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Lições de uma experiência pastoral pouco edificante: ponderações e questionamentos

No último dia 06 de julho, foi amplamente divulgada, na imprensa e em algumas redes sociais, a “renúncia” do Arcebispo da Paraíba, após doze anos à frente do governo desta Arquidiocese (cf., por ex.:
http://www.jornaldaparaiba.com.br/noticia/172494_renuncia-de-dom-aldo-repercute-na-imprensa-internacional-com-destaque-nas-denuncias/#.V38sIK-yZi0.mailto

http://www.maispb.com.br/186560/dom-aldo-quebra-silencio-e-denuncia-esqquema-de-desvio-de-dinheiro-na-igreja-paraibana.html
Ao longo deste período, o governo arquidiocesano da Igreja Católica da Paraíba foi alvo de dezenas de graves acusações. Não ignorando atividades e iniciativas próprias de um administrador eclesiástico, vasta, contudo, foi a sucessão de incidentes éticos e pastorais pouco ou em nada edificantes para a caminhada eclesial, dos quais se sobressaem não poucos de caráter e alcance profundamente traumáticos, não apenas para a comunidade católica, mas para expressivas parcelas da população da Paraíba. As linhas que seguem, têm o propósito de tocar, de passagem, em algumas das primeiras lições a extrair dessa dolorosa experiência, cujo impacto deletério poderia ter sido, se não de todo evitado, pelo menos fortemente minorado, inclusive quanto à duração.

Estamos convencidos, nesses e em tantos outros episódios – seja no campo eclesial, seja no campo não-eclesial -, de que não se logra êxito, quando se tenta jogar apenas sobre indivíduos isolados todo o peso da responsabilidade, quer pelos bons, quer pelos malfeitos. Sem ignorar a parcela de responsabilidade individual, a autoria de malfeitos é (quase) sempre compartilhada, ao menos sob certos aspectos. É isto que buscamos examinar, por meio de algumas ponderações e alguns questionamentos sobre tal experiência de efeitos devastadores.

Ontem como hoje, o Povo de Deus caminha, tropeça, às vezes dá um passo para frente e dois para trás… depois, recompõe-se… e assim segue.

Protagonizando, embora, também durante o referido período, alguns momentos luminosos excepcionais – afinal, muita coisa bonita também se passa, nas “correntezas subterrâneas”, graças à ação do Espírito Santo e de quantas e quantos Lhe respondem ao chamado, com generosidade, a Igreja Católica da Paraíba, há doze longos anos, tem vivido uma experiência pastoral globalmente avaliada como pouco construtiva – para dizermos o mínimo. Graves deslizes vêm-se acumulando, de modo a comprometer a vitalidade eclesial e pastoral historicamente característica da caminhada desta porção do Povo de Deus, que se tornou referência nacional, graças ao testemunho profético-missionário de vários de seus membros – mulheres, homens, leigas, leigos, religiosas, religiosos, diáconos, presbíteros, bispos, comprometidos com a causa libertadora dos pobres, dos enfermos, dos perseguidos por causa da Justiça do Reino de Deus.

Nessas “correntezas subterrâneas”, a Igreja Católica da Paraíba tornou-se, por longos anos, uma referência profético-missionária, da qual destacamos, de passagem:
– a densa atuação das PCIs (Pequenas Comunidades de Religosas Inseridas no Meio Popular); a Teologia da Enxada, a caminhada das CEBs, as pastorais sociais (CPT, PJMP, CPO…), CEBI – apenas para mencionar algumas dessas fecundas experiências da “Igreja na Base”… Não foi por acaso, a propósito, que, em João Pessoa, se realizou o 3º Intereclesial das CEBs, em 1978.

Como entender que, dessa caminhada tão fecunda – a despeito de suas insuficiências – tenhamos desembocado num período tão sombrio – com suas exceções também luminosas? Eis por que nos pomos a refletir, em busca de discernimento, dom do Espírito Santo, por meio de indagações, do tipo:

– Até que ponto os bons frutos profético-pastorais colhidos, em décadas precedentes, tiveram a ver, não apenas com os bons ventos do Vaticano II e, sobretudo, de Medellín, mas também com o perfil profético-pastoral de uma geração privilegiada de bispos, de leigas e leigos, de religiosas e religiosos e de agentes de pastoral da chamada “Igreja dos Pobres” (expressão tão cara ao bom Papa João XXIII) ou “Igreja na Base” e sua rede de organismos?

