A língua falada também na escola

Por que algumas diferenças no jeito de falar em relação à norma culta são consideradas erradas e outras não? Por que se diz que um determinado tipo de linguagem tem regras e o outro não? Por que falar de determinada forma, dependendo do lugar onde se fala, pode ser motivo de chacota? Nas últimas semanas, a mídia noticiou de forma insistente que um livro didático, chamado ‘Por uma Vida Melhor’ , escrito para apoiar o trabalho dos professores da Educação de Jovens e Adultos (EJA) autorizado pelo Ministério da Educação incentivava erros de português. No entanto, muitos linguistas e o próprio MEC rapidamente se pronunciaram em apoio ao material, explicando que, na verdade, o que o livro traz é a discussão sobre variação linguística.
Vera Masagão, coordenadora geral da Ação Educativa, organização não-governamental que elaborou o livro criticado, acredita que a polêmica abre a possibilidade de debater a importância de as variações linguísticas fazerem parte do cotidiano da escola. “Uma boa parte dos veículos insistiu em descontextualizar a informação para realmente gerar um escândalo, quando na verdade não existia escândalo nenhum. O livro traz uma proposta totalmente coerente com os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e vários linguistas dizem que é uma posição corrente no ensino. O saldo positivo, apesar da desinformação, foi que a polêmica acabou levantando uma discussão que é interessante do ponto de vista educacional e cultural do país”, afirma.
A linguista e professora da Universidade de Brasília (UNB) Stella Maris Bortoni também considera que houve uma leitura equivocada sobre o livro. “Algumas pessoas interpretaram equivocadamente que mostrar formas diferentes de falar era o mesmo que dizer: ‘olha, fale assim’. Não é isso. O que se fez no livro foi mostrar que há formas diferentes de falar. No entanto, o material também explica muito bem que na língua escrita formal a forma indicada é, por exemplo, ‘nós pegamos o peixe’ e não ‘nós pega o peixe'”, destaca. Para a linguista, a escola já apoia esse tipo de postura que ela chama de multiculturalista. “Nós somos um povo multicultural, com raízes étnicas e culturais diferentes. Também nos modos de falar nós teremos possibilidades variadas”, sustenta.
Para a professora-pesquisadora de língua portuguesa da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz)Viviane Soares, muitos dos que criticaram o livro não o leram. “Essa polêmica traz para a sociedade de uma forma geral uma discussão que está há muito tempo localizada nos órgãos de ensino e é uma discussão latente. Que português nós vamos ensinar em sala de aula? Cada vez mais os estudos linguísticos nos mostram que o tratamento da variação é indispensável em sala de aula. Nas últimas semanas, a ignorância da mídia mostrou que há um desconhecimento do que se faz em termo de pesquisas linguísticas no Brasil há muitas décadas”, diz.
Variedade linguística
Em um dos trechos do livro ‘Por uma vida melhor’ mais criticados na mídia, no capítulo “Escrever é diferente de falar” a autora usa o exemplo: “Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado” para discutir a variedade linguística. Ela explica que na norma popular da língua essa frase é usada, mas que na norma culta, o correto é: “Os livros ilustrados mais interessantes estão emprestados”. A autora acrescenta: “Você pode estar se perguntando: ‘Mas eu posso falar ‘os livro?’.Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico. Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as formas linguísticas. O falante, portanto, tem de ser capaz de usar a variante adequada da língua para cada ocasião”, explica a autora.
Para Stella Bortoni é justamente essa flexibilidade que a escola deve ensinar sem, no entanto, deixar de garantir aos estudantes o conhecimento da chamada língua padrão.”Não se pode simplesmente dizer assim: ‘agora toda forma de falar é boa’. Toda forma de falar é boa e consegue se comunicar, mas há modos e formas de falar que têm prestígio social. A maior parte das nossas crianças no Brasil não tem acesso a modelos da língua de prestígio, nem na família, nem na vizinhança, elas só vão ter esse acesso na escola. Então, a escola tem por missão ampliar essa capacidade que as crianças têm de usar a língua portuguesa”, diz.
A professora explica que todas as línguas naturais, ou seja, aquelas que não são inventadas, são passíveis de mudança de acordo com a situação na qual são faladas. “Toda língua natural é marcada pelas variações, que são recursos importantes para podermos exercer os nossos papéis sociais. A nossa sociedade contemporânea é muito complexa, exercemos muitos papéis sociais em função da complexidade e da organização da sociedade, e para exercer esses papéis precisamos circular por espaços linguísticos, usando a língua com maior monitoramento ou de uma forma mais descontraída”, detalha. Stella acredita que o ensino adequado das variantes linguísticas nas escolas garante que a pessoa faça essa avaliação sobre que tipo de linguagem deve usar em determinados momentos e espaços. “A escola tem essa função de ampliar a competência linguística, principalmente o que chamamos de competência comunicativa, para que nossos alunos possam usar na fala e na escrita. Assim, eles vão começar a ter acesso a modos de falar que não são usados no domínio da casa e nas conversas espontâneas, mas são modos de falar que eles vão selecionar quando a circunstância assim o exigir. Isso não é complexo, é simples. Uma fala é boa e adequada quando se está levando em conta o interlocutor”, acrescenta.
