal devastação.

Impedidos de viverem em sua própria terra, sentem-se forçados a se afastarem: de início, os Waimiri-Atroari viviam a cerca de 50km de Manaus; depois tiveram que viver a cerca de 300 km de Manaus. Hoje vivem na fronteira entre Amazonas e Roraima.

Conforme estimativa feita no último quartel do século XIX, os Waimiri-Atroari chegavam a cerca de dois mil habitantes, apenas nos limites correspondentes a um rio. Em 1983, tal população era estimada em cerca de apenas 300 habitantes

Marcados por um profundo “ethos” comunitário – extensivo aos demais povos originários, os Waimiri-Atroari imprimiram em sua organização uma dinâmica de formação de um sólido consenso de modo que despendem largo tempo no exercício interno do diálogo com o propósito de maturar uma posição de consenso, diante dos impasses e em razão da tomada de decisões.

 

Aprendendo com os povos originários

Do modo de vida e da saga martirial dos povos originários temos muito a aprender. Aprendamos com eles que somos parte viva da Mãe Natureza, de sua espiritualidade cósmica, que nos faz sentir irmanados, não apenas entre nós, humanos, mas também com toda a comunidade dos viventes: minerais, plantas e animais. Como habitantes da Terra, compartilhamos responsabilidades recíprocas, quanto às nossas origens e destinos. Aprendemos com eles que não somos donos, mas filhos da Mãe Natureza, e irmãos e irmãs dos que habitam nesta Casa Comum. Mantenho viva, na memória,  a este respeito, um denso depoimento prestado pelo Cacique Xicão Xukuru, pouco antes de seu assasinato em 1998, que vale ser conferido (cf. https://www.youtube.com/watch?v=lMCzb0eLY7g ). Neste sentido, importa realçar 2 traços relevantes da vivência e da cultura dos povos originários: a força mística inspirada pelos ancestrais e o senso de co-responsabilidade manifesto no cultivo da persistência. O teólogo José Comblin faz menção, em seu convívio com membros dos indígenas equatorianos, em Rio Bamba, em que se declara impressionado pela persistência daquela gente, em distintas circunstâncias. Procedimento semelhante manifesto também pelos povos indígenas bolivianos, haja vista sua força comunitária e sua organização na sustentação do Governo Evo Morales, conforme ele próprio reconhece em recente entrevista (cf. https://www.brasil247.com/americalatina/evo-morales-explica-papel-do-reino-unido-no-golpe-da-bolivia-de-2019-91op7vcg ).

Na citada entrevista do Papa Francisco, chama a atenção o fato de se referir aos povos originários como portadores de excelência de dotes poéticos, por conta da harmonia que sustentam com a Mãe Natureza, razão pela qual se sente muito tocado pelo paradigma do “Buen Vivir”. Trata-se, por conseguinte, de lições a extrair de sua contribuição.

 

João Pessoa, 02 de agosto de 2022

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