– Por outro lado, sabemos que contar com uma geração de bispos com aquele perfil será mesmo, por si só, garantia da continuidade daqueles frutos? Sem deixarmos de reconhecer a preciosa contribuição de pastores com aquele perfil, será que, na perspectiva do Espírito Santo e da Tradição de Jesus, nossa atuação profético-missionária tem que depender apenas deste segmento eclesial e, menos ainda, de um de seus membros, por mais respeito que lhe devotemos?

– Tal reducionismo não teria a ver com nosso descaso ao que o Espírito Santo nos ensina, por exemplo, desde o Batismo, por força de cujo Sacramento somos, todos, chamadas e chamados a ser membros vivos do Povo de Deus, membros de uma Igreja, toda ela profética, toda ela discípula, toda ela missionária, toda ela pastora, toda ela cidadã do Reino de Deus (não é isto o que somos chamados a interpretar da vocação à tríplice missão infundida por ocasião do nosso Batismo, de “sacerdote, profeta e rei”)?

– O que nos teria sucedido, se, solícitos ao que o Espírito nos acenava, por meio da brisa do Vaticano II e do espírito de Medellín, tivéssemos implementado, no devido tempo, suas intuições mais fortes, de diálogo, de exercício efetivo e rotineiro de colegialidade (com decisões tomadas por órgãos colegiados (diocesanos, paroquiais…), dos quais fossem membros não apenas delegados do segmento hierárquico, mas também delegadas e delegados dos demais segmentos eclesiais?

– Para o desfecho que acabamos colhendo – afinal, também aqui, colhemos o que plantamos… -, que papel terão jogado os pontificados imediatamente precedentes ao do Papa Francisco, durante um período- de mais de trinta anos?

– Se a garantia do caminhar de nossa Igreja reside na força da Palavra e na nossa generosidade em responder aos apelos do Espírito, uma simples mudança de bispo poderia determinar o fracasso de nossa caminhada?
Como entender que, mais de cinquenta anos após o Concílio Ecumênico Vaticano II, e após quase meio século de Medellín, com todo aquele legado de refontização (Dei Verbum), de reconhecimento da centralidade do Povo de Deus na organização da Igreja Católica (Lumen Gemtium), de atualização (“Aggiornamento”), de colegialidade (Christus Dominus), de diálogo (Gaudium et Spes), de abertura ecumênica (Unitatis Redintegratio; Nostra Aetate), de reconhecimento da autonomia das realidades terrestres (Gaudium et Spes), de renovação da consciência missionária (Ad Gentes), etc., etc., ainda não tenhamos dado passos sequer em relação aos critérios de consulta à comunidade (não apenas à hierarquia) sobre a escolha e transferência de bispos (e outros ministros)?

– Uma consulta ao Google, por exemplo, é suficiente para se ter uma idéia do número, da duração e da frequência de denúncias sobre o caso em tela. Será que tais denúncias, acrescidas de várias manifestações e protestos, dentro e fora do espaço eclesial, não podem ser consideradas sinais de alerta para o conjunto de órgãos colegiados e instâncias eclesiásticas superiores, de modo a apurar a veracidade ou não, e a tomar providências cabíveis?

– Que providências concretas terão sido tomadas por esses organismos, nos respectivos âmbitos?

– Há quantos anos a Nunciatura Apostólica foi informada, em detalhes, sobre as denúncias, e que providências tomou?

– Em relação ao clero local, à exceção de alguns de seus membros, que posição concreta tomou, em relação ao caso? Em especial, os órgãos colegiados que posição tomaram frente à sucessão de denúncias? Por qual posição optaram: destituir-se de suas respectivas funções, já que, em certa medida, se tratava de órgãos “pro forma”, ou preferiram continuar inalterados, e assim, coonestando objetivamente tal governo?

– O que teria levado os auxiliares mais diretos do governo arquidiocesano a seguirem funcionando a esse título, a despeito da interminável sucessão de denúncias? Em quê tal posição ajudou a superar os impasses?

– Que iniciativas foram ou vêm sendo tomadas, em relação à participação da comunidade arquidiocesana, no processo de escolha do novo arcebispo?

– O Papa Francisco, por seus gestos, palavras e escritos, segue sendo uma voz no deserto, em nossa Igreja Católica, não esquecendo as “minorias abrahâmicas” espalhadas por este mundo de Deus. Quem e onde tem sido o Bispo de Roma, ouvido e seguido, em seus testemunhos proféticos-pastorais, inclusive no que nos escreve em escritos basilares, tais como a “Evangelii Gaudium”, a “Laudato si”, ou ainda um pronunciamento seu sobre as deformações provocadas pelo clericalismo (cf.http://papa.cancaonova.com/clericalismo-e-uma-deformacao-enfrentar-diz-papa)

João Pessoa, 12 de julho de 2016

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