Para Viviane, a variação linguística deve ser base de todo o currículo do ensino da língua portuguesa, em um esforço de incentivar uma reflexão científica sobre a língua. “Entender a escola como um lugar para tratar da variação da língua é fundamental, sobretudo num país que ainda demoniza isso. A escola é reconhecidamente o espaço institucionalmente mantido para tratar das questões que dizem respeito ao ensino da norma culta. Mas o ensino da variação precisa estar presente até para que consigamos discutir com o aluno a norma culta”, opina. A professora reforça que é preciso partir dos conhecimentos que o aluno já traz para a sala de aula. “E o que ele traz é a sua forma informal de falar. Partimos disso para discutir com ele a norma culta. O professor pode se apropriar dos exemplos que os próprios alunos trazem para mostrar que aquela fala coloquial deles também pode ser acolhida e não deve ser considerada uma fala defeituosa”, acrescenta.
A professora pondera que, no entanto, é preciso deixar claro para os estudantes que o uso da norma culta está associado a valores sociais e econômicos. “Os estudantes precisam aprender a perceber sem preconceito a linguagem como um conjunto múltiplo e entrecruzado de variedades sociais, geográficas, estilísticas. E, além disso, entender que a variabilidade e a heterogeneidade da língua estão relacionadas à vida e à história dos diferentes grupos sociais presentes na sociedade”, observa.
Vera Mazagão lembra que, para o público a que o livro ‘Por uma vida melhor’ se destina, estudantes da modalidade EJA, essa discussão de reconhecimento da linguagem popular é ainda mais necessária. “São pessoas que já chegaram à vida adulta com uma fala bem consolidada, não necessariamente influenciada pela escola como acontece comquem vai para a escola desde pequeno. Essas pessoas estão geralmente imersas em uma comunidade que também é de baixa escolaridade, que tem esse falar popular. Então, a nossa proposta pedagógica é que elas tomem consciência da sua variedade linguística sem menosprezá-la. Procuramos mostrar que elas têm uma língua, que essa língua tem uma gramática e na gramática da sua variante lingüística, a concordância verbal e nominal não é a que a norma culta exige. Portanto, elas têm que tomar consciência disso para adotar a norma culta quando necessário”, diz.
Língua e poder
É bastante comum se ouvir de pessoas com poucos anos de escolaridade frases como: “eu não sei falar bonito”, diante de outras pessoas que elas acreditam que possuem mais capacidade de fala. Stella destaca que muitas pessoas se sentem inibidas para falar em público justamente por não terem segurança no uso da língua da forma mais adequada de acordo com a situação na qual se encontram. A professora explica que o domínio da língua padrão confere poder a quem a usa, por isso, é necessário garantir esse domínio para todas as pessoas. “Se as pessoas estão se sentindo inibidas é porque não puderam ter acesso às formas prestigiosas de falar. Falha de quem? Da sociedade que não forneceu escola adequada que ensine a usar a língua portuguesa na modalidade oral, em qualquer tarefa comunicativa”, reforça.
Viviane acrescenta que, nesse jogo de poder, alguns usos da linguagem que vão contra a gramática são aceitos pelos falantes da norma culta enquanto outros são marginalizados. “‘Nós pega o peixe’, que é o exemplo dado pelo livro, é um jeito de falar marginalizado, diferente de outros usos, como por exemplo, o verbo namorar, que na gramática é um verbo transitivo direto, ou seja, para o qual não se utiliza preposição, mas que no decorrer do tempo passou a ser utilizado também com a preposição ‘com’.E isso é considerado aceitável”, exemplifica.
Vera Masagão comenta que é exatamente por isso que o livro ‘Por uma vida melhor’ fala na existência de um preconceito linguístico. “Não é que esses sejam erros piores do que os erros bem vistos, que passam despercebidos. O que acontece é que os erros mal vistos são comumente feitos pelas classes populares. Então, trata-se sim de preconceito linguístico. Dizemos isso no livro não no sentido de autorizar o aluno a falar com esses erros, mas para ele ter consciência das razões pelas quais ele tem que se esforçar para adquirir essa norma culta e usá-la como for conveniente”, observa.
Variação popular também tem regras
Segundo Viviane, é equivocada a ideia de que a variedade popular da língua não está submetida a regras. “Enquanto a norma culta prevê a marcação não só do primeiro elemento no plural como em toda a frase – ‘os livros foram emprestados’ -, a regra para a variedade popular é diferente: marca-se o plural no primeiro elemento. Então, na variedade popular existe a possibilidade de se ter a frase ‘os livro foi emprestado’. Em contrapartida, a frase ‘o livros’, com o plural apenas no segundo elemento, não é uma produção linguística que faça parte nem da variedade popular, nem da variedade culta”, detalha. “É preciso desmistificar o fato de que de um lado nós temos a ordenação gramatical na variedade culta, e de outro o caos absoluto na variedade gramatical, isso é um mito”, acrescenta.
O livro ‘Por uma vida melhor’, para Viviane, é inclusive pouco enfático no tratamento da variedade linguística. “Há algumas questões que não são tratadas ou são tratadas superficialmente, e isso foi percebido pelos nossos alunos quando analisaram o livro na oficina que realizamos. Há uma preocupação em mostrar o lugar da informalidade, quais são as esferas de circulação dos discursos que nos autorizam previamente a um discurso informal. Mas faltou o outro lado, pois em alguns contextos informais, ser formal demais também é prejudicial”, analisa.
(*) Reportagem publicada originalmente na página da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz).

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